Jewish-Christian Relations

Entendimentos e Assuntos no Diálogo Cristío-Judaico

  • About us
  • Contact
  • Legal Notice
Escolha seu idioma: English Deutsch Português Español Français русский 
  • Home
  • Artigos
  • Declarações
  • Notícias
  • Resenha de Livros
  • Pessoas
  • Links
  • Procurar
  • Observa
  • Fundamentais & Introduções
  • Contribuições Científicas
  
  • Artigos |
  • Contribuições Científicas |
  • Sete Cartas de Rábi a Rábi -
Similar articles
Used Tags
Artigos | Contribuições Científicas (467)

Fuchs-Kreimer, Nancy

 
Sete Cartas de Rábi a Rábi

As Sete Cartas Existentes
de Rábi Nancy de Philadelphia a Rábi Paulo de Tarso

Nancy Fuchs-Kreimer

Carta Um

... Assim também o nosso amado irmão Paulo ... vos escreveu ... cartas ..., nas quais há algumas coisas de duro para entender... (2Pedro 3,15-16)

Caro Paulo,

Tu és, inquestionavelmente, um dos mais fascinantes e prestigiosos judeus que já viveram. Ontem, estive perambulando entre as estantes da biblioteca dum seminário cristão à procura de mais um livro sobre ti, mais um esforço dum cientista para reconstruir o quê tens dito e porquê. De repente, imaginei que estarias ao meu lado, „um homem de baixa estatura com careca e pernas arqueadas, em bom estado de corpo, com sobrancelhas que se encontram e com o nariz um tanto recurvo, cheio de afabilidade",1 (se uma descrição de ti do século segundo for correta). Observarias ironicamente os corredores e corredores cheios de estirados livros sobre, „A Teologia de Paulo", „Como Paulo Viu a Lei". Tu, que nunca escolheste escrever um texto filosófico, um tratado teológico ou uma autobiografia, estás agora o sujeito de milhares de análises. O que escreveste, eram cartas às igrejas que ajudaste a fundar. Devoramos essas cartas para chaves, mesmo embora os nossos pais nos tenham ensinado não ler o correio de outras pessoas. Qualquer coisa que sabemos sobre ti, está baseada nas sete cartas no Novo Testamento que trazem o teu nome e que os peritos consideram genuínas. (O Livro dos Atos pretende contar-nos mais sobre tua carreira, mas tratamo-lo com ceticismo, já que o seu autor, "Lucas", tinha a sua própria agenda.) Quando perscrutava as prateleiras na procura do livro que precisava de ti, imaginava-te ao lado de mim, sorrindo indulgente.

É óbvio porque cristãos precisam conceber aquilo que pensaste. A tua seita judaica marginalizada radical, finalmente chegou a ser uma poderosa comunidade religiosa envolvendo mais que um terço dos homens, mulheres e crianças nesta terra. Cristãos vêem tuas cartas a igrejas ao redor do Mediterrâneo, escritas nas primeiras décadas do seu movimento, como fontes fundamentais para a fé cristã. De fato, teologia cristã é a "série de notas de rodapé a São Paulo".2

Mas porque eu, uma judia, desejo conhecer-te melhor? A maioria da gente da minha religião, a partir da tua era até à minha, vêem-te como o arquétipo do herético judaico, o judeu prototípico que abandona a fé e depois a critica injustamente numa maneira que os nossos inimigos podem usar contra nós, para o dizer rudemente: um traidor. No último século, alguns cientistas judaicos começaram a "reclamar Jesus", orgulhando-se desse grande mentor que tem vivido e morrido como um judeu devoto. Tu, de outro lado, continuas ainda ser visto, pela maioria dos judeus, como estranho e perigoso. Tenho de confessar que parte da minha atração a ti é simplesmente a de: como alguém odiado tanto pelo estabelecimento da minha comunidade possa ser tão ruim? O iconoclasta em mim estende a mão.

Mas tem mais. Sempre me maravilhei dos cientistas judaicos que se alinham para abraçar Jesus como seu "irmão". Acho Jesus difícil para relacionar-me a ele. A sua vida era tão diferente da minha – ele era do campo, eu sou da cidade, ele viveu na pátria judaica, eu na diáspora, ele trabalhou e ensinou entre judeus, eu vivi em duas civilizações. O mais importante: ele incorporava uma pureza de alma e uma intensidade de conduta ética, que conduziu muitos judeus que o conheciam a crerem que estavam na presença dum humano não ordinário. Eu podia – só podia – conseguir um relance na minha vida de um décimo porcento da santidade que ele vivia a mais. Se tivesse vivido no seu tempo, podia bem ter sido a sua seguidora, mas é difícil para me identificar com ele. Tu, de outro lado, eras urbano e poliglota, um judeu da diáspora, tentando a mediar entre judeu e gentio, inseguro do seu relacionamento com a lei judaica, amando a Bíblia Hebraica, especialmente os salmos, lutando com o seu próprio ego muito humano e recalcitrante. Posso me relacionar.

Conhecer-te é crucial para judeus que querem encher os hiatos na sua própria história. Como todos os judeus de hoje, dos ortodoxos até aos da reforma, sou uma herdeira dos fariseus, o único grupo judaico que sobreviveu à destruição do templo no ano de 70 E.C. Tu és um dos únicos dois homens na história que atualmente sustentam ser fariseu. Assim, o que tens a dizer sobre isso é de interesse, mesmo se a minha primeira reação é de discordar. Ainda que saibamos tão pouco sobre ti como indivíduo, sabemos mais de ti do que praticamente de qualquer outro indivíduo do primeiro século.

Ainda: criaste um modelo de experiência espiritual, o qual por teus seguidores em futuros gerações – Agostinho, Lutero – fazia penetrar no entendimento do Mundo Ocidental aquilo que é humano e como o humano se entrecorta com o divino. Como um judeu que é muito assimilado numa civilização formada por Cristandade Ocidental, eu também sou formada pelo que tu acreditavas.

O que tinhas a dizer sobre minha fé influenciada pelo como judaísmo era tratado na sua tradição, a qual tinha um tanto a ver com o fado do meu povo quando vivíamos sob domínio cristão. Até hoje, tua visão de Judaísmo afeta o como judeus que vivem numa cultura cristã, vêem sua própria fé.

Finalmente fizeste boas perguntas. Lutaste com alguns problemas muito importantes, com os quais luto ainda hoje: qual é o relacionamento reto com a lei judaica? Como cabem judeus e gentios na divina economia? Como entendo sofrimento e morte?

Tiveste sempre uma visão grande, assim que provavelmente não estás surpreendido de que o movimento cristão era tão próspero. Também não estarias surpreendido porque o povo judaico, - teu próprio carne e sangue, - prossegue, embora esteja agora uma pequenina minoria, - menos que ½ de 1% da população do mundo. Se chegasses hoje à minha sinagoga de Filadélfia, ouvirias algumas das mesmas orações que cantastes quando estavas crescendo, poderias ler da mesma Toráh que era lida nas sinagogas que visitaste, e a circuncisão, que era um tão enorme assunto para ti e a igreja primitiva, é ainda praticada por praticamente cada família judia no 8.º dia de vida dum menino ou na conversão dum masculino ao judaísmo. Crias durante toda a tua vida que teus parentes de carne eram povo eterno de Deus. Há uma aflitiva história entre judeus e cristãos, a qual te vai chocar e entristecer, mas isso vou deixar para uma carta futura.

Antes de que encerrar esta primeira carta, pensei que querias saber um pouco sobre mim. Sou uma mulher americana que nasceu no próprio ponto central do século vinte, algumas centenas de anos depois de que Filósofos e sociólogos declararam todo o "negócio de Deus" como sendo o produto das superaquecidas imaginações de antigos ancestrais como tu. Mas duas guerras mundiais e a ameaça duma terceira, a falha de ciência como messíah, a continuada dificuldade de ser uma pessoa, tudo o que Barth chamou de a "questionabilidade da vida humana" – conduziu-me – e dificilmente estou sozinha – de volta à religião, à mesma Bíblia Hebraica que acariciavas e tantas vezes citaste, de volta à busca da presença de Deus na minha vida. Apesar da minha educação relativamente secular, cheguei a ser uma rabina. Minha denominação de judaísmo/reconstrucionismo levanta muitas questões, justamente como tu as levantaste, sobre a tradição herdada. As nossas questões são por vezes semelhantes às tuas, mas as nossas respostas o são raramente. Mesmo assim, vendo-nos como investigadores sócios e na linha com os autores de todos aqueles livros sobre antropologia paulina, escatologia paulina e cristologia paulina, gostaria de chegar a conhecer-te melhor.

Carta Dois

O próprio mandamento que prometia vida, provava ser morte para mim (Rm 7,10).

Caro Paulo,

A maioria dos judeus não sabem senão uma coisa de ti e tuas crenças, e essa pode ser errada. Se abordasses hoje um judeu na rua e te apresentasses, ele provavelmente diria: "Paulo, és o homem que odiava viver sob lei judaica e tomou cuidado para que a cristandade fosse fundada na fé, não em obras." Desejo entender em que sentido essa crença popular esteja exata. Também desejo partilhar contigo como vejo essas coisas. A tua fama como pensador anti-lei põe-te em oposição à Bíblia Hebraica, ao Judaísmo Rabínico e ao teu senhor observante da Toráh, Jesus. Nesta carta, quero examinar o mais antigo e o mais difundido entendimento da tua visão da lei, quer dizer o de que encontraste lei um como caminho espiritual desastroso, o qual descreve tua autobiografia em Romanos 7. Nas duas cartas seguintes, vou olhar para duas outras teorias que tentam explicar tua abrogação da Toráh como lei.

Essa tradicional visão é o mínimo cenário apelante para judeus, pois envolve um sério rebaixar da nossa religião por alguém que a deveria ter conhecido melhor. Até aqueles de nós que não são ortodoxos, aceitam a lei como um elemento positivo, a razão de serem mandados como parte daquilo que abraçamos como Judaísmo. Certamente, conhecemos os fojos. Não há judeu vivo que não iria concordar, se for honesto, que a exigência judaica para obras por vezes o conduz à hipocrisia, ou, por vezes, á auto-justificativa jactância, ou ainda a desespero. Ou, pelo menos, concorda com que conduz, por vezes, outros judeus para essas direções. Mas a palavra ‘por vezes’ é a chave. Para a maior parte, judeus sentem positivamente sobre a vida de mandamentos.

Esta noite é Kól Nidrê, o serviço à noite que inicia Yôm Kipúr, o Dia de Arrependimento. Como o entendi, Yôm Kipúr não servia para ti. Descreves tua vida como judeu como alguém que vive sob a lei. Para ti, isso significava que, não importa que justiça alcançasses, sempre estarias em servidão "à lei de pecado e morte" (Romanos 7,2). A impossibilidade de fazer a lei e ser "justificado" por ela, parece ser a sua mais central preocupação.

Posso-me referir à tua experiência que "não faço o bem que desejo, mas o mal que não desejo é o que faço" (Romanos 7,2). É justamente por essa razão que cada ano temo esta noite. Temo ouvir a lista agora familiar de pecados entoada e perceber que o meu cartão de bingo está mais cheio do que nunca. Que mais uma vez tenho mais desencontros do que encontros, que tenho amado inadequadamente, que falhei em ser a pessoa que imaginei no último Yôm Kipúr. É duro encarar aquilo que é o mais fundo e o mais verdadeiro dentro de mim e admitir que não tenho sempre, ou até habitualmente, agido a partir desse lugar, admitindo minha desrespeitosa traição ao meu ego melhor, minha feroz lealdade aos meus piores impulsos. Cada ano, quando revejo os meus próprios malefícios, desejo não somente que os não tenha feito, mas que seja uma espécie de pessoa à qual nunca aconteça fazê-los. Mas não sou. E não creio que uma vez serei.

Talvez tiveste semelhantes experiências na véspera do Dia de Arrependimento. Chegaste a crer, através da tua fé no Cristo Ressuscitado, que era possível morrer para aquele velho ego que voltava ano após ano ao Yôm Kipúr tão triste como sempre, e ser renascido como um ego novo e melhor, de vez para sempre. Chegaste a crer que em Cristo serias posto livre da vida na qual "posso querer o que é justo, mas não o posso fazer". Não tenho tido tal experiência, nem sinto necessidade para uma solução tão radical do meu temor na véspera do Yôm Kipúr. Deixa-me contar-te o quê me dá a coragem de encarar meus pecados, mesmo durante ainda estando "sob a lei".

Primeiro, conforto-me com os contos dos meus co-pecadores, sabendo que não estou sozinha. Deus sabe que nunca posso começar a pôr em forma a força para encarar Deus no Yôm Kipúr, senão por meus co-judeus o fazerem comigo. Rábi Soloveitchik lembra que na Europa os homens velhos choravam durante o ato confessional silencioso, mas o ato confessional público/comunal era cantado numa voz elevada e confidente. Não estamos separados, isolados, mal-entendido cada um em nosso próprio pequeno mundo, sofrendo com os nossos passados. Podemo-nos estender e, por vezes, é por nossas faltas especialmente, que podemos contatar uma à outra, como amiga partilhando comigo um desencontro na sua vida chega a ser, no seu recontar, um veículo que muda a minha vida.

Estamos sentadas juntas, cada uma sendo um raio único da luz de Deus, da glória de Deus. Juntas, enganamos o desespero e encaramos o desafio da confissão de pecados. Não chegamos a ser transformadas para sempre, mas esforçamo-nos juntamente para chegar mais perto do justo na próxima vez. Para judaísmo tradicional, e para mim, um dos principais veículos para experimentar santidade é por estudo, nomeadamente com parceira conhecida como hevruta. Semana sim, semana não, chamo minha amiga Judy, e ficamos duas horas sentadas no fone, cada uma com o mesmo texto judaico à frente de nós. Pegamos um texto de mandamento ético e o estudamos, palavra por palavra, e discutimos o desafio para nós. Compartilhamos as nossas falhas e triunfos na tentativa de viver a virtude descrita no nosso texto. Não experimentamos a lei como condenação, antes como liberdade, e sentimos que nos são dados poderes para ter sucesso no viver ela.

Mas mesmo se concordar com que uma vida de boas obras seja totalmente impraticável, como às vezes sinto num dia ruim, estou ainda deixada com a fé de que Yôm Kipúr me dá, mas aparentemente não deu a ti, que mesmo tudo isso está realmente tudo certo. Deus aceita nossos esforços no arrependimento e nos perdoa, pois na visão da nossa liturgia de Yôm Kipúr, como a entendo, nada do que temos feito é imperdoável, nada do que temos chegado a ser é sem possibilidade de renovação. O que importa mais a Deus nesse dia, não é ponderar as boas obras contra as más, mas simplesmente que retornemos a nós mesmos e a Deus. Justamente na semana passada, lemos no jornal sobre a entrega de Katherine Power, a ativista dos sessenta que era procurada pelo FBI por sua parte no assassínio dum policial. Ela estava às ocultas durante 23 anos. Os seus pais – que não tinham nada visto ou ouvido dela desde o dia em que a observaram no noticiário de noite escapando do tiroteio – foram perguntados de como sentiriam sobre a reunião com a sua filha. Disseram simplesmente: "Somos os seus pais." O que mais havia aí a dizer?

Nós judeus cantamos Avinu Malkeinu em preparação para Yôm Kipúr, uma oração que nos lembra que Deus é nosso Pai, que além de quaisquer pecados a serem confessados, há o incondicional, irrestrito, inegociável amor duma mãe ou pai para uma criança. Jesus orava a Deus como "abba", uma forma familiar de pai, e alguns achavam que isso significaria um relacionamento desconhecido para outros. Mas judeus que lêem o Novo Testamento não se surpreendem com a imagem de Deus como Papai (Daddy). Para nós parece óbvio.

Finalmente, Yôm Kipúr não trata somente de áspero ou caridoso julgamento, de culpa ou perdão. Yôm Kipúr trata daquilo que mais importava aos pais de Katherine Power: a reunião em si, a conexão, a volta ao lar. O Yôm Kipúr termina no pôr do sol com as Portas do Perdão bem abertas.

De acordo com a tradicional leitura da tua crítica da lei, nunca sentiste que pudesses passar por tais portas. Para ti, havia uma solução diferente para o problema de ser um falho ser humano. Viste Jesus e sua morte expiatória como vencendo o pecado numa maneira única, dramática. Chegaste a conhecer o amor e perdão de Deus numa maneira que nunca o conheceste antes como um judeu observante. Mas estou aqui para te contar que aquele impossível acontece, pelo menos uma vez por ano. Creio que nós judeus vimos a batalha em termos diferentes daqueles que tu tens viste, mas semelhantemente a ti, nós também temos um relance de ser perdoados e finalmente amados.

Carta Três

Ainda: tudo considero perda, pela excelência do conhecer Cristo Jesus, meu Senhor (Fl 3,8).

Caro Paulo,

No começo do século vinte, alguns cientistas cristãos começaram a olhar o Judaísmo Rabínico e ver algo do amor e graça que experimento aí e tentei compartilhar contigo na minha última carta. Começaram a duvidar da clássica interpretação da tua visão de lei, a de que esta era basicamente uma crítica do judaísmo que tiveste conhecido. George Foote Moore, um cristão, escreveu um longo e altamente simpático estudo de judaísmo rabínico e encontrou pouco da justiça de obras a que, segundo se afirma, odiavas. Mais recente, um grande cientista, com o nome de E.P. Sanders, perguntou-se a si mesmo: Porquê Paulo não era tão hábil como G. F. Moore? Deduziu que fostes lido seriamente mal: não encontraste, de fato, o judaísmo amortecendo ou a lei judaica impraticável antes da tua experiência de Cristo na estrada a Damasco. Mais exatamente, era tua experiência de salvação que te conduziu a ver tuas reais realizações e satisfações sob a lei depois do fato como, com tuas palavras, "lixo" (Filipenses 3,8).

Como Sanders o pôs: "O que Paulo encontra de errado no Judaísmo é isto: ele não é Cristandade."3 Com palavras que seriam demasiadamente caprichosas para ti, Sanders fala da "exclusividade" da tua "soteriologia".4

Ou, como tu o pões: "Nem circuncisão conta para coisa alguma, nem incircuncisão, mas sim uma nova criação" (Gal 6,15). Em termos claros: não é que Yôm Kipúr não servia para ti quando eras judeu. É que justamente agora, quando tens experimentado a salvação de Jesus, viste que tens passado por uma mudança mais radical do que simplesmente perdão de pecado, experimentaste uma "mudança de senhorias".

Que posso eu, uma judia, fazer com isso? Não posso dizer: "Não, não penso que o problema é esse sério", porque me vais dizer que não pensou assim até que experimentaste a solução. Em Filipenses 3,6 explicas que, quando eras Fariseu, eras "inculpável" quando veio à "justiça sob a lei". Só quando conheceste Cristo, pudeste ver claramente a senhoria de morte, sob a qual tiveste vivido.

Para ti, havia uma luta na vida entre duas forças, e só mais tarde que o soubeste, na fé: a vitória da força de vida para que fosses capaz de estabelecer claramente a oposição.

Como tu o puseste.

Porque os desejos da carne estão contra o Espírito, e os desejos do Espírito estão contra a carne, pois esses estão opostos um a outro, para impedir-te a fazer o que queres. Agora, as obras da carne são claras: fornicação, impureza, licenciosidade, idolatria, feitiçaria, inimizade, contendas, ciúmes, raiva, egoísmo, dissensão, espírito de partido, inveja, embriaguez, glutonaria e semelhantes. Aviso-vos, como vos já avisei, que aqueles que fazem tais coisas não vão herdar o reino de Deus. Pois o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, gentileza, autodomínio; contra tais não há lei. E aqueles que pertencem a Cristo Jesus, têm crucificado a sua carne com as suas paixões e desejos (Gálatas 5,17-24).

Não espero saber um dia o quê é coisa semelhante a ter crucificado a minha carne com as suas paixões e desejos, nem viver tão plenamente no amor, alegria, paz, etc. Para ti, liberdade significava ser totalmente tu mesmo, pois chegastes a ser exclusivamente os impulsos bons, e assim iriam madurecer os frutos do Espírito. Mas na minha experiência, as pessoas são geralmente uma complicada mistura de ambos os conjuntos de impulsos durante toda a sua vida, e mesmo uma dada experiência é freqüentemente uma mescla desordenada, assim que não é tão claro para mim como o era para ti quando podemos considerar algo como fruto do Espírito e quando é fruto da Carne.

Talvez é um tiro barato apontar que mesmo depois da tua experiência de Cristo tiveste teus momentos de raiva! Pessoalmente, penso que raiva pode ser um bom momento no cômputo moral! Quando revejo meus feitos e malefícios durante o ano, encontro alguns muito espirituais atos que contaria como faltas, num ponto de vista de relações humanas, e alguns muito carnais desejos e impulsos cujos frutos têm sido bons – principalmente entre eles os processos pelos quais, dei à luz e alimentei meus bebês.

Assim, as duas senhorias não funcionam para mim. Para ti, o Dia de Julgamento parece ter uma qualidade de ou/ou (either/or) referente a isso: ou (either) estarás entre os salvos ou (or) os condenados, os santos ou os pecadores, aqueles que permaneceram em servidão à carne ou aqueles que andavam de acordo com o Espírito. Parece muito mais confuso para mim. Gosto da história hassídica que imagina o Dia de Julgamento como uma espécie de cavaco íntimo entre o indivíduo e Deus. Alguns discípulos vieram e perguntaram o seu mestre: "Como vai ser o Dia do Julgamento?" Ele respondeu: "Só isso! Deus vai-vos tomar um por um e vos contar exatamente o que a vossa vida realmente era em tudo. Deus vai rever contigo o bem que tens feito neste mundo, os modos nos quais erraste as marcas. Reverás a história que escreveste com tua vida relembrando junto cada capítulo e versículo, os momentos de falha, os momentos de triunfo."

Os discípulos perguntaram: "E a seguir ...?"

O mestre respondeu: "Essa sessão com Deus, esse cálculo do bem e mal na tua vida, esse Último Julgamento para cada um de vós, isso vai ser teu céu... e teu inferno."

Para mim, Yôm Kipúr é semelhante a um ensaio para aquele dia de julgamento, e para mim é sempre uma mistura de céu e inferno. Nunca vou ser livrada deste corpo e pecado, até que terei finalizado nesta terra. Vejo os desejos da carne e aqueles do Espírito como ambos dados por Deus. Tua visão duma nova senhoria de Cristo que faz a lei irrelevante, assume um dualismo que não partilho.

Mas alguns eruditos argumentam que essa tese, como a primeira, falha no realmente entender o "coração" do teu evangelho. Sugerem que o fim da lei, ou por sua impossibilidade ou por sua irrelevância, não é o ensinamento central da tua vida. Antes, eles argumentam, que o teu grande interesse não é a lei de modo algum, mas sim referente ao problema de judeus e gentios juntos em uma comunidade. Vamos ver sobre isso na próxima carta.

Carta Quatro

Ou é Deus só dos judeus? Não também dos gentios? Sim, também dos gentios, pois Deus é único (Rm 3,29-30).

Caro Paulo,

disseste algumas coisas muito críticas sobre lei e obras, e durante muitos séculos pessoas entenderam tuas exposições como brilhantes e santas respostas a uma questão com a qual estavam lutando. Como posso encontrar um Deus gracioso? "Não através de obras!" ouviu Agostinho, Lutero, Bultmann. A seguir, um maravilhoso perito de Novo Testamento (ele mesmo um luterano), Krister Stendahl de nome, passou e disse: Não tem jeito citar sagradas respostas, se as ligares a questões erradas. Argumentava que, durante séculos, cristãos tinham suposto que a sua questão de Como posso ser salvo?, - a questão da introspectiva consciência do Ocidente, - teria sida abordada em teus pronunciamentos sobre lei. Stendahl examinou o contexto em que tua crítica da lei foi de fato executada e concluiu que tal questão nunca te ocorrera; estarias, de fato, dirigindo-te a uma questão completamente diferente, a qual é: Como podem gentios ser incluídos no povo judeu?

Muitos eruditos têm seguido a Stendahl na argumentação de que a questão de gentios está no coração do teu evangelho, de que o teu interesse principal é assegurar que esses convertidos sejam plenos herdeiros da promessa de Israel. Na sua forma mais radical, essa tese argumenta que nunca tiveste uma palavra mal a dizer sobre lei para judeus, e terias alegremente endossado judeus que observam a lei.5

Uma mais moderada posição é que não sabemos o que terias dito sobre observância legal judaica: o que temos é aquilo que pensavas de gentios tentando a ser judeus afim de estejam na jovem Igreja.

Como judia, só posso responder a toda essa erudição com um gigante: "Uf! Agora estamos fora do gancho! Nunca disseste que judaísmo seria mal para judeus, justamente desejas fazer possível para gentios o não terem de ser naturalizados judeus afim de serem cristãos." Isso faz um monte enorme de sentido, já que em muitas maneiras – graças, em parte, ao teu ensinar, - cristandade é justamente isto: uma desnacionalizada, universalmente acessível versão de Judaísmo. A dificuldade é a de que não estou convencida. Estou convencida de que teu interesse era judeus e gentios. Mas me parece que tua penetração era mais profunda do que simplesmente não requerer observância de lei para gentios. Tiveste chegado à compreensão de que "em Cristo não há nem judeu nem grego", e suspeito, relutante, que isso significava para ti que, na comunidade de Cristo, a etnicamente baseada prática legal judaica não podia ter lugar para ninguém. Ainda vale recordar o mérito dessa tese. Lembra-nos de que a lei não foi abandonada porque não era santa, mas sim porque era demasiadamente saturada com popularidade judaica para encontrar um lugar na comunidade transnacional.

E aqui estamos chegando a uma grande ironia. Para ti, a lei era revelada por Deus e problemática somente no seu manter judeus e gentios separados. Para muitos judeus hoje, as origens divinas da lei são questionáveis, e uma das principais razões para continuar judaicas práticas distintivas é precisamente a de separar judeus e gentios.

Preciso confessar que há algumas partes da Lei Judaica que sustento justamente por essa razão, como a do meu intento de circuncidar minhas crianças no oitavo dia se tivessem sido masculinas (o que não eram!). Mas isso não é toda a história. Não creio, como tu crias, que a lei é de Deus. Mas acho mesmo que pode ser para Deus.

Um monte de detalhes da Lei Judaica deixam-me louca, e alguns dela acho desagradáveis, sufocantes, espiritualmente amortecentes. Alguns dela não podem ser manejados e, de fato, não são práticos, p. ex. manter dois jogos de pratos. Mas como envelheço, encontro cada vez mais lei judaica que enriquece e aprofunda minha vida. Por exemplo, cada noite de sexta-feira da minha vida ao pôr do sol, acendo velas, porque sinto-me mandada a fazer isso. Com grande alegria agradeço a Deus pelo privilégio de não só contar um poderoso mito de criação, mas para conseguir o viver. Por vezes, duvido se perdeste o modo com que a lei liga-te à natureza, nos tempos e épocas quando transcendeste suas particularidades a favor da tua missão universal. Uma coisa está certa: A velha interpretação luterana de ti, a qual Stendahl ataca, foi muito bem aposentada ao lado da suposição de que judaísmo está com "justiça de obras". O judaísmo rabínico clássico nunca acreditava que as pessoas tinham de ganhar a sua salvação por observar a lei. Antes, lei era uma resposta ao dom gracioso da Toráh, a qual é dada por puro amor. Não observamos o sábado para ganhar benção, a benção é anterior à observação do sábado; louvamos a Deus por isso a cada início do sábado. Observamos o sábado como sinal de que sabemos que somos agraciados com a aliança.

Teu plano de volver o judaísmo, uma religião baseada em povo com aspirações universais, numa comunidade de fé (creedal community) estabelecida numa base não-étnica não era ruim. Era a pretensão da Igreja ter substituído o Israel original, a qual pôs este moralmente na desgraça e meu povo fisicamente na desgraça. Tudo isso aconteceu depois da tua morte, como vais ouvir na próxima carta.

Carta Cinco

Queria ser anátema eu mesmo do Cristo pelos meus irmãos, meus parentes de carne, que são Israelitas (Rm 9,3-4).

Caro Paulo,

nesta carta, vou partilhar contigo algo que te vai surpreender. Sei que não estás surpreendido de que o povo judaico sobreviveu, mesmo como uma diminuta minoria, ou que a Igreja Cristã floresceu e chegou a ser ampla e poderosa. O que vais achar duro para crer é que chegou a ser parte do ensino cristão denegrir e até desprezar a religião judaica, na qual eras criado, e o povo judaico, do qual te consideraste membro por todo a vida. Tua própria carne e sangue viu um monte de sangue derramado e carne crucificada pelos seguidores do teu Senhor.

Como aconteceu isso? perguntas, devastado? Vou te contar.

A primeira parte da história já estava chegando a ficar clara no tempo da tua vida.

Apesar de racionáveis expectativas ao contrário, o messíah era largamente – embora não completamente – rejeitado por judeus. Isso era uma surpresa. E, ele era largamente aceito por gentios – também uma surpresa. Mas isso virou a maneira de como as coisas eram indicadas a ser, e tu, em Romanos 9-11, estás tentando a explicar como essa estranha virada de acontecimentos possa, de fato, ser parte da economia de salvação de Deus. Se Jesus tivesse retornado só umas décadas após a sua morte, teria ficado pasmado pelo make-up étnico dos seus seguidores. Se judeus se tivessem ligado à Igreja teriam sido os brâmanes da Cristandade.

O problema, então, era de como a nova comunidade, que era uma seita do Judaísmo sem muitos judeus, iria ver os outros judeus. Como qualquer seita, ela se via como tendo a verdadeira versão daquilo de que outra gente não viu senão obscura ou erradamente. Mas nesse caso, a nova gente e a velha gente eram cada vez mais dois povos diferentes, ambos reivindicando ser herdeiros da aliança, fiéis intérpretes da Bíblia, corretos leitores da história de Israel. Pelo segundo século, o grupo cristão começou a chamar-se a si mesmo o "novo Israel", com isso pretendendo substituir o povo judeu – uma frase que teria sido anátema para ti.

Depois que faleceste, histórias da vida de Jesus foram escritas, chamadas de evangelhos – e embora essa palavra significa "boas notícias" em grego, aqueles livros eram dificilmente boas notícias para judeus. Contaram a história do ensino e morte de Jesus numa maneira que permitia usá-los para agitar ódio aos judeus. Os debates de Jesus com os seus próprios patrícios judeus, lidos por não-judeus chegaram a ser agressões a judeus. Na Idade Média, a acusação de deicídio, elaborada em arte e folclore, chegou a ser o foco de ódio e perseguição de judeus.

Teus escritos, embora nunca denegram judeus em si (Creio, como muitos eruditos o fazem, que o único lugar onde degradas o povo judeu – 1Tes 2,14-16 – é uma posterior interpolação), começaram, depois da Reforma, dar munição àqueles cujo alvo era o Judaísmo. Tuas próprias sinceras lutas com a tua fé eram usadas como textos de prova para mostrar que judaísmo seria uma trilha teimosa a Deus. A partir daí, não era difícil fazer o passo para judeus como teimoso povo.

Estás terrivelmente ressentido? Espero que sim, pois creio que tentaste a prevenir justamente tal abuso quando exortaste os romanos a entenderem que estariam enxertados na árvore e o povo judeu seria o tronco original (Romanos 9-11). Já vias a possibilidade de que gentios pudessem florescer vaidosos e até sentir-se superiores a judeus. Tentaste a prevenir os piores abusos. Não conseguiste.

E ainda não ouviste o pior disso. Não sei como te revelar isto assim gentilmente, então vou-lho dizer cru. Cinqüenta anos faz, que um terço do povo judaico, vivo no mundo naquele tempo, foi brutal e sistematicamente assassinado no coração da Cristandade Ocidental por gente que tinha sido batizada na igreja que ajudaste a fundar. Entendes o que estou dizendo? Neste século, em cidades de um lado a outro da Europa, ano após ano, gente com cruzes ao redor do seu pescoço e Bíblias com tuas cartas nelas em seus mantos, conduziram teu povo a trens, levando-o a câmaras de gás. Às vezes bem sabiam e não falaram nada. Outras vezes ajudaram os invasores nazistas organizando matanças locais no mesmo lugar. Deixa-me assegurar-te depressa que havia cristãos no tempo que falaram com franqueza e disseram que isso não é o que Deus pretende. Mas quando dois deles, bispos católicos, foram a Adolf Hitler, o assassino chefe, - e não, como acrescentaria, a idéia de alguém de bom cristão, - Hitler expressou surpresa e disse: "Mas estou retocando aquilo que a Igreja começou."6 E ninguém dos cientistas hoje que estudam essa história, argumentaria que não havia verdade no dito de Hitler.

Depois de que Hitler foi derrotado, um dos seus principais escudeiros foi encontrado e trazido ao Estado Judeu para ser julgado, onde foi finalmente declarado culpado de assassínio em massa e executado. Mas antes de que Eichmann fosse processado por advogados israelenses, um pensador judeu escreveu provocativamente que Israel devia de fato prover Eichmann com um advogado de defesa. Ele devia construir uma causa para o defensor dizendo que ele sozinho não era culpado e que a Igreja Cristã, por espalhar desdém por séculos, devia reconhecer a autoria da tragédia.

Deixa-me assegurar-te depressa que, nos últimos quarenta anos, muitos cristãos a têm reconhecido, tentando arrepender-se da sua história de ensinar ódio. Até usaram teus textos, tais como Romanos 9-11, para argumentar para um positivo, realmente privilegiado, lugar para judeus na história cristã. Que teu texto era um esforço para minimizar o dano causado a judeus pela comunidade cristã parece claro. Até os judeus mesmos sabiam disso e usaram teu texto na sua própria defesa numa obra crítica, preparada pelo fim do século 13 / início do século 14, A Nizzahon Vetus. Podia ter sido pouco demais e tarde demais. Meu professor Paul van Buren, dedicou as últimas décadas da sua vida ao rescrever a teologia cristã à luz da realidade judaica-cristã.

Minha própria experiência como judia tem sido antes de filo-semitismo do que de anti-semitismo. De fato, estou lendo estas cartas de alta voz a um grupo de maioritariamente pessoas cristãs numa universidade, cujo ministro me convidou para partilhar o que eu, uma judia, teria a dizer a estes assuntos. Isso é uma bem notável reviravolta de aproximadamente 2000 anos, nos quais cristãos contaram a judeus o que pensavam, e não vice-versa. Assim tem havido uma radical renovação e até perdão, mas os acontecimentos que acabo por descrever, vão colorir relações entre judeus e cristãos para muitos anos. Freqüentemente pensei que, se me for concedida uma vida longa, possa ficar nesta terra o tempo suficiente para estar aqui quando o último sobrevivente – judeu ou nazista – daquela época tiver morrido. Porém, estou certa de que contaremos a história ainda sem eles. Em algum nível profundo, teu universalismo era presciente...

Mas agora deixa-me contar-te algo sobre tua mensagem e a história que acabo por partilhar contigo. Se eu tivesse vivido nos teus dias, poder-te-ia ter seguido. A tua comunidade universal teria sido enormemente atrativa para mim. Mas vivendo como hoje, com tudo o que tem acontecido, não posso deixar o povo judeu – não por cristandade, nem por cultura ética, nem por bom americanismo pagão à moda antiga. Creio que algo precioso foi preservado por meu povo, apesar das disparidades, levando-o estes 2000 anos, e não estaria disposta a abandonar esta minha família por qualquer idéia, ideal ou por qualquer coisa que seja.

Contas uma comovente história na Gálatas, uma de cuja mensagem discordo com cada fibra do meu ser. Contas a trágica história de Hagar e seu filho que são lançados fora por causa da aliança com Isaac. Interpretas essa história bíblica num modo que me surpreende – de uma maneira encontrando que meu povo é Ishmael o teu é Isaac. Mas meu trocadilho contigo não é sobre qual de nossas comunidades de fé são as crianças de Deus que de fato têm a benção. Meu argumento contigo é a tua compreensão dos termos dessa história – Abraão não tem senão bastante benção para um só filho, não há senão bastante benção para Isaac, não há para Ishmael.

Parece-me que esse modo de pensar funciona muito pobremente numa família, funcionou terrivelmente em política mundial e está extremamente fora do lugar em religião, onde cremos que Deus tem poder infinito, presumivelmente incluído neste é o poder de amar mais que um filho, abençoar mais que uma fé, até sarar as feridas entre irmãos do mesmo pai. Estou escrevendo esta carta justamente algumas semanas depois de observar os descendentes de Isaac e Ishmael assinarem um contrato de paz. Estou ainda cheia de euforia daquele momento de promessa. Pode ser uma longa estrada, mas na base desse começo, tenho sido renovada na minha fé de que pode haver terra bastante para dois povos, que um não precisa ser "lançado fora", com diz o texto. Podemos ser comunidades diferentes, os dois: judeus e gregos, e ainda crer que há bastante benção de dar volta de sobra para nós dois. E enquanto pode ser que há bastante terra, e creio que há bastante benção, estou absolutamente certa de que Deus tem bastante amor para dar volta de sobra.

Estou ainda deixada interessada na questão que te perseguiu: O quê tem Deus na mente para os gentios e como judeus são para ser uma benção às nações? Talvez através da Igreja tuas comunidades ajudavam a começar, talvez através do nosso próprio proceder como modelo, talvez através do trabalho para paz e justiça, mas certamente não por desaparecer como povo. Penso que, se estivesses vivo agora, concordarias com isso.

Carta Seis

Eis que vos digo um mistério: ... todos seremos transformados, num momento, num piscar de olho, na última trombeta. Pois a trombeta vai soar, e os mortos vão ser levantados imperecíveis (1Cor 15,51-52).

Caro Paulo,

Pode ser que estiveste surpreso por muita coisa que tenho dito, nomeadamente na última carta, mas suspeito que nada mais te espanta do que receber todas estas cartas do futuro ao todo. Tu e tua geração de seguidores de Jesus acreditavas que o fim estaria iminente, que tu mesmo irias ouvir a última trombeta soar. Tenho aquietantes notícias para ti: Nada disso tem acontecido. Mais que dezenove séculos mais tarde, nós seres humanos estamos ainda no negócio de viver de modo muito semelhante como tu estavas: bebês são dados à luz por mães, mamam nos seus peitos, crescem e namoram, têm crianças, morrem e não se ouve mais nada deles. Temos ainda guerras e sonhamos de paz, e ninguém de nós tem visto um ser vivente que é imperecível. Como nos estamos aproximando ao ano 2000, há na minha como na tua religião aqueles que estão falando dum fim iminente ao drama de história. O que vai acontecer naquele ano, não posso dizer. Tudo o que te posso contar é que 1900 anos mais tarde do que terias pensado estamos ainda aqui.

Tua visão da futura redenção é problemática para mim, não só porque não aconteceu ainda. A própria noção daquilo que antecipas como acontecendo naquele piscar de olho, é estranho para mim, embora haja elementos que posso facilmente reconhecer a partir de várias versões do Judaísmo. Para começar: a Bíblia Hebraica, quando antecipa a redenção, um glorioso desfecho da história humana, não coloca uma "nova criação" nos termos radicais como o fazes. Como entendo a Bíblia Hebraica, o mundo será transformado moralmente no futuro, mas será ainda o mesmo mundo. Haverá um Reino de Deus – paz e justiça – na terra. Quando Jesus falou da iminente aproximação daquele Reino com a sua ordem social reversa (a nação judia iria triunfar sobre os seus poderosos inimigos, os pobres iriam triunfar sobre os ricos), estava descrevendo um sonho tido por muitos judeus, tanto mais intenso quanto pior sua situação atual se tornou.

Era precisamente porque essa redenção era para ser terrestre e física, que os fariseus insistiram na doutrina da ressurreição corporal no fim do tempo. As pessoas precisariam dos seus corpos de volta para alegrar-se do Reino, pois seria este evento mundial em que só corpos podiam participar. Assim, embora a Bíblia Hebraica não tenha virtualmente um traço duma pós-vida de espécie qualquer, os rábis chegaram a crer muito enfaticamente na possibilidade de que cada pessoa se reuniria com seu corpo no tempo do Messíah.

Embora houvesse grupos apocalípticos judaicos anteriores a ti, que elaboravam na base da visão original dum mundo transformado, a aproximação tua é uma partida radical. Apareces dizer que o reino por vir será "no ar" (1Tes 4,16), "nos céus" (Fl 3,20). Tens totalmente despolitizado a visão (ela não tem mais Israel no pino de linchar [on the lynch pin]) e a totalmente espiritualizado. Além disso, não mais envolves ressurreição do corpo. Na tua visão, a nova criação será gozada por almas sem corpo, seres não perecíveis. Em centenas de lugares falas de morte como dum intruso mau numa boa criação, e na tua visão do retorno de Cristo, tens a morte final e completamente vencido, pois as pessoas não estarão mais em corpos de modo qualquer.

Isto pode soar como uma questão estranha, mas desejava te falá-la faz muito tempo: O quê é tão terrível referente à morte? Porquê a experimentas como punição por pecado, e não antes um ricamente reservado repouso no fim duma vida de trabalho? Porquê gritas: "Quem me vai resgatar deste corpo condenado à morte?" (Romanos 7,24). Porquê o Messíah tem de vencer a morte?

Na Bíblia Hebraica, morte é o assumido fim de vida. "porque somos pó, e ao pó retornamos". Essa parte é um dado; a punição de Adão e Eva é a luta envolvida no viver. Morte prematura, morte dolorosa, essas são afrontas. Mas dormir com teus pais no fim duma boa e longa vida, parece ter sido bem aceito, e quando Moisés possivelmente questiona a cronometragem da sua morte, ninguém questiona o fato de que ele, como toda vida, tem de morrer. Sei que viveste num tempo de sincretismo, com um número insuportável de opções, na inundação de possibilidades. O morrer na diáspora, longe do solo da pátria, pode ter feito isso mais duro. Vendo a ti mesmo mais como um indivíduo e menos como uma célula do povo judeu, pode ser que fez da morte mais uma afronta. Por qualquer razão, é importante para ti vencer a morte plenamente, para ser redimido sem o corpo, afim de que nunca tenhas de morrer.

Sempre amei a parábola do R. Levi, que conta dois navios velejando no Mar Mediterrâneo, um entrando no porto e outro saindo. "Quando um navio deixa o porto, todos não devem se alegrar sobre isso, porque não sabem qual será a sua sorte, - que mares vão encontrar, que tempestades vão enfrentar. Mas quando o navio entrar no porto, todos devem se regozijar sobre isso, pois então sabem que eles voltaram salvos do mar e têm seguramente entrado no porto."

Abraão Yoshua Heshel escreveu: "Pó retorna ao pó, enquanto imagem, a divina estaca no homem, é restaurada à trouxa de vida... O nosso maior problema não é o de continuar, mas sim o de retornar... Quando vida é a resposta, morte é um vir ao lar (homecoming)... Este ato de dar de si é a reciprocidade na parte do homem pela doação de vida por Deus. Para o homem piedoso, morrer é um privilégio."7

Assim, poderias perguntar, como entendes o Messíah? Vejo o Messíah através da lente da tradição judaica, que tem sido esperançosa, mas cautelosa, freqüentemente cortada por messianismo secular como social e justamente com a mesma freqüência desconfiada de messianismo prematuro. Gosto da história no Talmude, que conta do Rábi Yehoshua ben Levi encontrando o profeta Eliyah. Perguntou a este: ‘Quando virá o Messíah?’

‘Vá mesmo perguntando a ele!’ disse Eliyah.

O quê? Ele está aqui na terra? Onde está ele?

Ele está sentado nos portões da cidade com os demais mendigos sem lar.

Mas há tantos pobres sentados naqueles portões. Como vou saber quem deles é o Messíah?

Ele está sentado com aqueles que estão aflitos com doença. Eles passam o dia atando e desatando os panos nas suas chagas. Saberás quem é o Messíah. Os outros desatam todos os seus bandagens panos de vez e então as atam de novo. O Messíah desata um pano por vez. Quando este estiver atado de novo, desata o próximo. Desde modo, se o momento de se revelar vier para ele, ele estará pronto.

O Messíah já vivendo na terra, sofrendo desde o primeiro século equivalente de AIDS, e indistinguível em aparência da outra gente de rua! Gosto do moderno midrash que nos insta por imaginar que cada pessoa que encontramos é o Messíah à procura de alguma humana gentileza. Se não vêem o Messíah durante o tempo de nossa vida, não importa.

Carta Sete

Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o argumentador deste século? Não é que Deus fez louca a sabedoria do mundo? ... Pois judeus pedem sinais e gregos buscam sabedoria, nós, porém, pregamos Cristo crucificado, escândalo para judeus, loucura para gentios, para os chamados porém, judeus e gregos, é Cristo poder de Deus e sabedoria de Deus. Pois o louco de Deus é mais sábio do que os homens, e o fraco de Deus é mais forte que os homens (1Cor 20,22-25).

Caro Paulo,

Esta é a minha carta final a ti. Quero-te agradecer pelo que me ensinaste. Por tudo que debati contigo e discuti com teus pensamentos, estimo o desafio; ainda: alguma coisa do teu ensino aceito simplesmente como doação do teu espírito.

Toma a passagem que citei acima. Embora ela se afigure a estereotipados judeus, amo-a ainda, porque ouço nela uma mui necessitada consideração de mim mesma. Eu sou a judia, e os gregos estão sempre querendo que as coisas andem do meu modo, que os sinais sejam como os espero. Mas como chego a ser mais velha, continuo aprendendo quão pouco sou realmente sábia, especialmente quando penso que sou. A imagem dum Messíah diferente, a quem os judeus rejeitam porque ela não é como o Messíah pretendido que fosse, e os gregos rejeitam porque ela é irracional, é muito convincente para mim. Esse pensamento paradoxo parece louco e ainda verdadeiro para a minha experiência. Na minha própria vida, momentos de força e fraqueza parecem revertidos, e nunca estive em tanta perturbação como quando pensei que teria tudo calculado.

Talvez é realmente isso que o teu criticismo à lei era finalmente, um criticismo de todos os terrenos projetos e presunções. Os maiores cristãos através dos séculos têm lido tua crítica do Judaísmo um como protótipo para lançar uma dura crítica da própria Cristandade. Karl Barth leu Romanos como uma advertência contra a religião em geral, e sua cautela parece justificada. Uma das minhas frases favoritas em qualquer lugar é tua advertência: "Temos este tesouro em vasos terrestres, para nos mostrar que a transcendente força pertence a Deus, e não a nós" (2Cor 4,7).

Uma meditação nos limites de sabedoria parece um lugar auspicioso para terminar minhas cartas a ti, já que a despeito de tu tendo escrito e eu tendo amado esta passagem, tanto tu quanto eu temos derramado um monte de tinta – ou cartuchos de impressora – tentando a convencer outros de que somos sábios. Assim, podemos talvez terminar, ou pelo menos tomar um hiato do nosso debate, e descansar na sabedoria de que todas essas querelas serão postas em ordem um dia. Tu, na tua sabedoria nunca finalmente deixaste claro como Deus iria salvar qualquer um no fim do tempo. Teriam os judeus ter de converter à Cristandade primeiro? Não dizes isso exatamente. Os pecadores seriam salvos ao longo dos justos? Não dizes exatamente. Simplesmente afirmas, em Romanos 11,32, que Deus terá clemência de todos e a seguir, como para indicar que estás deixando o restante desses mistérios nas Suas mãos, citas Isaiah: "Pois quem tem conhecido a mente do Senhor, ou quem tem sido Seu conselheiro?" Certamente não tu, Rábi Paulo, ou eu, Rábi Nancy. Assim podemos concordar que as nossas disputas são, como a judaica tradição diz, L’shaym Shamayim – aos cuidados dos céus, e deixar as questões não respondidas – destas há muitas – a serem resolvidas quando o Messíah vem – ou volta. E, como ensinaste, só Deus sabe quando e como isso vai acontecer, "pois de Deus e por Deus e a Deus são todas as coisas" (Romanos 12,36). Amém.

Notas

1] "The Acts of Paul and Thecla, The Writings of Saint Paul," ed. Wayne Meeks, New York: 1972, p. 199.

2] Sydney Ahlstrom, Theology in América, Indianapolis: 1967, p. 23.

3] Paul and Palestinian Judaism, Philadelphia: 1977, p. 552.

4] Paul and Palestinian Judaism, Philadelphia: 1977, p. 60.

5] Veja, por exemplo, a obra de Lloyd Gaston.

6] Hitler’s Table Talk, citado em Rosmary Ruether, Faith and Fratricide, New York 1979, p. 223-224.

7] "Reflections on Death", Conservative Judaism, Fall, 1973, pp. 6 e 9


Tradução: Pedro von Werden SJ

 


FootnotesTo top


 
© 2010 International Council of Christians and Jews