Pensamento Judaico Ortodoxo do Tempo da Guerra Sobre o Holocausto: Implicações Cristãs
De Gershon Greenberg
Os números [1], [2],... referem-se às notas de fim do texto inglês. Algumas destas encontram-se junto ao texto ao que se referem, traduzidas ao português.
Recente pesquisa sobre pensamento judaico do tempo da Guerra referente ao Holocausto
revela que pensadores judeus ortodoxos presumiam um dualismo de nível ontico entre o
sagrado mundo de Israel e o mundo profano de fora, inclusive a Cristandade. Contudo,
alguns excepcionais pensadores olhavam para históricos desenvolvimentos e distingiam
Cristandade medieval-moderna, que era cooptada pelo paganismo, da Cristandade original,
que se desenhava a partir de raízes judaicas. Além dessas categóricas considerações,
pensadores religiosos judaicos do tempo da Guerra partilhavam da significação dada à
tragédia pela Cristandade em termos de sofrimento vigário, do sofrimento de Deus, e da
desvalorização da carne em nome da santidade espiritual.
Na última década, historiadores do pensamento religioso judaico moderno embarcaram numa
nova área de pesquisa: pensamento religioso do tempo da Guerra vis-a-vis do Holocausto e da
continuação deste com desenvolvimentos anteriores e posteriores. A literatura (de arquivo,
de periódico, monográfica) e numerosos pensadores maiores foram identificados, e uma
metodologia tem sido implementada. Dominantes escolas de pensamento foram descritas: Misrahi
(religioso-nacional), Agudat Israel (o movimento rabínico baseado na Halakah
espalhado pelo mundo inteiro), Muçar (moralista), Haçídico (Habad, Belz, Munkacz)
e Kabalístico. As raízes do pensamento do tempo da Guerra (incluindo o Gaon de Vilna,
Nahman Krokhmal, Samson Raphael Hirsch, Natan Birnbaum e Rav Kook) foram identificadas. Como
a pesquisa continua sendo publicada, teologia "pós-holocausto" – uma designação
incorreta se implicar que o pensamento sobre o Holocausto começou depois da catástrofe –
bem pode mudar completamente.
Essas fontes sugerem um novo caminho para a deliberação para cientistas de pensamento
religioso (tanto judaicos como cristãos) sobre o Holocausto. O fato de que pensadores
judaicos ortodoxos do pós-guerra presumiram um dualismo de nível óntico entre Israel e o
restante do mundo, já foi indicado na pesquisa publicada.
[1] Há três maiores formas de Judaísmo. O coração da Ortodoxia (incluindo Haçidismo)
era a Europa Oriental de pré-guerra; ela floresce outra vez hoje, primariamente em
Israel. Aquele do Judaísmo de Reforma era a Alemanha do século 19, e desde então
floresceu nos EUA O coração do Judaísmo Conservativo e do seu aliado Movimento
Reconstitucionista foram os EUA do século vinte.
De acordo com esse dualismo, a Cristandade pertencia categoricamente ao outro, poluído
(Tuma), mundo. Aqui quero qualificar a dualidade em dois aspetos: primeiro, pelo fato de que
alguns excepcionais pensadores ortodoxos do tempo de Guerra falaram duma afinidade positiva
com a Cristandade; segundo, pelo fato de que as percepções de sofrimento parecem ter sido
tiradas do mesmo universo do que a Cristandade as tirava, em termos de sofrimento vigário,
do sofrimento de Deus e da desvalorização da carne em nome de santidade espiritual. É
como se a mesma consciência sobre sofrimento estivesse aí para ambos. Assim, enquanto
ortodoxos pensadores judaicos geralmente posicionavam a Cristandade no reino de anti-Toráh,
tanto Judaísmo como Cristandade tiravam duma fonte comum para enfrentar a tragédia.
Portanto, se no contexto do Holocausto Judaísmo e Cristandade de fato compartilhavam nesse
nível muito profundo, a catástrofe pode virar para ser, não só a base para concernências
antitéticas (por exemplo, o Holocausto era a punição pela crucificação, em um extremo,
ou o subproduto do Anti-semitismo cristão que devia ser radicalmente removido no outro
extremo) mas também para síntese teológica.
Dualismo Categórico
Em geral, pensadores judaicos ortodoxos do tempo da Guerra assumiam a premissa de que o
mundo era partido em dois reinos antagônicos, Israel e as nações. A posição já fora
"canonizada" no período medieval, na medida em que apareceu na Epístola a
Yemen de Maimônides em 1172. Porque Israel era feito único e preeminente por Deus em
termos de preceitos divinos (Dt 4,8), Maimônides escreve, as ciumentas nações
levantaram-se contra Israel e o perseguiram por injustiça e inimizade – tudo em vã
tentativa de ferir Deus. Na era do Holocausto, essa premissa foi costurada em conformidade
com as respetivas escolas de pensamento citadas acima.
[2] Cf. Avi Sagi, "The Punishment of Amalek in Jewish Tradition: Coping with the
Moral Problem" (‘A Punição de Amalek na Tradição Judaica: Lidando com o
Problema Moral’), Havard Theological Review 87 (July, 1994): 323-346.
As primeiras são as concepções Mizrahi. Bentsion Firer (1914-88) e Rymanow, Polônia,
que percorreu a Sibéria durante a guerra para, depois liberação, chegar finalmente no
campo e refugiados em Ulm (Alemanha), depois foi a Palestina para chegar a ser uma figura
rabínica nacional, gerando a explicação do Sinai como uma fonte de ódio: "O quê é
a intenção do Sinai? Aquela de que sobre ele desceu ódio (Sina) sobre os idólatras"
(Shabbat 89b). Entre pensadores judaicos ortodoxos da Europa Oriental, inclusive
Firer, a frase era tomada para significar – evidentemente seguindo o comentário En
Yaakov de Ya’akov ibn Habib (1460-1516) – não que as nações idólatras eram
odiadas, pois então Deus as teria destruído, mas para que Israel fosse odiado pelas nações
e para que fosse odiado por causa da sua Toráh e Mitsvot. Firer chamou a atenção para que
a alienação podia ser traçada ainda para mais atrás do conflito entre Jacó e Esau, que
já começou na ventre de Rebeca (Midrash Bereshit Rabba 63). Encontrou, finalmente,
seu caminho para frente através do Sinai e Amalek e para dentro do mundo moderno. Para
Firer, o inteiro mundo não-judaico moderno pertencia àquele outro reino antagônico. Incluía
as nações democráticas que deixaram os judeus queimarem nos fornos de Maidanek e
Auschwitz e o mundo cristão que fez o homem Jesus para ser Deus e quer aniquilar Israel.
Hitler, mesmo deificado por fascistas nazistas, canalizou seu próprio antagonismo para um
assalto sobre o espírito de Israel. Assim, por exemplo, tatuava os braços de prisioneiros
para remover a individualidade deles e, por conseqüência, a humanidade deles. Uma vez
destruído o espírito, Hitler o sabia, a dimensão física de Israel rapidamente se
iria.[3]
Shlomo Diamant-Yahalomi (b. 1917) de Strizhov, Rússia, que era preso em Lvov, Odessa e
em campos de trabalho russos durante a guerra, chegou por fim a centros para refugiados em
Poeckering e Bergen-Belsen (Alemanha) e a seguir foi a Terra de Israel no mês de setembro
de 1947. Partilhava da visão de que o ódio foi implantado na história no Sinai,
identificando o nazismo como a explosão final. Quando fez o seu caminho de Lublin para o
oeste depois da Guerra, passou por Maidanek. Recordou como viu um crucifixo pendurado sobre
os fornos, ossos, e sapatos ali e compreendeu que Magen David nunca iria ter um lugar
entre as nações do mundo.[4]
O Rábi Chefe de Tel Aviv, Moshe Avigdor Amiel (1882-1945), escreveu que o mundo estaria
dividido metafisicamente entre o povo de Israel, que estaria raizado na absoluta e
auto-incluída (a coisa-em-si de Kant) realidade sacra de Deus e Toráh, e o restante do
mundo, que estaria raizado no secular e material (por exemplo Ex 19,5). Ainda no fim dos
dias, quando todas as nações do mundo afluiriam a Deus, Israel iria permanecer distinto,
porque refletiria coletivamente a Toráh a partir do começo da sua existência. A separação
era cosmicamente ordenada e absoluta. Sempre que Israel o tentou remover, como o fez por
helenizar ou por assemelhar-se na cultura espanhola cristã e moslim durante a assim chamada
Idade Áurea, houve caos – isso é que foi atacado (Ez 20,32-34). Israel fez o mais
intensivo esforço para assimilação no século 19, em termos do Iluminismo de Mendelssohn
e do Sionismo de Herzl. O caos que resultou nesse tempo era o Holocausto.[5]
Uma quarta figura, o líder mizrahi e prefeito de Jerusalém Shlomo Zalman Shraggai
(1899-1994), traçou também o inimigo de Esau a Hitler – que, Shraggai escreveu, era
decidido a destruir a Toráh e levantar suas mãos contra Deus. Quando Israel encontrava-se
em território de Esau – isso é exílio – em vez de apressar-se para escapar dos
perigos de se entremesclar, entrou, destruindo-se a si mesmo, dentro da cultura alheia até
o ponto de participar da sua visão de redenção – seja da Revolução Francesa ou seja
da democracia. O ódio das nações, intensificado pela intrusão de Israel no território
do inimigo, explodiu.[6]
Na sua natureza intrínseca, para pensadores mizrahi, a alienação era permanente e
metafísica realidade. Israel o tinha de conter ou o limitar a um estado de "guerra
fria". Seguiu, para os pensadores misrahi, que Israel tinha de ter o seu próprio país.
Isolado dentro do seu território próprio, a guerra não podia senão ficar
"fria". Supondo que os judeus não puxassem cultura não-Toráh para dentro do país,
ficariam fora do alcance do inimigo. Não antagonizariam mais as nações introduzindo-se no
território delas ou virar a ordem cósmica, causando caos chover em cima do povo judaico.
Segundo, pensadores da escola Agudat Israel consignavam o dualismo também.
Alexander Zusha Frydman (1897-1943), que estava preso no gueto de Varsóvia e depois
assassinado em Travniki, explicou-o em termos de Netsah Israel (A Eternidade de
Israel, 1599) pelo escritor místico Maharal de Praga. O antagonismo Esau-Jacó era parecido
com água e fogo. Quando se misturarem, a água destruirá o fogo. Se, porém, forem
separados – se a água for deitada num pote sobre o fogo – ambos sobreviverão. Citando
o místico, Yitshak Luria, Frydman escreveu que as sacras faiscas comunicadas a todas as nações
foram naturalmente retiradas por Israel, este que era o canal da sua fonte divina. A existência
de Israel significava sua deterioração, e assim as nações odiavam Israel.
[7] Alexander Zusha Frydman, como citado em Mendel Piekaz, Hasidut Polin
(Jerusalem: Mosad Biaslik, 1990), pp. 320-323.
No gueto de Lodz e depois em Bergen-Belsen, o educador religioso Yehud Leb Gerst
(1906-63) – que mais tarde chegou a ser um proeminente historiador de Literatura Hebraica
no Estado de Israel e recebedor do prêmio Rav Kook – falou da divisão em termos de
desenvolvimento histórico, um afastamento de básicas visões da Agudat Israel. A
identidade de Israel foi radicada na moralidade revelada no Sinai, sendo de caráter heterônimo.
As nações do mundo, com as suas tendências idolátricas e instintivas, falavam de
moralidade autônoma baseada no humano. Israel e sua moralidade chegaram a ser alvos para
ataque, de Ápion pelas Cruzadas adentro da filosofia pós-kantiana de autonomia moral (por
exemplo Jodl, Hartmann), Nietzsche e, finalmente, Hitler.[8]
Em Jerusalém, Yitshak Meir Levin 1894-1971), figura líder política da Agudat Israel da
Palestina, falou dum abismo entre Israel e o restante do mundo. Em um lado estava Israel que
trouxe as idéias de Deus para dentro do mundo e a visão de aperfeiçoar o mundo (Tikun
Olam); no outro, nações cruéis que eram posicionadas para guerra contra judeus e Deus
juntos. O ódio contra Israel foi implantado no Sinai (Shabat 89b) e intensificado
com o tempo. Não havia língua comum para servir de ponte sobre o abismo entre Israel o
"animal de presa". Israel era obrigado a não tentar terminar a separação que
era um fato metafísico, mas a estendê-la história adentro. Em vez disso, Israel permitiu
que a linha de separação rompesse. A culpada era assimilativa haskalah (os
Ortodoxos forçaram retroativamente assimilação e Iluminismo). Isso tanto enfraquecia o
Judaísmo quanto evocou intervenção divina na forma de agressões nazistas. Hitler era,
certamente, o efeito a longo prazo do ódio do Sinai, e estava pronto para atacar Israel,
porque este ameaçava o mundo. Todavia, o catalisador para seu ataque era o fato de que
Israel falhou para manter a linha divisória entre si e as nações.[9]
Em princípio, pensadores da Aguadat Israel distingiram Israel do resto do mundo pela Toráh:
Israel a tinha, e as nações do mundo não a tinham. Como com Mizrahi, isso significava uma
divisão ontológica, um antagonismo cósmico. Os pensadores da Agudat Israel, porém, não
criam que a inimizade pudesse ser contida, deixada sozinha se desfizesse, por Israel
isolar-se no País. O combate era trans-geográfico e só iria terminar quando Israel
tomasse todo o seu ser da Torá, fortalecendo-se até o ponto de invulnerabilidade e
removendo-se do reino de não-Toráh (seja isso luz diminuída da presença de Deus,
moralidade autônoma/idólatra ou existência assimilada). Como com Mizrahi, para Agudat
Israel, um País de Toráh para o povo de Israel, congelaria os dois reinos do universo nas
suas respetivas posições. Mas enquanto para Mizrahi o País era o único e precondicional
meio para fazer isso, para Agudat Israel a distância podia ser mantida em qualquer lugar. O
País, para Agudat Israel, não era o meio indispensável para esse fim, mas antes a conseqüência
do consegui-lo e a redenção que isto implicaria.
A terceira escola de pensamento, aquela de Haçidím e Kabalah, levaram o
dualismo ao vigamento apocalíptico. Segundo o "Habad", os Haçidím de
Lubavitch, que eram encabeçados por Yosef Yitshak Schneersohn (1880-1950) em Brooklin, o
mundo não-Israel era o entorse da humanidade que era inclinado ao mal. Somente existia para
Deus o empregar como instrumento para forçar Israel a voltar do pecado, que também era exílio
de si mesmo e da nação, e a realizar retorno penitente (Teshuvah) a Deus. O mundo não-Israel
teria certamente esse efeito, e Israel, finalmente, iria realizar Teshuva coletiva
– ao que o reino de inclinação má seria destruído. Habad antecipou o acabamento da Teshuva
em 1945, e falou de imediata redenção simultaneamente com a destruição antagonista de
Israel num "holocausto militar".[10]
Quarto: Em Jerusalém, Ya’akov Moshe Harlap (1883-1951), o líder da escola de
Rav Kook (falecido em 1935), Merkaz Harav, escreveu dum dualismo ontológico entre o santo
Israel e o restante Tuma do mundo. Usando imagens lurianas, diz que as nações do
mundo podiam ter tomado santidade – e com isso vida mesma – de Israel. Não tomavam, e
agora estaria tarde demais. A redenção estava iminente, e seria para Israel só. Porque
redenção significaria seu julgamento, as nações tentariam destruir Israel – em parte
na vã tentativa de deter o processo, em parte para levá-lo para baixo com elas, e em parte
porque eram tomadas por uma convulsão por se sentirem perto da morte e assim arremetiam
contra todos. Com redenção, o espírito de Israel sobreviveria, mesmo se o corpo fosse
despedaçado, enquanto as nações Tuma do mundo seriam completamente destruídas.[11]
Visões de Cristandade Excepcionais
Dada a metafisicamente baseada cisão entre Israel e o resto do mundo, suposta por essas
várias correntes de Ortodoxia, pelas quais qualquer envolvimento de Israel com outros
reinos envolveria autodestruição, qualquer qualificação do dualismo referente à
Cristandade teria sido extraordinária. Ainda assim, havia algumas excepções.
No ano de 1937, Eliahu Botschko de Montreux (falecido em 1956), cérebro fundador da
Yeshiva aí e líder da Agudat Israel da Europa Ocidental, fez de fato tal qualificação.
Quando a Cristandade surgia, escreveu, ela tentava adotar a lei-Toráh e com isso expelir o
ódio e fúria bestial que as nações tinham contra Israel. A Cristandade participava do
princípio de "Ama teu vizinho como a ti mesmo" (Mt 19,19) e o ensino judaico da
ética perfeição da humanidade, porque os cristãos criam que já testemunhariam o início
do messíah (die Spuren des Moshiach). Teriam sido confiados na esperança de que,
com o tempo, as nações do mundo chegariam a conhecer e entender Israel mais de perto,
assim que Israel pudesse ser reconciliado com o mundo. Os primeiros cristãos pensavam que a
humanidade iria, em união, caminhar sob a bandeira de Deus e iria logo celebrar o triunfo
da profética promessa: "E os gentios virão à Tua luz, e os reis ao esplendor de Teu
levantar" (Is 60,3). Entretanto, continua Botschko dizendo, as esperanças de Israel
quanto a isso foram despedaçadas. Perseguidores medievais montaram fogueiras para judeus no
próprio nome da Igreja. O paganismo, como voltou a se mostrar, estava somente dormindo na
Cristandade. Agora acordou e instituiu suas noturnas orgias. A Igreja, a grande porta de
Roma, na qual tantos esperavam encontrar proteção e amor, amargamente decepcionou Israel.
Os aparentes rastos (Spur) do messíah foram perdidos mais uma vez.
[12] Eliahu Botschko, Die Spuren des Messias (Os Rastos do Messíah) (Montreux
1937).
No meio dos anos 1930, Yehuda Leb Gerst, citado acima, escreveu como anteriormente os
cristãos declinaram das suas raízes judaicas. Era de fato porque o Judaísmo
"transmitia tanto sangue e medula pelas veias da Cristandade", que a Inquisição
se virou contra o Judaísmo. Em 1947, escreveu como racistas alemães consideravam a
Cristandade como "uma infeção dum soro (judaico) que permeava o corpo" do mundo.
Agredindo a Cristandade, poderiam destruir a substância que o "constantemente
fermentava". Alfred Rosenberg (1893-1946), continua Gerst, agredia os cristãos por
crerem as verdades da Toráh e a unicidade divina (Der Mythus des 20. Jahrhunderts: Eine
Wertung der seelisch-geistigen Gestalten-Kämpfe unserer Zeit (O Mito do Século 20: Uma
Avaliação das Lutas de Personagens Psico-Espirituais do Nosso Tempo), 1930). Gerst
apontou à resistência do reto e corajoso cristão Michael Cardeal Faulhaber (1869-1949),
que tomava das raízes da Cristandade no Israel e resistia. Todavia, reconheceu que havia um
traço idólatra na Cristandade, que se emprestou a si mesmo à anti-moralidade do nazismo,
e no qual os nazistas ligaram.
[13] Yehuda Leb Gerst, Yidishkeyt un Veltiskeyt (Loz: Masora, 1938);
"Ha’masoret shel Sinat Israel".
Em Nova York, o escritor mizrahi, Gedaliah Bublick (1875-1948), supunha a premissa de que
os paradigmáticos Jacó e Esau eram separados por um abismo (tehom), e que o
anti-semitismo ficaria inalterado, mesmo depois Israel tivesse seu próprio país. Para
Bublick, porém, a Cristandade era baseada no reino de Jacó. Identificou a racha nos tempos
modernos uma como entre mal/tirania/antireligiosidade e civilização. Bublick partilhava a
visão de 1935 do historiador de Cristandade, Christopher Dawson, de que a "civilização
moderna não só estaria acabando de ser cristã, ela estar-se-ia estabelecendo como
antireligião que não toleraria rival" (Religion and Modern State [Religião e
Estado Moderno]). Bublick emparelhava Judaísmo e Cristandade contra o universo
anti-religioso, onde santidade era pervertida para força de vida, finalmente sangue mesmo,
e onde verdades não eram determinadas senão humana e circunstialmente. O nacionalismo de
sangue da Alemanha nazista ateu era o resumo. Em um lado estava o reino de justiça e
filantropia, onde a humanidade se esforçava a emular os termos de moralidade de Deus, como
representados pelo Judaísmo e autêntica Cristandade não-racista. No outro lado estava a
satânica idolatria, regulamento pela espada – isto é o reino do anti-ser (sitra ahra).
Bublick pôs sua esperança para a civilização na América de Roosevelt e na Inglaterra de
Churchill, uma raizado na Constituição, a outra na Magna Carta, e as duas ultimamente nas
Escrituras Hebraicas.[14]
Ao quê as excepcionais visões de Botschko em Montreux, Gerst em Lodz e Bublick em Nova
York poderiam ser atribuídas? Eles tinham em comum uma orientação histórica: Botschko
falou do messíah como pronto a entrar na história, logo que os judeus ativamente
procurassem um País de Toráh (uma entreligação histórica que pensadores companheiros da
Agudat Israel rejeitavam); Gerst falou de moralidade no contexto de história cultural, e
Bublick falou de contemporâneos eventos históricos que separariam os civilizados dos
incivilizados. Antes de impor a divisão mística de Toráh versus não-Toráh ou Jacó versus
Esau sobre tempo e espaço, olhavam o desenvolvimento como fonte da própria verdade deste
– aspecto esse em que se alinhavam com o molde ortodoxo geral. Uma vez admitido
desenvolvimento histórico a seus sistemas, podiam olhar além dos cismas medieval e moderno
entre Cristandade e Judaísmo, de volta às origens judaicas da Cristandade.
[15] Depois da guerra, em 1947, Moshe Prager ofereceu uma análise ulterior do papel da
Cristandade, positivo e negativo, na ideologia do holocausto: Moshe Prager (Mark), Hurban
Israel Be’erofa (Tel Aviv:Ha’kibuts Ha’meyhad, 1947).
Sofrimento
Ortodoxas teologias de sofrimento do tempo da Guerra comprometeram, sem o perceber, a
ortodoxa premissa judaica de alienação. Apontavam a uma fonte comum, situada na consciência
ocidental, que estava aí para as duas religiões nela recorrerem em momentos de crise.
Devemos chamar a atenção para que - com a possível exceção do líder sionista de
Reforma, Abba Hillel Silver, que falou em 1943 do Holocausto como "crucificação"
dos judeus,
[16] Do infestado e por tifo atormentado gueto de Varsóvia, do bloco de morte dos países
ocupados pelos nazistas onde miriades do nosso povo aguardam execução pelo método lento
ou rápido, de cem campos de concentração à frente do mapa da Europa, das lastimosas
fileiras dos nossos hostes sobre a inteira superfície da terra, vem o grito: ‘Basta!
Deve haver um fim definitivo de tudo isso, um fim seguro e certo!’ Quanto tempo a
crucificação de Israel é para durar? Repetidas vezes temos sido estendidos no cavalete
pelos pecados de outra gente. Repetidas vezes temos sido feitos o malhadeiro para governos
errantes, o bode expiatório por perda na guerra, por miséria e depressões, por
conflitos entre classes" (Abba Hillel Silver, "Adress by Dr. Silver", Conference
Record [September 1, 1943], pp. 4-5).
nenhum pensador judaico do tempo da guerra – ortodoxo ou outro – atribuiu o
significado de sofrimento à Cristandade explicitamente. A prevalecente visão do sofrimento
de Israel exposta por pensadores ortodoxos do tempo da Guerra era o princípio básico da
Escritura que o próprio Israel era responsável pelo caos e foi punido pelos seus pecados.
[17] Sobre o aspeto punitivo do sofrimento, veja p. ex.: "E se não me ouvirdes e não
executardes todas essas ordens, se rejeitardes minhas regras, se vosso ser se repugna de
meus julgamentos, para não executar todas as minhas ordens, para anular meu pacto, eu
também farei isso contra vós, empregarei contra vós o enlouquecimento, o consumo, a
exaltação, extenuando dos olhos, mortificando o ser. Semeareis no vazio vossa semente e
vossos inimigos a comerão". (Lv 26,14-16, Cf. tradução de Chouraqui).
Essa posição de semelhante-a-causa-efeito (como um ato histórico pudesse evocar ou
"causar" resposta divina, era o seu próprio mistério, dada a divisão ortodoxa
entre realidades humanas e divinas) não está sob consideração aqui. Estou, antes,
interessado nos motivos do sofrimento vigário, sofrimento divino e a mortificação da
carne.
A. Sofrimento vigário
[18] "E no entanto, eram as nossas enfermidades que ele levava sobre si, as nossas
dores que ele carregava. Mas nós o tínhamos como vítima de castigo, ferido por Deus e
humilhado. Mas ele foi trespassado por causa das nossas transgressões, esmagado em
virtude das nossas iniqüidades. O castigo que havia de trazer-nos a paz, caiu sobre ele,
sim, por suas feridas fomos curados." (Is 53,54 – Cf.: A Bíblia de Jerusalém).
Israel sofreu, não por causa de algum pecado, mas sim por causa da sua santidade, o que
foi feito para redimir o mundo. Na comunidade de refugiados de Xangai de 1946, Simba Elberg
(1908-95) de Varsóvia publicou um tratado em yídiche, Akedat Treblinka (A Akeda de
Treblinka). Escreveu que Treblinka era uma coletiva Akeda – apresentou a tradição
de que a amarração de Isaac realmente levou a sua matança
[19] P. ex. na reportagem de Mainz (= Mogúncia, Alemanha), 1096: "Quando os judeus
descobriram que a turba irrompeu adentro do pátio do castelo, e que não havia saída
exceto através de apostasia, resolveram não mais adiar: ‘A sua voz soou para fora,
porque todos os corações estiveram em harmonia: <Ouve ó Israel, o Senhor ... é
Um." Nosso não é questionar os caminhos do Santo, bendito seja Ele e bendito seja
Seu nome, pois é Ele que nos deu Sua Toráh, Ele que nos mandou que morrêssemos e fôssemos
matados pela Unificação do seu Santo Nome.... Deixai cada um que tem uma faca
examiná-la, se não seja defeituosa. Deixai que se apresente e corte nossas gargantas
para a santificação dEle que Só vive Eternamente, e que no fim corte a sua própria
garganta.... Ao que todos deles, homens e mulheres, levantaram e mataram uns aos
outros.... A delicadeza de coração vestiu coragem e eles mesmos cortaram as gargantas
das suas esposas e crianças, sim, bebês... Mulheres descobriram seus pescoços uma a
outra afim de serem oferecidas [Li’ked] pela Unificação do Nome. Assim homem
tratou seu próprio filho e seu próprio irmão, assim irmão sua própria irmã, assim
mulher seu próprio filho e filha.... Aqui um está sacrificando e ele mesmo sendo
sacrificado, e ali um outro sacrificando e mesmo sendo sacrificado [ze oked vene’ekad
ve ‘ze oked vene’ekad] ... Pergunto-te agora e vê: houve jamais um tal holocausto
[Akeda me’ruba] como este, desde os dias de Adão? Quando houve alguma vez mil e
cem sacrifícios [Akedot] em um só dia, cada um e todos como a Akedah de Isaac,
filho de Abraão?’" ("Escudo e Broquel de todas as congregações",
como citado em Shalom Spiegel, The Last Trial – On the Legend and Lore of the Command
to Abraham to Offer Isaac as a Sacrifice: The Akedah, tr. e intro. Juadah Goldin [New
York: Parthenon Books, l967], pp. 18-20).
E constituiu a identidade interior da história de Israel desde Abraão. De fato, o
Holocausto destruíra o mundo da história, deixando o pré-histórico tôhu vavôhu.
Todavia, a nação de Israel, como a nação Akeda que é, permaneceu num ponto entre a
destruição e a nova criação, entre tempo e eternidade. "Isaac", isso é
Israel, escreveu Elberg, nunca foi baixado do altar e foi para sempre matado: "O monte
de Moriah foi carregado para sempre de um país a outro, da Espanha à França, da França
à Alemanha, à Polônia." No Holocausto, a nação "Akedat Yitshak"
aturou a prova de fé em Deus. O soluçar de milhões irrompeu das vermelhas chamas,
rachando os céus com o Shema Israel. Nunca antes os céus testemunharam tantos
judeus Kidush Hashem matados para santificar o Nome. Elberg frisou que o sangue de
Israel expiaria pelos pecados da humanidade e para redimir o mundo.
A Akeda de Treblinka, na qual judeus foram purificados e santificados através
agonia, sofrimento e dor, realizou o princípio de que "agonias tiram lavando todos os
pecados da pessoa" (Berakhot 5a). (Para Elberg, isso era de algum modo possível,
embora também cresse que a ira de Deus era evocada por Israel fazer paz com exílio.) Só
os mais santos podiam servir como sacrifício, e os judeus da Polônia e Lituânia eram os
mais santos de todos. Eles eram a santa emanação (Atsilut) de Deus, os capazes para
argumentar com Deus referente ao inteiro Israel, e que oravam a Deus num modo único e
potente. O profundo sentido de Polônia-Khurban, diz o autor, poderia ser encontrado
em Lv 10,3: "Por meus próximos serei santificado." Isso significa que "através
da morte dos que estão perto de Mim, Eu (Deus) vou chegar a ser santificado". Isso
traria redenção. A "fúria trasbordando" implícita ao "vou reinar sobre vós
com mão forte" (Ez 20,33-34) da apocalipse tomara lugar, a hora da divina revelação
para toda a humanidade chegaria logo. Isso, escreveu Elberg, "era de fato nossa missão
especial, redimir o mundo com o nosso sangue (oystsuleyzn di Velt mit undzer Blut)".[20]
Firer, mencionado acima, também falou de sofrimento vigário. Partilhava a visão de que
sofrimento seria inerente para a existência de Israel eterna na história. Dado o metafísico
antagonismo entre Israel e as nações, que relacionamento sobrou para Israel? Não acomodação
que exauriria a Israel a vida pela Toráh, mas somente a Mesirat nefesh seria possível,
um relacionamento de sacrifício. Aqui, autodestruição em um nível significaria preservação
num outro, porque sofrer até a morte em nome da Toráh, constituiria asserção da Toráh.
Como com Abraão que preparou lenha para o sacrifício com deliberação (Midrash
Bereshith Rabba 55:8), assim seu povo através da história teria de sacrificar-se
resolutamente, mesmo com senso de equanimidade com vistas na morte. O Holocausto era o
cumprimento de sofrimento e, como tal, o fim da história com que sofrimento estava
emparelhado, e a abertura da redenção. Firer identificava o Holocausto como a dor de parto
do messíah, acompanhada por um "efluxo colossal de sangue" como qualquer
nascimento. Assim, para Firer, o caráter sofredor da existência histórica de Israel –
seu sacrifício para a vida e Toráh – foi transformado pelo Holocausto em um sacrifício
para redenção da humanidade.[21]
B. O Sofrimento de Deus [22]
Os Sábios escreveram que Deus estava também preso no Egito, "vivendo em sofrimento
justamente como os israelitas estavam vivendo em sofrimento" (Midrash Shemot Rabba 2:5).
Em Tel Aviv, o haçid de Kotsk-Sokolov, Hayim Tsimrman, escreveu em Tamim Pa’alo (Seus
Caminhos São Perfeitos, 1947) que Deus estaria com Israel no seu infortúnio ("Ele Me
invocará, e lhe responderei, com ele Eu [estarei] no infortúnio", Sl 91,15) e
partilhar do seu sofrimento. Como os Sábios o expressaram: "Quando um homem sofrer, à
que expressão a Shekhina (divina presença) dará expressão? Minha cabeça está
pesada, meu braço está pesado! Se o Santo, bendito seja Ele, está assim aflito sobre o
sangue dos maus, quanto mais o é sobre o sangue dos retos que está sendo derramado?"
(Hagiga 15b).[23]
No gueto de Varsóvia (1939-43), o haçid de Piasecz, Kalonymous Kalman Spira, escreveu
em Esh Kodesh (O Fogo de Santidade) que Deus sofria pela tragédia – tanto que Deus
teve de remover a Si Mesmo (Godself) do mundo finito e chorar em segredo (Midrash Eykha
Rabba, Proem 24), para que o sofrimento infinito de Deus não destruísse o mundo. Deus
foi ao seu próprio reino de Deus para chorar (Hagiga 5b). Pensando a partir do
finito humano a Deus, Spira escreveu que sofrimento físico faria descer a alma, para longe
de Deus, mas também pensou em termos da absoluta infinidade de Deus, esta que encheria toda
realidade, e isso incluiria o sofrimento de Deus. "Não é só que seria impossível
para uma pessoa suportar a experiência dum tão grande sofrimento, mas até é impossível
fazer idéia do Seu sofrimento, porque Ele está além os confins humanos." Quando Rábi
Yose, um Tana (~professor) do segundo século, entrou nas ruínas de Jerusalém para orar,
pelo que sua individualidade (selfhood) foi aniquilada, podia ouvir a sofrente voz de Deus:
"Ai de Mim, porque destrui Minha casa, queimei Meu templo e exilei Minhas crianças"
(Berakhot). Assim que judeus imergirem-se na realidade divina, o seu próprio
sofrimento não mais os separa de Deus, mas sim os liga a Deus, sofrimento humano será
ligado ao de Deus, por isso aliviado pelo saber que a pessoa não sofria sozinho.[24]
Em Jerusalém, no mês de dezembro de 1944, o líder Musar, Yehezkel Sarna (1989-1969),
escreveu no seu Liteshuva Velitekuma (Na Direção de Volta e Ressurgimento) que o
choque de catástrofe era tal que os judeus nem podiam chorar. Se Jeremias não podia chorar
sobre a tragédia do templo (Jr 8,23), como um judeu podia chorar agora sobre o Holocausto?
A pessoa não podia senão dirigir-se a Deus por ajuda. Como Deus chorava sobre a destruição
do Templo (Ekha Rabba 1:10, Deus chorava agora. As lágrimas de Deus eram misteriosas
(Jr 13,17) e impossíveis a emular, mas a ontológica realidade do divino prantear fazia a
realidade humana possível. Os judeus podiam chorar com Deus, e então as lágrimas seriam tão
preciosas para Deus que Deus iria preservar cada uma e todas (Midrash Shoher Tov al
Tehillim, chap. 80).[25]
C. Mortificação física confrontado com Contentamento Espiritual
[26] Veja: "Mortificai, portanto, vossos membros que estão na terra; fornicação,
imundície, afeição desordenada, má concupiscência e cobiça, que é
idolatria"(Cl 3,5), e "Mas contenho meu corpo e o levo à sujeição: para não
de qualquer modo, depois de ter pregado a outros, eu mesmo seja jogado fora" (1Cor
9,27).
No século treze, o Maraham de Rottenburg escreveu:
Quando um homem se tiver cometido ao Kiddush Hashem, e a sacrificar-se al
Kiddush Hashem, qualquer coisa que lhe for feita – seja apedrejamento, queimação,
ser enterrado vivo, enforcamento – não o ferirá de modo algum. Não há nenhum homem
no mundo que não exclame se o seu dedo mínimo tocar em fogo – mesmo se o tiver
conseguido reter. Muitos sacrificaram-se a serem queimados e assassinados al Kiddush
Hashem, bendito seja Ele, e não exclamam "Oy" ou "Avoy".
Elberg, citado acima, escreveu que o sofrer Akeda conteria um contentamento
espiritual interior, até uma esperança radiante, e que o sofredor teria uma força dada
por Deus para suportar. No Monte Moriah, Abraão sentiu pena, mas Isaac recebeu uma força
espiritual para estirar o seu pescoço num ato de amor pela Shekhina. Na Akeda
de Treblinka, a mãe das inocentes vítimas (Korban), que entrou na câmara de gás,
não sofreu penas de Guehinom, porque "estava vivendo numa outra, celestial atmosfera
que suavizava seu sofrimento". Foi, antes, quando era sentenciada a observar a morte
das suas crianças que chegou a ser convulsionada. Quando o pai foi queimado vivo, não
sofreu as agonias de Jó, porque uma nova força nutriente nasceu nele, que lhe deu força
para suportar a dor. Magoava, porém, quando observou sua esposa ou criança se debatendo.
Em Ra’ana, Palestina, em 1941-42, o pensador musar, Ephraim Sokolover (1901-68),
ofereceu sua metáfora: Um cirurgião (quer dizer Deus) que teve de amputar ambas as pernas,
a seguir ambos os braços e ainda efetuar mais cirurgias no seu próprio e único filho
(isso é Israel), teve de decidir entre deixar a criança viver para sofrer para sempre ou
morrer e não sofrer mais. Porque Deus estava ligado eternamente a Israel, Deus não o podia
deixá-lo morrer. Os judeus, porém, tinham uma força espiritual sem igual, uma santa força
secreta, que os capacitava para suportar sofrimento físico. Quando os Dez Mártires foram
assassinados, incluindo Rábi Akiva e Hananiah ben Teradyon, todos os judeus podiam aceitar
e suportar o sofrimento porque sabiam que veio de Deus. O prazer de seguir a vontade de Deus
fará a física tortura indolor.[28]
Ecoando isso em Tel Aviv, o pensador musar, Hillel Vitkind, escreveu que os sofrimentos
do Holocausto seriam coisa da expiação de Israel em antecipação da vida depois
(afterlife); daí, a pessoa instruída estaria feliz suportando-os em antecipação da
ascensão da alma a Deus.
[29] Vitkind citou: "’E Deus te dê o rocio dos céus, os óleos da terra, uma
multidão de cereais e de vinho’ [Gn 27,28]. [Rashi:] O quê é a consideração de
Deus? Que age em justiça. Se fores digno, dar-te-á, e se não, não te dará. Mas a Esau
disse: Se os gordos lugares da terra forem tua moradia, seja fores reto ou mau, dar-te-á."
(Hillel Vitkind, "Darkhe Teshuva", no seu Musar Ha’atora I [Jerusalém:
Pinhas Even Printing, 1943/44], pp. 136-139).
Conclusão
Embora pensadores judaicos ortodoxos durante o Holocausto – e, exceto Leo Baeck
(1863-1956), teólogos conservadores e da Reforma não começaram a lidar com o Holocausto
senão até duas décadas depois – tivessem uma visão do mundo não-judaica
conscientemente monolítica, que reciprocava a anti-semítica tradição cristã, não era
isso o quadro inteiro. Uns poucos pensadores ortodoxos de mentalidade histórica falaram
positivamente da Cristandade e consideravam a associação desta uma trágica caída no
paganismo. Mas além disso porém, existe o fato notável de que a maioria das mais extremas
vozes da ala direita do Judaísmo do tempo da Guerra formou sua ideologia de sobrevivência
– e isso, de certo, não conscientemente – ao redor de motivos que jaziam no coração
da Cristandade. Significa isso talvez que, em tempos de extrema crise, as duas religiões não
se movem senão em certos valores comuns? No caso de que isso for assim, não terá valor
começar a dar importância a elementos de síntese interior de Judaísmo e Cristandade no
rasto do Holocausto?
© 1999 Gershon Greenberg
Tradução: Pedro von Werden SJ. Texto inglês |