Jewish-Christian Relations

Entendimentos e Assuntos no Diálogo Cristío-Judaico

  • About us
  • Contact
  • Legal Notice
Escolha seu idioma: English Deutsch Português Español Français русский 
  • Home
  • Artigos
  • Declarações
  • Notícias
  • Resenha de Livros
  • Pessoas
  • Links
  • Procurar
  • Observa
  • Fundamentais & Introduções
  • Contribuições Científicas
  
  • Artigos |
  • Contribuições Científicas |
  • Teologia e literatura
Similar articles
Used Tags
Artigos | Contribuições Científicas (466)

Freadman, Richard | 01.04.2007

Teologia e literatura

por Richard Freadman

I

O Conselho de Cristãos e Judeus e uma organização dedicada a tolerância e entendimento. Essas palavras – ‘tolerância’, ‘entendimento’ – são fáceis a serem ditas mas, como nós todos o sabemos bem demais, difíceis para serem desempenhadas. Muitos dos nossos maiores textos literários se ocupam com a natureza de tolerância, entendimento, e como o relacionamento entre essas virtudes humanas complexas. Neste ensaio, proponho ler um texto literário por um dos primeiros escritores do século dezenove, Herman Melville, principalmente conhecido pela sua épica metafísica sobre baleação e sentido de vida, Moby Dick. A maior parte de Moby Dick toma lugar no alto mar, mas a narrativa que quero discutir aqui está posta num escritório de lei de Nova Iorque. (Melville, uma vez, trabalhava num escritório tal.) Está chamada de Bartleby the Scrivener: A Tale of Wall Street, um escrivão sendo um oficial de lei. É, como verás, um conto estranho sobre um homem estranho.

Publicado em 1853 (Melville viveu de 1819-91), Bartleby (como o vou chamar daqui em diante) é inquirição brilhante na natureza humana e nas limitações de tolerância e entendimento humanos. É uma história escrita por um não-judeu, mas contém o reconhecimento de que somos todos ‘filhos de Adão’ (deixai-nos aqui fazer menção de Eva e filhas também!). Lerei a história dum ‘ponto de vista’ judaico, não num sentido doutrinal, mas enquanto como a história dos judeus formou em mim uma ocup0ação com tolerância e desvios relacionados que se apresentam àquelas criaturas defeituosas mas doadas que chamamos de seres humanos. Queria acrescentar que Judaísmo, como Cristandade, tem focos insistentes no negócio duro de viver uma vida ética no aqui e agora. Bartleby está profundamente ocupado com que significa viver a Vida Boa num sentido ético.

II

O contorno mais nu da história é este: Um advogado não nomeado, que também o narrador da história, emprega Bartleby para trbalhar no seu escritório. Há já três empregados no ofício: um copista excêntrico chamado “Turco” – um inglês nos seu 60s dado (deduzimos) a beber pesado, tornados à hiper-atividade e trabalho decididamente imperfeito; um outro copista, “Nippers” [Alicate], um homem de cerca de vinte-e-cinco, está algum tanto sensível e descontento e também menos que consumado na realização dos seus obrigações do seu ofício. Então há o mensageiro de escritório, “Ginger Nut” [Noz de Gengibre], de doze anos e pueril nos seus modos, que faz recados e faz trabalhos ocasionais.

A história começa com retratos dessa turma um tanto traçada. As descrições deles cheias duma ironia perdoadora, aceitação sábia da peculiaridade humana, a qual também serve como introdução ao narrador. Logo no começo, o advogado alude à importância do ‘sentimento de solidariedade’ – frase que reforça o nosso senso de que gente é um ser ético decente; alguém que valoriza outros não justamente pela utilidade destes, mas porque, como seres humanos, são portadores de certos direitos, inclusive o direito a respeito e o direito de realizar a particularidade do seu próprio eu. Até lhes concede o direito de fazer isso no lugar de trabalho, embora com ligações razoáveis.

São essas as pessoas às quais Bartleby se junta no seu ofício quando está sendo empregado como escrevente. Inicialmente, Bartleby tira o advogado como ‘desesperado totalmente puro, deploravelmente respeitável, incurável’; mas, confidente de que vá ser um trabalhador bom, o põe numa mesa dentro duma distância de chamada fácil da sua própria. A mesa de Barthleby, no entanto, olha por uma janela diretamente na parede. Tudo anda brandamente por um tempo. Barthleby trabalha duro e consegue fazer grande parte de trabalho monótono. Então um dia, quando está sendo particularmente apressado duramente, o advogado chama Bartleby para ajudar copiar cópias de registro de documentos que o Bartleby tinha tirado. Ao que Bartleby proferiu uma das linhas mais famosas na literatura americana: “Preferia não fazer isso.” O advogado está atordoado, mas atualmente concorda para isentar Bartleby da tarefa que este prefere não fazer.

As coisas pioraram. O advogado acha que Bartleby tomou residência no seu ofício; tenta a demiti-lo. Quando falha para banir Bartleby do local e da sua vida , o advogado muda os seus ofícios. Bartely fica no local antigo: o proprietário chama a polícia que declara Bartleby um vagabundo e o leva aos Túmulos, onde ele finalmente morre, encarando uma parede. Mas tudo sem sucesso. Além disso, falha em aprender algo sobre essa aparição mesquinha, acerba, e disruptiva de homem. Ouve reportagens e um rumor sobre o passado de Bartleby de que este trabalhou por um tempo num ofício de letra morta.

Quero agora olhar a Bertleby e o advogado outra vez; para ver o que nos possam contar, tanto sozinhos como no modo de ‘interagir’ sobre tolerância e entendimento.

III

A figura de Bartely pode ser entendida de muitos modos – essa, de fato, é uma das coisas que cunha essa história como uma peça grande de escrever imaginário. Em termos da espécie do esquema intelectual, que poderíamos estar inclinados a invocar, Bertely pode ser visto como exemplo duma figura que assombrava a imaginação do século dezenove (e continua assombrar a nossa própria): a solitária. O advogado se refere verdadeiramente a ele como ‘solitário’ e diz dele que está ‘sozinho no universo’. Associamos o solitário particularmente com literatura romântica e pós-romântica. Como contraste, o advogado está mais semelhante ao Homem de Razão do Iluminismo: esposa os valores de racionalidade, ‘senso comum’ (frase que atualmente usa na história), moderação, balanço e uma espécie de simpatia tolerante que toma o seu conselho duma combinação de estima racional ‘sentir de companheiro’. A sua simpatia é real – não há dúvida sobre isso; mas, particularmente logo no começo, tem também limites: depois de tudo, vive uma vida ordenada e essencialmente convencional e profissional. O advogado é também cristão: consulta escritos teológicos quando tentando a decidir o que fazer da erupção de Bartleby na sua vida, e a história pode ser lida como fábula cristã de último dia sobre um encontro entre o homem cristão, predisponte, bondoso e um alheio passeando da humanidade humana. Outro aspeto saliente de Barleby é que é um homem sem história; um homem que apresenta nada do seu passado e, portanto, não pode ser posto por outros num contexto narrativo que os capacitasse a pegar e se referir apropriadamente ao seu comportamento. O narrador diz que Barleby é ‘um daqueles seres sobre os quais nada está acertável’.

Antropólogos, por vezes, descrevem a humanidade como ‘o animal contando história’. Comunidade humana está fundamentalmente constituída pelo intercâmbio de histórias, sejam elas atividades de dia-a-dia como bate-papos de café ou as grandes narrativas culturais (a Bíblia, a Toráh) sobre os significados mais amplos da vida humana. Aquelas de Bartleby, que se recusa a participar na atividade comunal de contar história tende a incorrer opróbrio, porque estão recusando o próprio médio em que vida social toma lugar. De fato, é a desinclinação de Bartleby compartilhar a sua história, antes que a sua atitude in-cooperativa das suas tarefas de ofício, a qual constitui o ato mais radical da sua recusa: “Preferia não para” expressa a recusa da própria comunidade humana.

Bartleby tem um ‘sentimento moderno’ extraordinário sobre isso, e isso faz parte porque descreve em termos notavelmente modernos determinados fenômenos psicológicos com os quais estamos familiares. Em fraseologia moderna, Bartleby possa ser chamado uma personalidade ‘passivo-agressiva’. O advogado, de fato, vem perto a descrevê-lo justamente deste modo: ‘Nada agrava tanto uma pessoa séria que resistência passiva’. Agressão passiva é arma potente, e a recusa de Bartleby para se engajar com um outro ser humano, mesmo pela expressão de raiva, às vezes empurra o advogado perto a distração. Se Bartleby for passivo-agressivo – e desde que não estivermos nunca permitidos para dentro da sua mente, poderemos somente especular sobre isso – isso representa um dos aspetos da sua personalidade que é, por assim dizer, particular para ele.

No entanto, já vimos que Bartleby possa ser entendido numa variedade de modos, alguns deles particulares, outros de acordo ao que está emblemático de determinadas tendências em geral. Quando o narrador diz que Bartleby é ‘um daqueles seres humanos sobre os quais nada está acertável’, isso soa como se esteja identificando uma classe bem rara e pequena de seres humanos. Mas visto de outro modo, está de fato algo sobre seres humanos em geral: a saber que, num degrau considerável, nós somos todos desconhecidos, opacos uns aos outros. E isso se aplica até àqueles que ‘conhecemos’ o melhor: família, amantes, amigos estreitos. Bartleby, então, está emblemático da ‘outeridade’ oclusa estranha que envolve cada ser humano como uma espécie de aura. Isso, também, é algo que o advogado deve tentar a negociar.

IV

O advogado, então, confronta uma examinação moral severa na pessoa de Bartleby. Já que Barteleby não revela nada da sua vida interior, ele é – poderíamos dizer – opaco ao n-esimo degrau. Isso significa que, embora tolerante e simpático, o advogado pode querer que haja, referente ao seu escrivão aberrante, aquela toleração e simpatia não possa ser fundada em, ou direcionada por, entendimento – pelo menos não por entender no sentido de ser capaz de pegar algo do estado e motivações interiores dum outro indivíduo. Nem pode o advogado esperar manter a sua equanimidade quando confrontado por um homem que tem nada ‘ordinariamente humano sobre ele’; um homem que está ‘obstinado’, aparentemente possuído por uma espécie de ‘perversidade’, que mostra quase nenhuma percepção dos protocolos usuais de comportamento, muito menos inclinação para observá-los; quem carecer dos ornamentos que estimamos usualmente nos outros: vitalidade, comunicatividade, presença sexual, responsatividade a outros e ao mundo, um senso de urgência associado com cometimento para valores e projetos compartilhados.

Pouco a estranhar, então, que Bertleby lança o seu empregador numa viagem emocional de rolo costeiro, na qual, no estado de fluído emocional violento e não-característico, experimenta raiva, perplexidade, pena, perplexidade, culpa, auto-satisfação moral, sentimentos de poder, os quais estão sendo contrabançados por sentimentos de impotência extrema, quase emasculação – e muitos outros.

O render criativo de Melville desse tumulto interno é de mestre, e um modo de descrever o que acontece ao advogado é dizer que essa experiência de tumulto perde as estruturas protetoras e habituais daquilo que era uma espécie benigna de egotismo; que Bartleby inadvertidamente força o advogado a tomar perder ainda maior, um auto-referencial menor, uma visão do mundo que tomava até agora. Ele está, numa frase bem usada, humanizado por sofrimento por carregar testemunho, ou sendo levado dentro, do sofrimento dum homem como Bartlevy. O ponto virador vem quando descobre que o seu escrevente está vivendo no seu escritório. Reflete que, embora estranho e enfurecido, Bartleby é inocente. E então:

Pela primeira vez na minha vida, um sentimento de melancolia dominadora pungente me pegou. Antes, nunca experimentara outra coisa alguma do que uma tristeza desagradável. O elo de humanidade comum me empurrava irresistivelmente a tristeza. Uma melancolia fraternal! Pois ambos, eu e Bartleby éramos filhos de Adão.

Esse sentimento está ecoando no fim da história: as suas últimas palavras são: ‘Ai, Bartleby! Ai, humanidade!’. Em outras palavras, Bartleby, como figura emblemática, forçou o advogado à percepção penosa da natureza conflitada e solitária da vida humana. Agora sabe que os protocolos de Wall Street representam uma apreciação absurdamente parcial da condição humana, e que qualquer ser humano, até algum que estiver alheio na Wall Street, deve ser endereçado num modo que reflita uma qualidade de atento dessa condição mais ampla – uma qualidade de atento que inevitavelmente conterá traços de tristeza, de embaraço e de pena do mundo. Tal orientação referente ao mundo e os outros opacos que o compõem envolve entendimento duma certa – embora parcial – espécie; e Bartleby o Escrevente parece sugerir que está nessa espécie de entender que tolerância verdadeira possa pegar raiz o melhor.

As várias denominações religiosas que compõem as nossas comunidades fariam bem ponderando está história. É uma história que nos mostra como a estranheza do Outro possa provocar insegurança, perplexidade e ira; como aqueles cujas histórias estão desconhecidas ou desiguais à nossa própria possam ameaçar o nosso senso protectivo e insular de comunidade; e que toleração verdadeira é coisa que vem com poucas coisas atadas, poucas condições e sem um entendimento pleno daqueles aos quais aquela toleração se estender.

Cristãos e judeus vivem por histórias que vêm, pelo menos em parte, de raiz comum. Isso poder ser fonte de contato o fonte de disputa. Bartleby o Escriturário nos parece contar que haja segurança na conversação; que em compartilhar histórias poderíamos aprender bastante para conectar, mas também aceitar o fato de que haja coisas sobre outros que não podemos aprender. Depois de tudo, o que o advogado faz quando confrontado com a memória desconcertante de Bartleby? Ele a anota; ele compartilha a sua história conosco.


Texto inglês
Tradução: Pedro von Werden SJ, Rua Padre Remeter 108, Bairro Baú, 78.008-l50 Cuiabá, MT, BRASIL - pv-werden@uol.com.br


FootnotesTo top


 
© 2010 International Council of Christians and Jews