Jewish-Christian Relations

Entendimentos e Assuntos no Diálogo Cristío-Judaico

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Artigos | Contribuições Científicas (466)

Kessler, Edward | 01.04.2005

Lendo Escritura Violenta

Edward Kessler

Quando viste o mal, esse te foi mostrado a fim de aprendas da tua própria culpa e te arrependas; pois o que te está mostrado está também dentro de ti (Baal Shem Tov 1698-1760).

Esse ensaio quer oferecer uma variedade de aproximação à interpretação de textos bíblicos violentos. Isso tem valor num mundo onde a violência está sendo executada no nome de religião, justificada por interpretação particular de um ou mais textos sagrados. Vou começar com uma consideração breve das respostas judaicas tradicionais à violência em tempos bíblicos, rabínicos e modernos. A sobrevivência do Judaísmo na face de ataques externos não é um fenômeno novo, e sugiro que o reconhecimento entre os judeus à idéias promovido nos escritos rabínicos provenha alguma ajuda no desenvolver uma resposta apropriada num mundo crescentemente violento. A isso, a percepção entre os judeus de agora existirem parceiros nesse exercício deveria fortalecer o nosso resolver de atacar esses textos. A Cristandade, tanto tempo sendo instigadora de violência e desdém para o Judaísmo, chegou, nos anos recentes, a ser uma amiga que tem respeito e admiração para o Judaísmo. A percepção dessa transformação nas atitudes cristãs ao Judaísmo pode contribuir ao desenvolvimento dum princípio hermenêutico pelo qual, tanto judeus como cristãos, possam ler e interpretar textos violentos. Espero que algumas dessas sugestões sejam também de valor para os moslins lendo o Qu´ran [Corão].

A Visão Tradicional Judaica de Violência

Até recentemente, a resposta judaica tradicional e mais comum à violência se baseava em Jeremias 29,4-7:

Assim diz o SENHOR das hostes, o Deus de Israel, a toda a catividade, que causei a serem levados cativos embora de Jerusalém até a Babilônia: Construí-lhes casas e morai nelas, plantai jardins e comais os frutos desses, tomar-lhes mulheres, gerando filhos e filhas e tomando esposas para os seus filhos e dando esposos para as vossas filhas, a fim de dêem à luz para vós filhos e filhas; e vos multipliquem ali e não sereis diminuídos. E buscai a paz para a cidade aonde vos fiz sendo carregados fora cativos, e orai ao SENHOR para isso; pois na paz dela havereis de ter paz.

O conceder de poder aos de fora e o aceitar a violência que prevalecia eram estratégias, as quais seguravam a sobrevivência do Judaísmo. Desistindo dum desejo para soberania, os judeus ganharam alguma autoridade no regular as suas vidas. Sob o lema DINA DeMaLKUTÁ DINA (a lei do governo é lei), a comunidade judaica baseava a sua existência na lei da sua sociedade hospedeira. "A pessoa precisa todo o tempo estar cedendo como um junco", disseram os rabis, "e não desencurvada como um cedro". 1 Essa aproximação segurava a sobrevivência judaica, capacitando o Judaísmo a desenvolver e florescer na face de violência, até o surgimento do anti-semitismo nos séculos 19 e 20, quando a passividade do modelo rabínico, com o aceitamento dos pogroms, massacres e, finalmente, o Holocausto não ofereceram nenhum adiamento.

Arthur Waskow aponta ao decênio dos 1880, quando os judeus começaram a perceber que não pudessem mais viver pelo modelo rabínico2 ("A Espada e o Arado como Ferramentas do TiQUN `OLaM [reparo do mundo]"), desejando assumir o controle do seu destino próprio. Autodeterminação da Terra de Israel chegou a ser a meta. O Sionismo, tanto da ala esquerda PaLMa"H como da ala direita IRGUN, produziu um modelo militar, o qual almejava proteger os judeus na Terra de Israel por força. Na maior parte, o esforço para segurar e defender o território em que construir uma sociedade judaica permitia compromisso, participação e auto-restrição. No entanto, nos últimos poucos anos, resposta mais agressiva à violência chegou a ser notável, e o processo de tomar decisões militares, que fora baseado no uso de força militar moderada e defensivamente, tem agora mudada para o uso de força liberal beligenrantemente - tanto para conquista como para auto-defesa.

Há muitas dificuldades com essa aproximação, uma das quais é não é provável que um povo pequeno vivendo em Israel possa manter em longo prazo um esforço militar, desenvolvendo ao mesmo tempo uma sociedade decente. Nem a União Soviética, um superestado continental, podia carregar esse fardo nas costas. Não está completamente claro que o país mais rico na história do mundo, os Estados Unidos, possam por gerações manter uma guerra contínua - mesma "uma guerra contra o terror" - ficando uma sociedade decente em casa.

As chances de que Israel o possa são muito pequenas. Pode parecer implausível primeiro, mas se nos voltarmos a algumas passagens mais violentas da Escritura, examinando as interpretações rabínicas ao longo, vamos encontrar alguns comentários surpreendentemente relevantes e refrescantes, os quais possam prover guia no desenvolver resposta para os assuntos levantados por esse problema.

Lendo a Bíblia

A peça central do serviço judaico é o ler da Toráh Escrita, os 5 livros de Moisés. Os judeus, tradicionalmente, lêem cada e qualquer um versículo, inclusive os versículos mais problemáticos. Esses incluem passagens violentas tais como Deuteronômio 20, que trata de batalhar uma guerra e da ética de luta armada, começando com uma mensagem notavelmente democrática, iluminada e moralmente tópica:

Quando fores para batalhar contra os teus inimigos, vendo cavalos e carros e gente mais numerosa que tu, não deves ter medo deles, pois o Senhor, teu Deus, está contigo, este que te trouxe para cima da terra do Egito. E deverá ser, quando te dispuseres retamente para o combate, que os sacerdotes se devem aproximar falando ao povo, dizendo-lhe: "Escuta, oh Israel, te porta retamente à batalha contra teus inimigos, para te salvar." E os oficiais devem falar ao povo dizendo: "O homem estiver aqui que tem construído uma casa nova não a tendo dedicado? O deixai voltar primeiro à sua casa, para que, se morrer na batalha, outro homem use o fruto dela. E quando houver homem que tem contratada uma mulher e não a tiver tomado ainda? O deixai voltar a sua casa, para que, se morrer na batalha, um outro a tome." E os oficiais devem falar ainda ao povo, devendo dizer: "O homem que estiver com medo e timorato? O deixai ir e voltar para a sua casa, para que o coração dos seus irmãos não se derreta como o coração dele." E deverá ser, quando os oficiais terão terminado da fala ao povo, que os capitães devem ser apontados na cabeça do povo.

A Bíblia propõe um exército de voluntários, sugerindo que muitos grupos do povo não devessem ser esperados a batalharem em guerra, particularmente aqueles que têm:

  • recentemente se mudado para um lar novo;
  • plantado uma vinha, mas não ainda colheram os frutos dessa;
  • chegado a ser noivos e vão casar em breve;
  • medo de guerra.

A passagem continua explicando que à cidade a ser atacada deveriam primeiro ser oferecidos termos duma rendição pacífica, mas, se recusar, deveria ser assediada. Na vitória, mulheres e crianças não deveriam ser ofendidas. Até isso, assim iluminadamente bom, mas os versículos 16-18 são especialmente problemáticos:

Sem embargo, das cidades desses povos, que o Senhor teu Deus te dá para herança, não deves salvar vivo nada que respira, mas deves totalmente destruir: os heteos, os amorreus, os cananeus, os ferezeus, os heveus, os jebuseus, como o Senhor, teu Deus, te comandou; para que eles não te ensinem fazer depois de tudo todas as suas abominações, que fizeram para os seus deuses, e assim vós pequeis contra o Senhor vosso Deus.

A Bíblia manda que as cidades dos heteos, dos amorreus, dos cananeus, dos ferezeus, dos heveus e dos jebuseus devessem ser destruídas, e que cada homem, mulher e criança (e animal) devesse ser morto. Embora aquelas cidades, a partir da perspectiva da Escritura, possam simbolizar os nazistas daquela época, como tais versículos devem ser interpretados, particularmente no mundo violento de hoje?

Os rabis decretaram que poder militar não deve ser mais usado. Fizeram isso evadindo, nulificando e interpretando embora de outro modo os comandos genocídios contra os cananeus e outros povos idólatras. No lugar de extrapolar daqueles comandos que estava reto - até obrigatório - varrer fora um povo que rejeitava o único Deus verdadeiro, os rábis iam à direção oposta, estabelecendo que o exemplo cananeu era nulo e vão. Como os povos cananeus não existiam mais, os rábis explicaram que os assírios os disseminaram também como dez tribos perdidos de Israel em 721 aEC [antes da Era Comum] - os rábis decidiram que os comandos de usar ação militar contra os cananeus era letra morta.3 Se ação militar contra os cananeus não era mais necessária, então a própria ação militar não era mais mandada.

Os rábis eram criativos em a Toráh a situação nova. Podiam ter entendido as seis nações como símbolos para perigos em curso para serem tratados militarmente, mas escolheram, no lugar, anular o significado genocídio do texto e até rejeitando o comando de executar uma criança israelita ou varrer uma cidade israelita rebeliosa.4 Essa era uma decisão ética de não executar um mando literário da Toráh. Alguém poderia argüir que a certa extensão, os rábis eram simplesmente pragmáticos, dado o poder dos impérios romano e bizantino, mas essas decisões apontam a uma rejeição ética contra o uso de violência. De fato, os rábis, na maioria dos casos, rejeitaram as punições violentas prescritas na Toráh, indicando que uma corte que sentenciar até uma pessoa à morte em setenta anos, é uma corte de assassinos.5

Conseqüentemente, o Judaísmo rabínico construiu um modo não violento para o povo judaico viver no mundo. Vivendo numa minoria vulnerável na sociedade cristã (e moslêmica), as comunidades judaicas, no período rabínico, abandonaram a esperança de superar os opressores. Só dentro de nós mesmos, os rábis diziam, os judeus podem superar o mal. De acordo com uma tradição, quando todos os judeus verdadeiramente observarem o sábado duas vezes na fila, o messíah vai chegar, transformando o mundo.6É notável que tal transformação vá tomar lugar como resultado de ação divina antes de interferência humana. Para quase dois mil anos, com poucas exceções, os judeus aceitaram o seu sofrimento passivamente. Experimentavam expulsões, pogroms e queimações, crendo que iriam viver além desses eventos. Essa técnica de sobrevivência está sendo ilustrada pelo fato de que até como as luzes judaicas da Europa Oriental foram extintas uma por outra; expulsados da Inglaterra (1206), França (1306) e Espanha (1492), novos centros judaicos estavam sendo estabelecidos na Europa Oriental, Turquia e Oriente Médio.

Não é surpreendente que, pelos séculos, a mentalidade permeava as mentes da maioria dos judeus, que viam a comunidade judaica como ainda estando extremamente engolfada por inimigos. O legado dessa mentalidade existe hoje e deve ser superado. A necessidade de desenvolver amizade e construir relações positivas com comunidades de mentalidade semelhante é essencial. Isso se amplia pelo perigo de que um povo pequeno sofrerá mais uma catástrofe na terra de Israel. O Judaísmo precisa de aliados para esse desafio. A mentalidade de isolação imbuia o Judaísmo tanto bíblico como o rabínico. Se desenvolveu no esforço de conquistar Canaã contra o que estava visto como oceano de idólatras e cresceu no esforço para sobreviver o Império Romano. Essa postura mental foi reforçada por inquisições e pogroms e até pelo hábito mais gentil moslêmico de tratar os judeus como animais de estimação. A Shoáh e as ameaças continuadas ao Estado de Israel alimentam-na ainda mais.

Se os judeus sobreviveram por meios militares na terra antiga de Israel ou viviam de não-violência entre outras civilizações, o Judaísmo, tanto o bíblico como o rabínico, reforçara a percepção entre os judeus de que estavam no seu próprio, e que nenhum outro compartilhava a sua visão, e que todos os forasteiros eram inimigos. Por séculos, podem bem ter refletido verdade considerável. No entanto, nos últimos cem anos, os judeus começaram a descobrir que há outras comunidades no mundo, com as quais possam compartilhar uma visão duma sociedade decente. A transformação das atitudes cristãs ao Judaísmo é um exemplo. De fato, um relacionamento positivo entre Judaísmo e Cristandade é uma das poucas peças de novas boas em reportagens da mídia sobre encontros religiosos no mundo violento de hoje.

A Transformação nas Percepções Cristãs do Judaísmo

Nos últimos 100 anos passados, a necessidade para a Cristandade de abandonar a sua animosidade religiosa histórica e a caricatura transviadora a respeito do Judaísmo foi esmagadora. Essas são agora geralmente admitidas como sendo erradas e a sua rejeição plena e pública estava sendo requerida antes de reconstruir relações boas com o Judaísmo. Assim, o que era requerido era uma mudança daquilo que era, na parte maior, uma necessidade inerente de condenar o Judaísmo a uma de condenação do antijudaísmo cristão. Esse processo não levou a separação de todas as coisas judaicas, mas, de fato, a um relacionamento mais estreito com o "irmão mais velho". Nas palavras do teólogo alemão, Johannes Metz, "a teologia cristã depois de Auschwitz deve enfatizar de novo a dimensão judaica das crenças cristãs, devendo superar o bloquear fora da herança judaica forçada dentro da Cristandade" 7. Como eticista social, John Pawlikowski, declarou que "o Holocausto o tem feito imemorial para os cristãos manterem qualquer cristologia que for excessivamente triunfalista o que encontrar a significância do Evento Cristão na deslocação do Povo Judaico de relacionamento de aliança contínuo com Deus" 8.

Quanto a respeito da leitura da Bíblia, isso levou a se atracar com o ensino tradicional de desdém ao Judaísmo (conhecido como Adversus Iudaeos [Contra os Judeus]) nas interpretações cristãs da Escritura. O ensino de desdém chegara a fazer parte da identidade cristã. A extensão à qual esse estágio primeiro se completou com sucesso está sujeita a algum desacordo entre os cientistas - críticos tanto dentro como fora da Igreja crêem que seja preciso fazer mais. No entanto, as mudanças foram dramáticas, estando claro que muitos dos assuntos divisórios entre o Judaísmo e a Cristandade tem sido ou eliminados o levados ao ponto próximo, sobre o qual concordo for possível. Os esforços de católicos e protestantes a respeito do Judaísmo se refletem em documentos, os quais projetam atitudes que teriam sido impensáveis algumas décadas antes. A teologia cristã tem sido profundamente revisada no nível oficial - todas as Igrejas são cometidas a lutarem contra o anti-semitismo e ao ensinar a Judaicidade da Cristandade. Isso se ilustra no documento recente publicado pela Comissão Bíblica Pontifical, intitulado de O Povo Judaico e as Escrituras Sagradas deste na Bíblia Cristã, (2002) o qual, entre outras coisas, chamou os cristãos a lerem e aprenderem sobre as interpretações rabínicas da Escritura, declarando que a expectação messiânica judaica não estaria em vão.9

Poucos negariam que uma mudança massiva de atitude tomou lugar e que, na sua parte maior, a Cristandade, pelo menos no Ocidente, faz, não mais parte do problema do anti-semitismo, mas sim da solução deste. No que se refere à Escritura, os cristãos estão agora sendo ensinados que a Bíblia Hebraica não é simplesmente chapa para o Novo Testamento, possuindo pouca autoridade no direito próprio dela. Era necessário restaurar alguma espécie de balanço entre a Bíblia Hebraica e o Novo Testamento e a reverência às grafai (Escrituras) como um todo tem sido reafirmado na interpretação bíblica cristã. A interpretação judaica está sendo valorizada e respeitada por cristãos em uma extensão, a qual teria gerado descrença justamente algumas gerações antes.

Enquanto a ciência bíblica cristã rejeitou o seu estereotipar negativo anterior dos judeus e do Judaísmo, resultando numa aproximação revisada no ensino de estudos bíblicos, alguns escritores judaicos focalizaram mais em como ler a Bíblia à luz da Shoáh. Em geral, as respostas judaicas à Shoáh tendem cair em duas categorias, ambas das quais impactam na leitura judaica da Bíblia. A primeira está representada por figuras como o filósofo Emil Fackenheim, o teólogo Richard Rubenstein e o autor Elie Wiesel. Todos eles argüiram que a Shoáh resultou numa "ruptura" no relacionamento entre os judeus e Deus e numa conseqüente distância da Escritura.

Richard Rubenstein ofereceu reação "ateísta" na sua teologia de "morte de Deus". Em Depois de Auschwitz (1966) declarou que a Shoáh enterrara qualquer possibilidade duma fé dum Deus de aliança da história e que, em vez de interpretar a Bíblia nos termos tradicionais, os judeus a devessem considerar simplesmente em termos duma existência terrestre. Na sua edição segunda revisada da mesma obra (1992), Rubenstein ofereceu uma aproximação mais mística. O que não mudou é a sua afirmação duma visão de Deus completamente diferente da visão da corrente principal do Judaísmo bíblico e rabínico e sua rejeição da noção de que os judeus sejam em algum sentido um povo ou escolhido ou rejeitado por Deus.10

A segunda resposta é ver os eventos entre 1933 e 1945 como alguém o veria em consideração a perseguição e opressão durante outras épocas de sofrimento judaico extremo. Essa visão está sendo representada por cientistas judaicos tais como Jacob Neusner, Eliezer Berkovits, Eugene Borowitz e Michael Wyschogrod. Este esclarece a posição deles declarando que "as vozes dos profetas falam mais alto que Hitler"11. De acordo com esse argumento, as aproximações tradicionais à Escritura provêem os meios pelos quais chegar a termos com a Shoáh. Mas como devemos ler a Escritura à luz do Holocausto?

Emil Fackenheim chama para luta com o texto bíblico, e se houver necessidade, um combate contra ele. O texto bíblico está sem aceito como texto primário, mas está sendo visto como "nu"; os judeus estão sendo impelidos a atacarem o texto bíblico, porque também eles são "nus".

Depois do Holocausto, os judeus não podem ler, como o fizeram outrora, dum Deus que não dorme nem dormita; tão enormes são os eventos da história recente … que a Bíblia Judaica … precisa lutar com ela, se necessário: lutar contra ela.12

Fackenheim examina várias aproximações prévias à Bíblia, rejeitando-as todas. Por exemplo, Martin Buber propusera que cada geração, por sua vez, lutou com a Bíblia. Antes da Shoáh, Buber declarou que:

As gerações são, de modo algum, para escutarem ao que o livro tem a dizer e o obedecerem; são muitas vezes vexadas e desafiadoras; nem por isso, a preocupação com o livro faz parte das suas vidas, e enfrentam nele um mundo real.13

Depois da Shoáh, Buber perguntou se alguém pudesse ter coragem de recomendar aos sobreviventes do Holocausto: "agradecei ao Senhor porque Ele é bom, por a Sua graça dura para sempre"? (Salmo 111,1). Adotando a frase "eclipse de Deus" (HeÇTêR PaNÍM = ocultação das faces) como meio de descrever a Shoáh, sugeriu que, justamente como a lua pode parecer bloqueando o sol, assim Deus foi eclipsado durante o Holocausto.14

Mas para Fackenheim, o foco jaz, não com um eclipse metafórico de Deus, mas sim com uma luta mais tangível pelos sobreviventes do Holocausto:

Se esses [sobreviventes] abrirem a Bíblia Judaica, estarão mais que "vexados" e "desafiantes": o Livro os enche com afronta; ainda, também, mais que meramente "preocupados" com ele, se agarram nele para sobreviver. Uma relação tão nova, tão paradoxa está vindo a ter entre o Livro então e ali, e a "geração" aqui e agora. Isso é por causa de dois eventos referidos por nomes de lugares: Um é Auschwitz, o outro: Jerusalém.15

A Relatividade Exegética16

A certa extensão, lutar com o significado da escritura jaz no coração da exegese rabínica.. A Bíblica Rabínica, as MiQeRaÔT GeDoLôT, com os seus comentários que se estendem sobre os sáculos, abrangendo ao redor do texto bíblico, está sendo retamente considerada uma como celebração da natureza duradoura do debate sobre significar. A disposição rabínica de ver uma multidão de significados possíveis diferentes, em contraste marcado ao significado "autêntico" singular, sustentado por autoridade clerical ou científica, nos provê com os meios de manejar textos bíblicos difíceis.

Essa aproximação pode ser descrita como relatividade exegética, sendo promovida pelos rábis como segue:

Na escola do Rábi Ishmael se ensina: "Vede: a Minha palavra é como fogo, oráculo do Eterno, e como um martelo que despedaça uma rocha" (Jeremias 23,29). Justamente como um martelo divide em várias fagulhas, assim também cada versículo escritural fornece significados diversos.17

A aproximação à interpretação bíblica pode também ser encontrada na exegese cristã clássica. Embora menos bem conhecida no Ocidente, porque se deriva da tradição siríaca, a passagem seguinte do Padre de Igreja, Santo Efraím, é significante para o nosso estudo.

As facetas da palavra de Deus são mais numerosas que as facetas daqueles que aprendem de aprendem dela. Deus pinta a Sua palavra com muitas belezas, assim que cada um daqueles que aprendem dela possa examinar aquele aspecto que quiser. E Deus escondera dentro da Sua palavra todas as espécies de tesouros, assim que cada um de nós possa ser enriquecido por ela, qualquer que seja o aspecto que meditar. Pois a palavra de Deus e a Árvore de Vida, a qual profere a te em todos os lados frutas abençoadas; ela é como a Pedra que foi construída no Deserto, a qual chegou a ser bebida espiritual para cada um em todos os seus lados: "Comeram o alimento do Espírito, e beberam a bebida da corrente do Espírito".18

A aceitação da legitimidade duma variedade de significados diferentes, cada um dos quais reclamando validade, está sendo, portanto, encontrado no coração da exegese judaica e cristã tradicionais. A existência de relatividade de exegese significa interpretações tradicionais da Escritura permitirem uma largueza e pluralidade de pontos de vista. Nesse modo, as tradições exegéticas, tanto a judaica como a cristã, provêem um meio, pelo qual lidar com textos os quais forem ao contrário ao que consideramos como os valores fundamentais da nossa tradição ou intolerância. A aplicação de relatividade exegética depende em um único critério: de que a interpretação bíblica deva rejeitar qualquer interpretação que promovesse ódio, descriminação ou superioridade de um grupo sobre o outro. Por exemplo, a aplicação literal dum texto bíblico para o fim de subjugação de mulheres aos homens, dos pretos aos brancos, dos judeus aos cristãos, assim tendo de ser considerado inválida, requerendo re-interpretração.

Essa aproximação é justificada por um princípio hermenêutico, compartilhado por cristãos e judeus: a humanidade deve viver pelos mandamentos, e não morrer pela observância dos mesmos.19 Isso significa que, à luz da Shoáh, textos bíblicos precisam ser examinados à luz de um dano potencial que possam causar (ou o dano real que têm causado). Os rábis cunharam o termo PiQUaH NéFeSh [cuidação de alma], referindo-se ao dever de preservar a vida, tomando precedência sobre o mandamento: simplesmente puseram que, quando a vida humana estiver em perigo, o texto bíblico precisa de re-interpretação.

O reconhecimento de que o texto bíblico pode ter mais que um determinado significado é significante para a interpretação judaica e cristã contemporâneas em particular e relações judaicas-cristãs em geral. Não está mais apropriado procurar para um único e unicamente correto sentido dum texto, mas antes está sendo essencial examinar várias interpretações diferentes, cada uma dentro do seu contexto próprio, cada uma merecendo consideração no seu direito próprio. A existência de relatividade exegética possa deixar o intérprete com tensão inconfortável, por causa da presença de várias interpretações surgindo duma passagem bíblica singular. A multidão de interpretações possíveis possa ser desconcertante para alguns, mas a sua existência ilustra a variedade de interpretações que possam ser aplicadas à Escritura. Ocasionalmente, até o texto bíblico contém ambigüidade inerente.

Considera as traduções de Jô 13,15:

  • Considera, Ele me abaterá, não tenho esperança (KSV)
  • Embora me abata, ainda vou confiar nEle (KJV)
A razão pela diferença entre RSV e KJV é o resultado duma variação nas versões lida e falada. A vocalização massorética (leitura falada) oferece que Jô tem esperança, enquanto o texto consonantal (o texto escrito) oferece a visão de que Jô não tem esperança nenhuma. A Mishnáh reconhece o significado ambíguo do texto bíblico, tendo reconhecido que ambas as traduções são possíveis: "a coisa está indecisa - será que confio nEle ou não confio?"20 A contradição é significativa como expressa a tensão de alguém que está arrebatado entre esperança e dúvida: a mesma tensão que habita nossa mente quando lemos a Bíblia hoje. Conforme André Neher, "Jó pronuncia duas palavras que significam simultaneamente esperança e desespero… Espero nEle, grita, mas também não espero nEle".21

Uma aproximação tal não oferece uma leitura fácil ou uma confortável da Escritura, porque deixa o leitor com tensão não resolvida e contradição. No entanto, provê um modo de entender o texto para aqueles que, como Fackenheim, estão lutando com o significado da Bíblia à luz da Shoáh. Pode ser aplicado igualmente ao ler Escritura violenta. A existência de ambigüidade pode capacitar cristãos e judeus perceberem que as interpretações singelas, óbvias e literais não seja o significado final do texto. A tensão que surge como resultado é útil porque, como a Bíblia e as interpretações dela, o encontro judaico-cristão está cheio de ambigüidade.

Técnicas para Manejar Textos Difíceis

Este ensaio mostrou que, embora tanto judeus como cristãos compartilham textos difíceis, cada um tem, dentro da sua própria história de interpretação bíblica, os meios pelos quais manejar tais textos. No entanto, alguns textos polêmicos são particulares para a Igreja.

O problema de polêmica no Novo Testamento provê um dos maiores desafios nas relações judaicas-cristãs. O problema está exagerado pelo fato de que Jesus era judeu que ensinou aos seus co-judeus, dos quais alguns seguiam o seu ensinamento, e outros não o seguiam. A maioria dos seus contemporâneos, naturalmente, nunca ouviram dele. Depois da sua morte, os seus seguidores judaicos, encorajados pela sua experiência da ressurreição - comumente chamada de evento de Cristo - argüiram para a validade do seu ensinamento como o próprio deles, contra os seus co-judeus que não tiveram sido persuadidos. Para complicar a posição ainda mais, os seguidores judaicos de Jesus argüiam entre si mesmos sobre as condições sob as quais gentílicos pudessem ser admitidos nesse movimento judaico novo. A isso, algumas das comunidades judaicas dentro do movimento de Jesus - com ou sem membros gentílicos - se encontraram, além disso, em desavenças com outros judeus sobre assuntos como a observância da Toráh e reivindicações sobre Jesus.

O Novo Testamento dá testemunho de tudo isso, e muitos dos textos ilustram os debates e argumentos que estavam tomando lugar. Essas disputas eram sérias, vigorosas e, muitas vezes, amargas. No entanto, o que não deve ser esquecido - mas o que pelo tempo tem sido muitas vezes esquecido completamente - é o fato de que os argumentos eram entre judeus, sobre um judeu ou sobre assuntos judaicos (mesmo quando se referiam a convertidos gentílicos!). O problema de polêmica está sendo, portanto, magnificado muito, quando lermos as passagens polêmicas como se fossem argumentos "cristãos" contra "os judeus". Para os ler nesse modo é os interpretar mal. É essa leitura má que resultou no ensino cristão de desdém. Enquanto não podemos negar que o Novo Testamento inclui muitos textos polêmicos, diferentes da relatividade exegética, há várias técnicas importantes para manejar tais textos.

O método mais importante é os contextualizar. Isso quer dizer considerar as implicações do fato de que a missão e o ministério de Jesus não podem ser entendidos senão no contexto do primeiro século do Judaísmo palestinense. Não é essencial enfatizar que os negócios de Jesus e dos seguidores deste são negócios judaicos, como mencionamos acima, mas que a Cristandade em parte compartilha as Escrituras dos judeus, e que o modo judaico de veneração influenciava pesadamente os modos cristãos de veneração.

A isso, é essencial ler o texto à luz de:

  • Declarações modernas sobre o relacionamento a judeus e ao Judaísmo como as várias declarações vaticanas. O Documento 1988 Lambeth Anglicano, intitulado Judeus, Cristãos, Moslins: o modo de diálogo, etc. Por exemplo, o comentário famoso de João Paulo II em 1880, "o povo da Aliança Antiga nunca revogada por Deus" possa ser citado ao longo de Mateus 23. A comparação de declarações pós-WWII [World War II = Segunda Guerra Mundial] seriam notáveis na interpretação de tais passagens.22 (Veja em www.jcrelations.net para uma seleção das declarações principais despachadas pelas Igrejas e a comunidade judaica.)
  • O relacionamento estreito entre Jesus e os fariseus. Por exemplo, era um fariseu que advertiu Jesus sobre a intenção de Herodes (Lc 13,1), Jesus ensinava e se associava com fariseus; muitos dos ensinamentos de Jesus têm paralela nos escritos rabínicos.
  • Passagens bíblicas mais positivas. Por exemplo, a gente possa comparar interpretações negativas associadas com versículos tais como "Ninguém vem ao Pai exceto por Mim" (João 14,6) ou "nem há qualquer outra salvação em nenhum outro, pois não há outro nome sob o céu dado entre os homens, pelo que devemos ser salvos" (At 4,12), com passagens tais como "Tenho outras ovelhas que não são deste aprisco" (João 10,16).
  • Há abuso por interpretações cristãs posteriores, mais notáveis na tradição de Adversus Iudaeos [Contra os Judeus (de São Agostinho)]. Os perigos de abuso, tais como as conseqüências nocivas de Mateus 25,27, devem ser enfatizadas.

Conclusão

Abraham Joshua Heschel conta a história dum grupo de alpinistas sem experiência. Sem guias, deram descuidadamente para dentro do sertão. Inesperadamente, uma saliência de rocha cedeu em baixo dos seus pés e caíram de ponta-cabeça num buraco sombrio. Na escuridão do buraco se recuperaram do seu choque, só para se encontrarem instalados num enxame de serpentes furiosas. Cada fenda chegou a ser viva com coisas dentadas, sibilantes. Por cada serpente que os homens desesperados mataram, dez outras pareciam atacar no lugar dela. Bastante estranhamente, um homem parecia estar ao lado da luta. Quando as vozes indignadas dos seus companheiros o repreenderam por não lutar, replicou: Se permanecermos aqui, seremos mortos antes das serpentes. Estou procurando para um caminho do buraco para todos nós.23

Heschel salienta que o matar de serpentes ia prover segurança por um momento breve, mas não para sempre. O matar de serpentes é também uma metáfora inadequada no ler a Bíblia e especialmente aqueles textos violentos compartilhados pelas nossas tradições religiosas. Um re-ler de sucesso dos textos mais provavelmente se alcança através de parceria do que em isolação. Os judeus e os cristãos compartilham de muitas das mesmas dificuldades textuais, mas também têm muitas das mesmas ferramentas dentro das suas tradições exegéticas pelas quais atacar esses problemas. A história do relacionamento judaico-cristão nos últimos 100 anos nos provê com uma lição de como possamos aprender da ajuda de cada outro.

Notas: Veja no fim do texto inglês.


Texto inglês.   Tradução: Pedro von Werden SJ, Rua Padre Remeter, 108, Barro Baú, 78.008-l50 Cuiabá, MT, BRASIL pv-werden@uol.com.br


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