Jewish-Christian Relations

Insights and Issues in the ongoing Jewish-Christian Dialogue

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Artigos | Fundamentais & Introduções (305)

Wengst, Klaus | 11.10.2003

Desde quando há Cristandade?

Klaus Wengst

Uma vez tendo posta a pergunta de desde quando há Cristandade, estranha-se sobre a “naturalidade” com a qual, com a vista ao Novo Testamento e do seu tempo, fala-se de “cristão”, dos “primeiros cristãos”, da “Cristandade original” ou da “Cristandade primitiva”. Ocasionalmente, ouve-se a frase: “Os primeiros cristãos eram judeus.” Mas essa é frase muito bicuda. Pois judeus eram de vez. Mas eram cristãos?

Com o quê é que a Cristandade começou?

A Cristandade se refere a Jesus de Nazaré. Mas não começou com ele. Jesus era judeu. Nasceu como judeu, vivia como judeu e morreu como judeu. Se estiver sendo indicado como fundador da Cristandade, será então um fundador o qual, durante toda a sua vida, pertencia a outra religião que aquela que dizem que teria fundado. A sua morte na cruz, com o motivo da sua execução indicado no sobrescrito “Rei dos Judeus”, mostra: O poder romano, na figura do prefeito Pôncio Pilatos, o fez executar como revolucionário judaico. Esse é fato, mesmo se os romanos teriam entendido a sua atuação erradamente. Os evangelhos apresentam Jesus como judeu, o qual vivia no contexto judaico, chegando a ter contato com pessoas não-judaicas só ocasionalmente. Mostram-no em parte em litígio, em parte em consenso, com outros grupos judaicos. Quem interpretar Jesus, como ele aparece nos Evangelhos, para fora do Judaísmo - ele teria transcendido o Judaísmo, superado-o ou rompido com ele - só pode fazer isso ignorando ou desprezando e mal interpretando as fontes judaicas. Também se tem espalhado vastamente isto: Jesus era judeu.

Páscoa e Pentecostes

Se, então, a Cristandade não começa com o Jesus terrestre, será que começa então com o testemunhado como ressuscitado e crido? Portanto, com a Páscoa? Ou, pelo menos - segundo a apresentação dos Atos dos Apóstolos - com Pentecostes? Mas tinha, então, Simão Pedro, quando, por uma visão, seja como for que ela seja interpretada, chegou à convicção de que Deus ressuscitou Jesus dos mortos, à opinião: Então, a partir de agora, sou, não mais um judeu, mas sim um cristão? Fazer a pergunta quer dizer a negar. Ele e os demais eram pessoas judaicas, as quais louvavam a Deus, não só porque fez o céu e a terra, porque eduziu Israel do Egito, mas sim também porque ressuscitou Jesus dos mortos, tomando Jesus pelo Messias. Que, nesse grupo, salientava-se “Os Doze”, aponta para o seu auto-entendimento de representar no tempo final - crido como agora começado - Israel. Significativo, sob esse aspecto, é também a colônia em Jerusalém, embora que muitos, principalmente os líderes, se tenham originado da Galiléia.

Até o começo da guerra judaica-romana, havia esse grupo crente no messias como grupo judaico entre outros em Jerusalém. Que estava sendo percebido como grupo judaico também por outros judeus mostra a notícia no historiador judaico Flavius Josephus. Descreve uma situação, depois de Festus, o procurador romano da província Judéia, morreu e antes de o seu sucessor Albinus tinha tomado posso do seu ofício (no ano de 62, segundo cômputos mais recentes dois anos antes). Houve um vácuo de poder de três meses. Disso se aproveitou um Sumo Sacerdote saduceu fogoso. Arrastou pessoas antipáticas ao Sanedrim, mandou os condenar à morte e apedrejar. Entre os matados, Josephus menciona um único pelo nome: “Tiago, o irmão de Jesus, do assim chamado Messias”. Continua relatando que aqueles que eram os mais meticulosos com as leis, com o que costumava qualificar os fariseus, protestaram no rei Agripa II, e no governador que estava chegando, contra esse comportamento do Sumo Sacerdote. Isso levou à destituição imediata do Sumo Sacerdote. Josephus, que escreve cerca 30 anos depois desse acontecimento, apresenta o assunto como disputa intra-judaica; e também dá a perceber que o grupo crente no messias tinha como severos adversários os Saduceus, não, porém, os Fariseus.

Estevão

Na Igreja, Estevão está sendo considerado o primeiro mártir cristão. Mas Estevão era “cristão”? Pertencia aos “Helenistas”, logo à judias e judeus em Jerusalém que falavam grego, que creram em Jesus como Messias. Como Lucas apresenta a coisa nos Atos dos Apóstolos 7 e 8, trata-se de disputas intra-judaicas. Judeus vão, não contra “cristãos”, mas sim contra outros judeus, estes que tinham a sua especialidade naquilo que consideravam Jesus como o Messias, tirando disso conseqüências que provocavam disputas violentas. A morte de Estevão está sendo descrita como justiça de linchar tumultuosa.

Paulo

Também Paulo não era, como judeu, “perseguidor de cristãos” e, como pregador do Evangelho de Jesus Cristo, não era “cristão”. Antes da sua experiência de vocação realizava castigos intra-sinagogais em outros judeus. A sua experiência de vocação, também nele, não o levou a pensar: Agora sou, não mais judeu, mas sim “cristão”. Paulo não usa esta palavra em lugar nenhum. Naturalmente, experimentou uma mudança, mas esta era mudança dum judeu farisaicamente determinado a um judeu crente no messias. Em todo o caso, Paulo nunca abandonou o seu ser judeu na sua própria consciência. Quando outros pregadores acentuavam o seu ser judeus, ele também o pode: “Hebreus são? Eu também. Israelitas são? Eu também. Descendentes de Abraão são? Eu também (2Cor 11,22). “É que também eu sou israelita, da descendência de Abraão, da tribo Benjamim” (Rm 11,1). Com Simão Pedro ele se resume: “Somos, por natureza, judeus e não pecadores de entre os povos” (Gl 2,15). A solidariedade com os seu patrícios que não crêem em Jesus expressa claramente (Rm 9,1-3), qualificando-os, nisso, como os seus irmãos - expressão que, além disso, usa somente pelas pessoas nas comunidades.

Começa a Cristandade com que pessoas dos povos se juntam?

Nos Atos dos Apóstolos 11,19, Lucas relata que aqueles, que se espalharam, depois da ação contra Estevão e dos apuros a seguir, até à Fenícia, Chipre e a Antioquia. Conclui o versículo fechando com: “em que a ninguém falaram a palavra além a judeus”. No versículo 20, porém continua: “Entre eles, porém, havia alguns homens de Chipre e cireneus; estes chegaram a Antioquia e falaram também aos de língua grega, anunciando Jesus como o Senhor.”

Como está imaginável mais adequadamente a situação de que judeus falantes grego anunciaram “Jesus como o Senhor” a um público de não-judeus falando grego? Lucas fala, neste lugar, pouco concretamente. Os que vieram de Jerusalém não se puseram na praça de Antioquia começando a falar aí. É que os homens que se originavam de Chipre e Cirene, eram judeus. O, para assim dizer, lugar natural de escala para judias e judeus quando chegando numa cidade que lhes era alheia, era a sinagoga. Ela representava, não um espaço cultural fechado, que teria sido aberta somente aos sábados, mas sim era o centro de administração e comunicação da comunidade judaica no lugar. Ao complexo sinagogal pertenciam também divisões para o alojamento de judias e judeus passantes. Para se orientar, numa cidade desconhecida, orientar-se sobre esta, para por enquanto encontrar alojamento nela, era, para judias e judeus o caminho próximo totalmente natural aquele à sinagoga.

Isso mostra também a outra exposição dos Atos dos Apóstolos sobre Paulo. Entrando numa cidade nova, vai sempre primeiro à sinagoga. Isso não é esquematismo de Lucas, mas entende-se por si mesmo no fundo de história social caracterizado. Também os homens crentes no messias de Chipre e da Cirenaica devem, tendo chegado na Antioquia, ter ido primeiro à sinagoga. Aí, devem ter comparecido também no Shabat; e de que o seu coração estava cheio, a boca transbordou. Anunciaram Jesus como O Messias já chegado e ressuscitado por Deus para ser Senhor; com isso, o fim dos tempos já teria sobrevindo, o que chegaria a ser completamente revelado em breve; e Deus encheria já agora com o seu espírito aqueles que se deixassem batizar no nome de Jesus. Tal anúncio pode ser que foi ainda apoiada por elementos carismáticos milagrosos.

Sua audiência não se compunha de judias e judeus somente. Nas comunidades judaicas do mundo mediterrâneo havia simpatizantes não-judaicos, os quais parcialmente - em graus diferentes - assumiam o modo de viver judaico, participando da vida judaica e compareceram antes de tudo, quanto possível, na reunião do Shabat. Nos Atos dos Apóstolos são qualificados como “veneradores de Deus” e “tementes de Deus”. Não são invenções de Lucas; existiam realmente, como as inscrições o provam.

Os “Veneradores de Deus” ao Redor das Sinagogas

De um lado, havia, no mundo antigo, atitude negativa ao Judaísmo, a qual pode ser resumida, no tempo helenista-romano, na repreensão de que os judeus mostrariam uma “inimizade contra estranhos e pessoas humanas dirigida contra o mundo civilizado inteiro (1 RGG, 4ª edição, 1, 557). Como um romano erudito, nobre via os judeus, pode-se ler em Tácito - confusão estranha de informações e desinformações. Menciono somente a taxação em princípio. Os costumes introduzidos por Moisés estariam “em contradição com os costumeiros no restante do mundo. Ali, seria nefasto nos judeus tudo o que é santo entre nós; de outro lado: neles está permitido o que nós consideramos horror” (hist. V 2-5). Como prova, alega que no Santuário estaria colocada a imagem benta dum burro (4,1). Finalizando nota: “O modo de vida dos judeus é insípido e sórdido” (5,5).

Em Juvenal, não aparece outra atitude referente ao Judaísmo. Mas na sua sátira 14 aparece, ao mesmo tempo, o outro lado: a atratividade do Judaísmo para partes da sociedade helenista-romana. Aí, está sendo dito num contexto o qual destaca a influência má de pais viciosos aos filhos que, então, chegam a ser ainda piores:

Alguns, que caíram na sorte de ter um pai que honra o Sábado, não odoram nada além das nuvens e da divindade do céu, crêem que da carne humana não se distingue aquela dum porco, da qual o pai se abstinha e logo fazem também circuncidar o seu prepúcio. Acostumados, porém, de menosprezar as leis romanas, aprendem observar a lei judaica exatamente e a temem, exatamente como Moisés lhes transmitiu em rolo segredo: não mostrar a ninguém os caminhos senão ao adepto do mesmo culto, conduzir somente os circuncidados à fonte procurada. Mas a culpa está no pai, o qual era ocioso no sétimo dia, não tocando nenhuma parte do negócio.

Aqui está, do outro lado, claramente percebida a diferença entre veneradores de Deus e prosélitos e como o um pode conduzir ao outro. O pai observa o Sábado e não come carne de porco; os filhos se fazem circuncidar e aprendem as leis judaicas.

Ao lado da inimizade aos judeus havia, então, o outro, a saber, que o Judaísmo, para partes da sociedade não-judaica, era atrativo. Era-o, antes de tudo, por dois fatores: do monoteísmo e da ética judaica de alto nível. Ambos se mostram também no texto de Juvenal. “Adoram nada senão as nuvens e a deidade no céu.” “As nuvens” são ou polêmica de Juvenal ou mal-entendido da perífrase de Deus com “céu”. A respeito da ética, mostra a nota sobre o estudo do direito judaico. Juvenal deixa quase ser necessário que os filhos chegam a ser prosélitos quando o pai era venerador de Deus. Isso deve ser acontecido, mas dificilmente era a regra. Havia, para os veneradores de Deus, também na segunda geração, boas razões para não se converter ao Judaísmo.

Pode-se, com razão, perguntar: Se, para essas pessoas, o Judaísmo era atrativo, porque, então, não se converteram? Essa possibilidade estava sempre aberta do lado judaico. A conversão completa era mais adequada para pessoas da camada baixa, que não eram socialmente não tão integradas e que, pela conversão, podiam levar vantagem do sistema social das comunidades judaicas, muito desenvolvidas para as situações antigas. Para mais abastecidos havia muitas barreiras para dar esse passo. No fim do citado de Juvenal sobre o pai culpado reza mais exatamente traduzido: “a quem cada dia sétimo era um pregiçoso e que (o sétimo dia) toca nenhuma parte da vida”. Imagine a comerciante que fecha a sua loja cada sétimo dia. Como vão reagir os seus fregueses? Imagine um artífice que manda no Shabat os seus operários para casa, e que não participa na reunião anual da corporação no restaurante do templo. Não vai ser deixado ao lado? Assim, era aconselhável, não dar esse passo final, mas permanecer no status de simpatizante, mantendo-se flexível também a respeito das exigências da sociedade não-judaica. Permaneciam, então, simpatizantes amáveis, sentavam juntos na segunda fila, ajustavam-se ao modo de viver judaico em alguns pontos, o que, certamente, podia ser feito em intensidade diferente, participavam na vida sinagogal, se possível especialmente na reunião no Sábado, subvencionavam a comunidade ocasionalmente com dinheiro e faziam valer - no caso de conflito ou quando por outro motivo estava no interesse da comunidade judaica - a sua influência na administração da cidade ou da administração da província romana.

Alguns desses aspetos se encontram na descrição do centurião Cornélio nos Atos dos Apóstolos 10,2: Era “piedoso e temente a Deus como toda a sua casa, fazia muitos benefícios ao povo (judaico) e orava continuamente a Deus”. Segundo o Evangelho de Lucas, anciãos judaicos pedem a Jesus curar o servo doente à morte dum centurião; sobre este disseram: “Ele o merece que lhe faças isso. Pois ama o nosso povo e fez construir a sinagoga para nós” (7,4s.).

Os “veneradores de Deus” chegam a ser endereçados do anúncio messiânico

Tais pessoas, então, faziam parte do público, quando os homens de Chipre e da Cirenaica faziam soar, na sinagoga de Antioquia, o anúncio messiânico em entusiasmo de espírito de tempo final. Tinham sucesso. Membros da comunidade sinagogal e pessoas dos simpatizantes não-judaicos admitiam o seu anúncio. Isso não deve ter acontecido sem disputa. Lucas está, neste lugar, como descreve o surgimento do primeiro agrupamento de entre judeus e não-judeus, tão pouco explícito que não menciona nem o lugar do anúncio, a sinagoga; e, assim, não conta aqui nada das disputas - provavelmente porque, no começo desse desenvolvimento, não pretende desenhar uma imagem de harmonia não turvada de conflito algum. Em lugares posteriores, na entrada de Paulo em sinagogas, descreve repetidamente que se chegou a ter disputas impetuosas. Uma parte, a menor, acredita no anúncio messiânico; a parte maior não o faz. Sobre as razões da não-aceitação, Lucas não diz nada. Devem ter sido, antes de tudo, que, com a vinda do messias, era ligado também o seu domínio messiânico e o estabelecimento do reino messiânico; duma transformação do mundo em todo, porém, não se sentia obviamente nada. Assim, chegava-se à briga na comunidade sinagogal; a parte menor formava um grupo próprio ao lado.

Como poderia ter sido diferente em Antioquia no começo? Nesse grupo, soprava um espírito novo que atravessava fronteiras e ligava um ao outro. Os membros não-judaicos não se encontravam mais somente na segunda linha como simpatizantes, mas estavam juntos de direito igual na primeira. “Aqui não há judeu ou grego; aqui não há escravo ou livre; aqui não há masculino e feminino!” escreve Paulo mais tarde na carta aos Gálatas (3,28), assentando, com isso, uma formulação que já lhe tinha sido transmitida. É a experiência do grupo que se formou primeiro em Antioquia.

Aqui nasce algo de novo. Um espírito que atravessa fronteiras alcança judeus e não-judeus, pessoas de nações diferentes e de camadas sociais opostas, homens e mulheres, ligando-os para um conjunto novo, no qual se encontram igual a igual. O auto-entendimento dos membros era, naturalmente, aquele de judias e judeus, os quais têm encontrado o seu messias. Mas o quê é o auto-entendimento dos membros não-judaicos? Crêem no Deus de Israel e o Seu messias Jesus. Mas, com isso, não se tornaram judaicos, mas ficavam pessoas dos povos. Não são, porém, somente hospedes bem-vindos e bem-recebidos na comunidade judaica, mas vivem com direitos iguais com judias e judeus juntos em um mesmo grupo. As veneradoras e veneradores de Deus formavam um conjunto de endereçados otimamente preparados para o anúncio messiânico no mundo não-judaico. O que o Judaísmo fazia atrativo para eles, o monoteísmo e a ética, está dado aqui igualmente. Aquilo que lhes impedia a igualdade de direitos cai aqui.

O grupo formado de judeus e não-judeus ainda não é o começo da Cristandade

A constituição dum grupo de judeus e não-judeus é, ainda não o começo da Cristandade, mas somente uma condição prévia para ela. Que aqui não jaz o começo da Cristandade, mostra a conexão naturalmente conservada com a sinagoga. Para isso, sejam mencionados três exemplos:

  1. Como já mencionado, Paulo procurava continuadamente as sinagogas. Em conformidade com isso, era também sujeito a medidas de punição sinagogais e as experimentou, segundo 2Cor 11,24, cinco vezes os quarenta menos um. Isso significa que a sua atuação foi considerada problema intra-sinagogal também por representantes das comunidades judaicas.
  2. Segundo At 19,9, pela atuação de Paulo, chega a haver disputas intra-sinagogais, em conseqüência das quais ele se retira da sinagoga e atua na “escola de Tiranos”. Essa retirada não é a fundação duma “associação” nova, mas significa que Paulo renuncia a propagar o “caminho” novo na publicidade sinagogal. Como endereçados da sua atuação na “escola do Tiranos” aparecem os mesmos que na sinagoga, a saber em primeiro lugar judeus e em segundo “gregos”, com o que Lucas, em tais contextos, entende “tementes a Deus”. Paulo move, então, na “escola de Tiranos” um bêt midrash, uma casa de estudo judaica.
  3. Segundo At 18,2, Paulo encontra, em Corinto, o casal judaico Priscila e Áquila, natural de Ponto, mas tinha chegado em Corinto pouco tempo antes de Paulo. Como causa é indicada que o imperador Cláudio expulsou os judeus de Roma. Sobre isso também Suetonio relata: “Os judeus, que se deixavam continuamente instigar por Chrestus a distúrbios, expulsou de Roma” (Vidas de Imperadores, Cláudio 25,4). Esses distúrbios devem ter sido causados pelo anúncio de Jesus como messias (christós; chegado a ser “Chrestus” em latim) na sinagoga de Roma. Lucas não conta que Priscila e Áquila teriam chegado à fé em Jesus como messias só através de Paulo; tinham-no já em Roma. Pelo menos dois anos mais tarde se mudam para Éfeso. Aí, encontram um judeu alexandrino, Apolo, que também é crente de messias, mas mostra outro cunho. Onde o encontram? Na sinagoga. Apesar das disputas experimentadas em Corinto, voltam, então, a se deter, em Éfeso, no âmbito da sinagoga, com naturalidade.
Os grupos crentes no messias: Judaísmo por preço de entrada baixo

Do ponto de vista da maioria judaica nas sinagogas da diáspora, o surgimento dos grupos crentes de messias devia ter sido considerado, no seu contexto, com incompreensibilidade, mas também com inquietação. Ouçamos como um membro da direção judaica da comunidade de Éfeso - fingida, mas inteiramente provavelmente - fala!

Tira-me o sono o que está acontecendo na nossa comunidade. A gente já precisa ter receio que a febre messiânica, como uma doença contagiosa - Deus nos livre - espalhe-se cada vez mais. Essa fala do messias, essa agitação, não fica escondida dos agentes romanos; fará a administração da Província desconfiada e nos trará somente aborrecimento. E em geral, um Jesus enforcado faz vinte anos seria o messias! Simplesmente ridículo. E se o seria: Onde está o reino messiânico? O quê mudou então? É simplesmente sem sentido e nocivo, aquilo que está sendo trazido para dentro das nossas comunidades. Especialmente os nossos amigos do mundo dos povos, os veneradores de Deus, são os primeiros que se deixam enganar. E, quando se tenta criar relacionamentos claros, distanciam-se de nós, fazendo reuniões próprias em casas particulares com todos os messianicamente infectados. Para isso, então gastam as suas doações, as quais, como de costume, teríamos recebido nós. O que lhes oferecem os pregadores messiânicos é Judaísmo por preço de entrada baixo. Isso não tem nem pé nem cabeça. Tal coisa não é que possa agradar ao Santo, bendito seja Ele. Se quiserem pertencer totalmente, que façam coisa inteira e se convertam para nós, como é próprio, com todas as suas conseqüências. E ainda: A nossa gente deixa de ser judeus genuínos quando estão junto com eles nas casas deles. Não se importam, então, com de onde vêm as coisas que se tem ali para comer.

Duma tal visão compartilhavam também judeus crentes de Messias na terra de Israel, quando chegaram a saber como se procedia em Antioquia. Lucas conta em At 15,1: E vieram alguns descendo da Judéia (a Antioquia) ensinando aos irmãos: Se sereis circuncidados conforme o rito de Moisés, não podereis ser salvos.” Essas pessoas representavam a concepção judaica tradicional em vista à relação entre o povo de Deus e dos povos também a respeito da salvação messiânica já trazida por Jesus e em sua plenitude esperada em breve. Pertença completa ao Deus de Israel e participação na salvação outorgada a Israel há, para não-judeus, só através de integração em Israel. Logo têm de - para homens pela circuncisão e banho de imersão, para mulheres por um banho de imersão somente - chegar a ser prosélitas e prosélitos. Através disso, são validamente integrados no povo de Israel com todos os direitos e deveres. Correspondentemente, Lucas, na sua apresentação do convento dos Apóstolos, em cujo começo “vieram alguns do grupo dos Fariseus que tinham chegado à fé (em Jesus), deixa estes dizer: “Deve-se circuncidar eles (os não-judeus que vieram à fé messiânica) e lhes mandar a observar a Toráh de Moisés” (At 15,5). Também isso mostra mais uma vez: Na consciência dos participantes tratava-se de discussões intrajudaicas.

O convento dos Apóstolos em Jerusalém

Essa disputa leva ao assim chamado convento dos Apóstolos em Jerusalém, no qual negociavam, no lado de Jerusalém, antes de todos, Tiago, Simão Pedro e João, no lado da comunidade de Antioquia Paulo e Barnabé. Paulo menciona, na carta aos Gálatas, dois resultados: A ele não foi nada imposto, e isso quer dizer a partir do contexto da carta: Não-judeus advindos não precisam ser circuncidados. Foi, então, reconhecido que através do seu anúncio, o mundo não-judaico está sendo chamado ao Deus de Israel sem se deixar incorporar no povo de Israel. As autoridades de Jerusalém aceitam que as pessoas que advinham de entre os povos eram membros plenamente válidos da comunidade relacionada a Cristo, sem precisar tornar-se judias e judeus. A fim de chegar a esse reconhecimento, deve ter sido necessária uma argumentação teológica convincente. Paulo aponta, em Gl 2,3, ao grego Tito, a quem trouxera, para assim dizer, como objeto de demonstração a Jerusalém. Este se devia aí mostrado como pessoa dotada de espírito. É que era isso a convicção básica comum de todos crentes messiânicos que Deus agora escatologicamente contribui o seu espírito a todos aqueles que admitiam o anuncio de Cristo. E esse espírito escolhia também pessoas de entre os povos, como a narrativa do centurião Cornélio o descreve plasticamente (At 10,45-47), como o fora experimentado no nascimento da comunidade de Antioquia e como Paulo e Barnabé o presenciavam na sua atuação. Se, porém, Deus Mesmo assim agia, dotava com o Seu espírito pessoas de entre os povos, logo as confiscava para Si, as “santificava”, podia-se, então, contrariar a Ele, achando que essas pessoas estariam precisando, para entrar com Ele em relação de valor pleno, o meio da circuncisão pela integração em Israel? Essa visão podia ser ligada com textos bíblicos da vinda escatológica dos povos a Sião. Provêem, para os povos, o aprender da Toráh, não, porém, a circuncisão (cf. Is 2,2-5; Mq 4,1-5). Em At 11,17, Lucas deixa Simão Pedro perante os seus colegas críticos de Jerusalém dizer: “Se, então, Deus deu àqueles que vieram à fé em Jesus Cristo como Senhor o mesmo dom como também a nós, quem sou eu que poderia impedir a Deus?” Isso, obviamente, tranqüilizou os de Jerusalém.

Segundo Gl 2,10, Paulo se obrigou a coletar, nos grupos crentes no messias recém nascidos e ainda nascentes, uma coleta para a comunidade em Jerusalém. Nisso não se tratava meramente de caridade. Essa coleta é expressão material para o advento dos povos ao Deus de Israel. O que esperavam as promissões bíblicas para o tempo final, que os povos trouxessem as suas dádivas a Jerusalém (Is 60,3.5), é isso que começa a se realizar já agora, ganhando expressão manifesta nessa coleta.

Com as decisões do convento dos Apóstolos, porém, não estavam resolvidos todos os problemas, como se mostrou logo. Como devia ser regulamentada a convivência nas comunidades compostas de judeus e não-judeus, sob condições judaicas ou não-judaicas? Já vimos: Nesse tempo de começo, judias e judeus, em Antioquia e alhures, pospuseram a vida da sua identidade no estar juntos com pessoas não-judaicas. Quando Simão Pedro veio a Antioquia, comportava-se primeiro exatamente assim. Em conseqüência duma intervenção de Tiago, porém, retrai-se com todos demais judeus. Só Paulo não o faz. Chega-se a uma briga veemente, que não é apaziguada. Ouçamos uma conversa fingida, mas não improvável de modo algum, a qual Tiago teve em Jerusalém com um - digamos - Yehuda e a qual tinha como conseqüência a sua intervenção em Antioquia:

Yehuda: Tiago, Tiago, desde Çukôt correm boatos em Jerusalém de que a nossa gente em Antioquia prega a apostasia dos mandamentos que Moisés nos deu e também eles mesmos não as observavam. Aqui em Jerusalém e na terra de Israel observaríamos os mandamentos, mas, mal estivéssemos fora da terra, os esqueceríamos. Aí se veria, aonde essa extravagância messiânica conduzisse. De Simão Pedro até se diz que teria comido carne de porco em Antioquia.
Tiago: É que acreditas isso?
Yehuda: Não sei. Naturalmente é tudo isso fortemente exagerado. Mas, infelizmente, há alguma coisa. Informei-me com aqueles da nossa gente que já fizeram grandes viagens. Segundo esses não é assim de modo nenhum que as nossas irmãs e irmãos não cumpririam os mandamentos que Moisés nos deu. Mas quando, nas suas reuniões com as nossas irmãs e irmãos de entre os povos estão juntos nas casas destes, parece que esquecem o seu Judaísmo. Então, não perguntam o quê chega na mesa; então tudo lhes é igual. Fomos transigentes demais na conferência de então. Teríamos de ter exigido a circuncisão dos não-judeus. Então dominariam situações claras; então se teria convivido judaicamente, como se faz. Assim, porém, resultou uma zona cinzenta; e agora se vê o que resulta com isso. Quando se der às pessoas dos povos o dedo miúdo, tomam a mão inteira. E a nossa reputação nos nossos patrícios aqui em Jerusalém não está indo bem.
Tiago: Não creio que tens razão. Era tão convincente o que Paulo e Barnabé expuseram aqui. E lembra-te daquele grego Tito, com que força cheia de espírito ele louvou a Deus. Não, não podemos voltar atrás da conferência. É que a pergunta é: Como judeus e pessoas dos povos convivem? Porque não nos atamos simplesmente na escritura? Sobre isso já Moisés escreveu no seu terceiro livro. Aí, ele diz o que estrangeiros que vivem na terra de Israel devem observar, para que possamos conviver com eles. Porque não devem observar isso também aqueles que agora, através do Messias Jesus, juntam-se a isso de entre os povos? Então, as nossas irmãs e irmãos podem também conviver com eles judaicamente. Logo: Não comam carne que vem dos templos dos ídolos, nenhum sangue e nenhuma carne de animais afogados.
Yehuda: Esqueceste, Tiago, alguma coisa. Logo a seguir, também casamentos entre parentes próximos e outras aberrações sexuais. Só depois disso reza retrospectivamente: “Assim observai as Minhas leis e as Minhas sentenças e não fazei todos esses horrores, o patrício e o estrangeiro que mora entre vós.
Tiago: Sim, assim deve valer - e isso queremos escrever a Antioquia - que às nossas irmãs e irmãos de entre os povos não seja imposto mais uma carga que essas coisas necessárias, a saber, de se abster da carne de sacrifícios aos ídolos, de sangue, de afogado e das relações sexuais contra as determinações da Toráh.

A convivência sob condições judaicas enão-judaicas

Essa conversa é uma ficção. Mas de que se tratava com ela, não era ficção. O resultado dessa conversa - chama-se de o “Decreto dos Apóstolos” - está em At 15,28s. Esse tinha e foi praticado ao longo. Está bem pensável que desencadeou a briga entre Paulo e Pedro em Antioquia. As exigências nele estabelecidas eram, não “condições de salvação”, mas sim proposta pragmática, a convivência sob condições judaicas - e não, como até agora, sob condições não-judaicas. Essa argumentação era tão convincente que todas as judias e judeus em Antioquia abandonavam a prática que praticaram até agora. Menos Paulo. Combatera decididamente contra que pessoas de entre os povos devessem observar mandamentos os quais formavam a especialidade de Israel; e isso virou a discussão para um um-com-o-outro pragmático tanto para assunto de princípios que um consenso era impossível. Nisso, não se pronunciava, porém, de jeito nenhum, em princípio contra a lei, contra a Toráh. Segundo Rm 8,3s., a finalidade do agir de Deus na missão de Jesus “que a justificação da Toráh seja cumprida entre nós, que conduzimos a vida, não segundo a carne, mas sim segundo o espírito”. E, como depois dele e Jesus antes dele, pode resumir a Toráh no mandamento de amor.

A seguir - até pelo menos para dentro do segundo século - havia, então, a respeito da convivência de judeus e não-judeus nas comunidades crentes messiânicas duas opções, de realiza-la sob condições ou judaicas ou não-judaicas. Na segunda opção jaz a condição decisiva para uma identidade própria, que se manifestou mais tarde, no vis-à-vis e em contraste ao Judaísmo.

Começa a Cristandade, quando os crentes no messias foram chamados de “cristãos”?

Em At 11,26, Lucas nota: “Em Antioquia, qualificou-se os discípulos, pela primeira vez, como hristianói (cristãs e cristãos).” Quando aconteceu isso fica indeterminado. Que já era naquele tempo, do qual Lucas conta no contexto, quando Barnabé foi buscar Paulo a Antioquia, é improvável. O que está claro, é que essa denominação foi dada de fora; como autodenominação encontram-se aqui “os discípulos”. Isso caracteriza as pessoas nas comunidades crentes no messias conforme o seu próprio auto-entendimento, de que são discípulas e discípulos de Jesus, que, para assim dizer, vão à escola de Jesus.

A formação verbal grega hristianói pode ser explicada a partir de analogias latinas. Aí ocorre a ligação a partir do nome dum homem com a desinência -iáni com freqüência extraordinária, designando sempre os partidários políticos dum homem. A designação “cristianos” (“cristãos”), então, deve ter sido formada pela administração provincial de Antioquia. No fundo, há o empenho romano de ter na mão tudo o que se reunia associativamente - pela preocupação de que se poderiam desenvolver distúrbios e revoltas. Agora se observava reuniões de judeus e veneradores de Deus fora das sinagogas em casas particulares, as quais se referiam a um “Cristo”. Assim, chamaram-los “cristianos”. A definição de fora existe antes da definição de dentro.

Essa denominação alheia ocorre, nos Atos dos Apóstolos, somente mais uma vez, igualmente da boca dum forasteiro e não como autodenominação (At 26,28). Isso exclui que nos contextos, nos quais Lucas se deteve, já era autodenominação. Ela ocorre, além disso, também em todo restante do Novo Testamento, somente uma só vez ainda, a saber, em 1Pd 4,16. Aí se pode perceber como a denominação alheia se torna autodenominação. Os endereçados da carta estão sendo exortados no versículo 15, que, no caso de acusações, o acusado não sofra por ser assassino, ladrão, malfeitor ou delator. O qual, porém, - assim o versículo 16 - for acusado “como cristão”, não se envergonhe disso, mas louve a Deus por ter esse nome. Por causado seu modo de viver diferindo-se da generalidade, porque não acompanhavam muita coisa na vida geral, o que era natural para a sociedade majoritária, os crentes no messias eram julgados e imputados de serem capazes de todo o mal imaginável. No processo, porém, nada disso se mostre como verdadeiro, além de que sejam “cristãos”. Assim, no contexto martirológico, uma denominação alheia chega a ser autodenominação. Mas isso ainda não constitui o começo da Cristandade.

Viver judaicamente ou viver cristãmente?

Em escritos fora do Novo Testamento do primeiro terço de século 2 fica claro, como uma identidade cristã própria se forma, que determinados ritos estão sendo formados num contraste exclusivo ao Judaísmo.

Jejuar

Na ordem eclesial conservada mais antiga, a “Doutrina dos Apóstolos” está sendo ordenado em 8,1, que a prática de jejum não seja praticada nos mesmos dias nos quais “os hipócritas” jejuam: “Os vossos dias festivos não sejam comuns com os hipócritas. Estes, porém, jejuam na segunda e quinta feiras, vós, porém deveis jejuar na quarta e sexta feiras.” A segunda e a sexta feiras são os dias de jejum judaicos. Se, nesses dias, não se pode jejuar junto com “os hipócritas”, então, com isso, os judeus estão sendo qualificados, em bloco, como hipócritas.

Oração

Logo a seguir, essa “Doutrina dos Apóstolos” insiste numa prática conscientemente distinta de oração: “Também orai, não como os hipócritas, mas assim como o Senhor o mandou no Seu Evangelho, assim orai!” 8,2). A seguir, cita-se o Pai Nosso, acrescentando a isso a exortação: “Três vezes ao dia orai assim!” (8,3). Os judeus rezam três vezes ao dia a Oração dos Dezoito. Não deve ser menos - como também os dias de jejum não deviam ser menos. Mas aquilo que diferencia se exprime agora numa oração outra. Uma certa ironia jaz naquilo que, contra a Oração dos Dezoito, agora o, igualmente judaico, Pai Nosso deve marcar o cristão distinto.

Celebração do Domingo

A origem da celebração do Domingo jaz no escuro. Como o Dia da Ressurreição de Jesus, o primeiro dia da semana, certamente tinha importância já antes. Isso, porém, não o deixou, de modo nenhum, entrar em concorrência com o Shabat. Mesmo na “Doutrina dos Apóstolos” não está sendo explicitamente oposto ao Shabat. Em 14,1 se diz meramente: “Naquele dia do Senhor vos reuni, parti o pão e agradecei, confessando a isso as vossas transgressões, para que a vossa oferta seja pura!” Em Inácio de Antioquia, no entanto, na carta aos magnésios (9,1) a celebração do Shabat e a vida conforme o Dia do Senhor estão sendo postas em contraposição. Isso mesmo acontece, igualmente, na carta de Barnabé (15,8s.).

Cada um dos pontos aqui mencionados pode parecer como não muito importante. Mas, na sua soma, evidenciam que se trata de ações as quais romperam a identidade judaica. Como membros duma comunidade, na qual isso vale, judias e judeus teriam sido obrigados a praticar a sua piedade acentuadamente de modo antijudaico. Isso, porém, quer dizer: Uma comunidade tal, a qual ganha a sua identidade precisamente em antítese ao Judaísmo, só pode ser não-judaica - não se importando quantas judias e judeus nascidos haja nela.

A identidade cristã em contraste ao Judaísmo

Inácio de Antioquia, o qual já fora mencionado precisamente com o seu opor o “Dia do Senhor” contra o Shabat, entendeu completamente em geral “viver conforme a Cristandade” em oposição a “viver judaicamente” (Magnésios 10,1.3). Isso, já liga com um modelo de substituição do Judaísmo à Cristandade: “A Cristandade não creu no Judaísmo, mas sim o Judaísmo na Cristandade, na qual cada língua que veio à fé foi unida” (ib.).

A exortação de deixar aquilo que pertence ao velho - a saber, ao Judaísmo - formula precisamente na imitação do costume do Peçah do afastamento do fermento: “Afastai, então o fermento mau para o lado, aquele que chegou a ser velho e amargo, vertendo-vos ao fermento novo, quer dizer a Jesus Cristo” (10,2; cf. Filadelfios 6,1). Inácio oferece, nesses lugares, a mais antiga ocorrência do conceito de “Cristandade”, que nos foi transmitida. Ele aparece, então, primeiro onde a comunidade crente de messias se define como anti-judaica, tornando-se assim Igreja dos povos. Correspondentemente, o conceito de “Cristandade” se encontra aqui também imediatamente como formação de contraste ao “Judaísmo”.

No autor da carta de Barnabé, o motivo empurrador da delimitação se faz percebível num lugar, quando não quer que os cristãos apareçam “como tais que se acrescentaram posteriormente” (3,6). Ter-se acrescentado só posteriormente passa obviamente como mácula.

As cartas do Inácio e a carta de Barnabé deixam perceber que, na época desses ainda havia crentes de messias - também não-judeus crente de messias - que viviam “judaicamente”. Isso recusam veementemente. O que desejam ainda não é praxe comum, mas a tendência vai para aí. Ainda se mostram da questão não resolvida no 1º século como esta se manifestou na briga em Antioquia. Mas Paulo, o qual, para a vida comum de judeus crentes no messias e não-judeus nas comunidades defendera a opção de vida não-judaica estava, nisso, cônscio da ligação ao Judaísmo. Para ele, a questão: Judaísmo ou Cristandade? Estava fora do imaginável. Isso era agora diferente. Porquê? Suspeito: simplesmente por causa do sucesso do modelo paulino. Os crentes no messias de entre os povos aumentaram em número cada vez mais, tornando-se, com isso, dominantes. Praxe religiosa judaica estava sendo cada vez menos experimentada e, assim, sentida como estranha. Parece-me que a formação de ritos religiosos próprios em delimitação ao Judaísmo era, para ganhar uma identidade própria, mais importante que a cristologia. Também esta jogava certamente um papel, antes de tudo no tempo depois 70, menos antes, como o exemplo do grupo crente de messias em Jerusalém mostra. No tempo depois 70, quando o Judaísmo, depois da perda do Templo se constituía de novo e, para sobreviver, procurava integração larga, não se podendo permitir desvios agravantes, a ligação exclusiva ao Messias Jesus era separativa. Assim, os crentes no messias foram mais e mais considerados e tratados como heréticos. Mas mais decisiva era a formação de identidade delimitando do Judaísmo na realização de ritos determinados.

O defeito no nascimento da Cristandade

Se, então, seria assim - e os fenômenos observados denotam que é assim - que “o nascimento da Cristandade” seria indicado pelo primeiro nos transmitido uso do conceito “Cristandade” em Inácio de Antioquia, então a Cristandade teria um defeito no nascimento - a saber, o de ser antijudaica. E assim é que ela se portava de fato por séculos. A partir daí, parece como se trataria aqui dum defeito de nascimento, o qual é inalterável, já é que defeitos no nascimento - mesmo se o forem - são difícil e raramente remediados.

Esse defeito no nascimento não poderia de fato ser remediado, se a Igreja tivesse continuada na direção da carta de Barnabé, a saber, desligando a Bíblia judaica, também para o tempo antes de Cristo, radicalmente do povo judaico, ou se até, como Marcião, teria rejeitado essa Bíblia e o Deus nela testemunhado. Isso, porém não fez, mas sim ficou com ela como base escritural canônica própria. E ela tem, com a segunda parte do seu cânon, o Novo Testamento, uma coleção de escritos, os quais - se talvez não todos, pelo menos a maioria deles - foram escritos no tempo antes do desligamento do Judaísmo e, portanto, no contexto deste; fazem parte do mundo judaico. A Igreja de somente-dos-povos, então, está sendo posta em questão a partir daquilo que ela sabe ter ela mesma afirmado para si como cânon.

Com as suas bases escriturais, a Igreja está remetida a Israel como à sua raiz, ficando relacionada a ele. Segundo o Novo Testamento, a comunidade crente no messias é uma “de entre os judeus e de pessoas de entre os povos”. Ela era isso, naturalmente, também para Paulo. A sua opção, de realizar a convivência sob condições não-judaicas, levou, por muito tempo, ao que não continuou sendo isso. Ganho e perda podem ser clarificados por um jogo de idéias: O quê teria havido se, por muito tempo, a opção do Decreto do Apostólico se teria imposto? Então, a Igreja, no que se refere ao seu crescimento quantitativo, não teria sido tão bem sucedida; e, provavelmente, não estaríamos sentados hoje aqui. De outro lado, vida judaica, na forma de judias e judeus, os quais viviam o seu Judaísmo com a maioria do seu povo, teria sido presente nesta comunidade. Uma comunidade tal nunca teria podido tornar-se antijudaica, nunca teria podido determinar a sua identidade em contraste ao Judaísmo. O antijudaismo é o preço do sucesso. Se, então, não há mais vida judaica na Igreja, como, então, pode o relacionamento fundamental dela a Israel ser formado e expresso? Quem somos nós como Igreja de Jesus Cristo em face de Israel?

A Igreja de entre os povos passou, por séculos, poderosamente por cima desse problema, afirmando-se a si mesma como “o Israel verdadeiro”. Isso tinha conseqüências más para o Judaísmo que continuava existindo. Depois de Auschwitz, a Igreja não pretende mais viver no excesso antijudaico. Mas isso, por meu ver, vai conseguir duradouramente, se for disposta a perceber e confessar o seu defeito de que é, de fato, somente Igreja de entre os povos. Não pode realizar o seu novo relacionamento a Israel como a raiz de outra maneira, senão procurando uma relação nova ao Judaísmo fora de si, tratando as irmãs e irmãos de Jesus assim que isso não lhes vá a detrimento.

O lugar, o qual o autor da carta de Barnabé recusou tão enfaticamente, precisamos, por meu ver, aceitar como toda a modéstia e gratidão: ter chegado posteriormente. As cristãs e cristãos da Igreja de entre os povos o podem aceitar e afirmar de se terem juntado posteriormente ao Deus único, ao Deus de Israel, que se deixam ser convidados por Paulo: “Alegrai-vos, vós povos, com o Seu povo!” (Rm 15,10).


Palestra proferida no Dia Eclesial Ecumênico 2003 em Berlim.
INDICAÇÃO DE FONTE: Begegnungen. Zeitschrift für Kirche und Judentum, nº 3, 2003.

Texto alemão. Tradução: Pedro von Werden SJtop of page

 


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