Crítica da Modernidade a partir das fontes do JudaísmoReunião: "A herança judaica da Europa - à crise da cultura no campo de tensão entre religião e modernidade"Os relacionamentos entre pensamento judaico e história ocidental do espírito, entre Judaísmo e Cristandade, entre Europa e a comunidades judaicas na Europa e Israel - esses relacionamentos foram até agora tanto discutidos quanto ficaram precários. Um discurso a respeito continua a levantar perguntas, tensões e mal-entendidos, que testemunham que a “herança judaica da Europa” até agora não foi considerada adequadamente. E as controversas recentes no conexo com os acontecimentos em Israel mostraram novamente que existe alta demanda em diferenciação e esclarecimento objetivo, a fim de fazer claramente frente a combates de retirada ou à instrumentalização de táticas eleitorais. Trata-se de entender o Judaísmo como parte integrante e essencial da Europa e de procurar em comum soluções para os conflitos na Europa, bem como no Próximo Oriente.… Que uma tal discussão da modernidade ocidental, no entanto, tem de se dirigir, não somente ao Judaísmo e à Cristandade, mas igualmente também ao Islame, era incontroverso, podia, no entanto, no quadro desta reunião não ser tratado senão em referências, por exemplo em referência à filosofia da Idade Média ou então a respeito dos perigos dum fundamentalismo religioso. Forma cultural ou territorial de vida?A reunião foi aberta pela professora Drª Eveline Goodman-Thau à noite do 27 de junho no Centro Judaico de Berlim. Com referência à atmosfera prenhe de história desse lugar, lembrou que a história judaica da Europa deveria voltar a ser “história de todos nós”, para chegar a ter a consciência das raízes e caminhos comuns tanto na retrospectiva histórica como perante os desafios do presente e do futuro como herança e missão.Na palestra inaugural, o professor Micha Brumlik (Francoforte sobre o Meno) depois tematizou visão e realidade do Sionismo, formulando no decurso a seguir da reunião a tese dum pós-sionismo atual, tese essa à qual voltaram várias vezes no decorrer da reunião. No recurso ao “Der Stern der Erlösung” [A Estrela da Redenção] de Franz Rosenzweig remeteu às aporias do Sionismo como identidade ligada a uma terra, em contraposição à identidade do “povo eterno” extra-histórica, e ancorada somente na liturgia, propagada por Rosenzweig. Embora a recaída na história, resultando da Shoáh, tivesse urgido ao Judaísmo aspirar um “fim da angústia” num Estado de Israel, não deixaria de ser necessário perguntar se a identidade judaica não seria, finalmente, antes a profissão a uma forma cultural, e menos a uma forma de vida territorial. Nisso, a “terra de Israel”, como dum “penhor da fidelidade de Deus”, encontrar-se-ia, não - substancialmente - num estado, mas antes - culturalmente - p. ex. num regresso para dentro da língua, o hebraico. Por fim, o povo judaico teria sido sempre “estrangeiro” e “forasteiro”, sendo a “Terra Santa” a cifra para o anseio de redenção das pessoas. Judaísmo, assim Brumlik finalizou a sua palestra, significaria, não Sionismo, mas sim um sistema de sinais e interpretações cultural e historicamente lotado, perante o qual seria para discutir hoje até que ponto se pudesse obter uma nova forma de vida - ou se, depois da territorial, agora ameaçasse uma diáspora espiritual, respectivamente interna. Os três dias seguintes da reunião se dedicaram então a diversos pontos de gravidade do assunto superior de “religião e cultura”. O primeiro bloco de palestras estava posto sob o tema de “diálogo das culturas no contexto de religião e filosofia”, sendo iniciado pelo professor Dr. Karl-Erich Grözinger (Potsdam). Na sua exposição, “língua comum e pensar comum das culturas religiosas da Idade Média - motivo para esperança ou ilusão?”, esboçou o dispersar da hermenêutica rabínica e do pensar cristão, bem como o reencontro dos dois a partir do fim do século 9, na base duma nova confrontação com pensamento grego. Diante desse plano de fundo ilustrou, referindo-se a Saadja Gaon, Abraham ibn David e Maimônides, a tentativa de mediação da tradição judaica e filosofia grega, mas também o insistir no valor da tradição, profecia e revelação no Judaísmo. Essas explicações conduziram, finalmente, à tese otimista de que exatamente situações de crise teriam sempre reunido as três religiões monoteístas, urgindo-os para “reflexão renovada da própria particularidade”. A palestra seguinte, do professor Dr. Wilhelm Schmidt-Biggemann (Berlim) dedicou-se à brisante questão de “Qabaláh cristã. Concepção de tolerância ou tentativa de ingerir?”, na qual foram elucidadas especialmente a interpretação cristã-escatológica do Antigo Testamento e da Qabaláh judaica da parte de autores cristãos como Dionísio Areopagita e Johannes Reuchlin. Indicando a decidida interpretação cristológica, trinitária e soteriológica de fontes judaicas, Schmidt-Biggemann finalmente questionou se, na Qabaláh Cristã, trata-se duma concepção não-ingeridora de tolerância, a qual - com aconteceu não raramente - possa passar por prova dum “diálogo” de Judaísmo e Cristandade na Idade Média. A terceira contribuição, do professor Dr. Klaus Davidowicz (Viena) ocupa-se com o complexo temático de “mística, messianismo e modernidade”, o qual expôs nos exemplos do líder carismático judaico Jakob Frank e dos seguidores deste. “Mundos-Palavra” ou “Caminhos-Sentido”Sob a seguinte rubrica “tradição - identidade - modernidade”, o professor Dr. Christoph Schulte (Potsdam) apresentou “Iluminismo - aculturação - ortodoxia”, para discutir mais pormenorizadamente o programa da “Hasqaláh”. Antes de tudo, enfatizou nisso que Iluminismo - no sentido judaico da palavra - significaria, não um Iluminismo da religião, mas antes um Iluminismo na religião, no qual esta fica fiel à sua tradição crítica-anamnesicamente. Também, distanciou-se dum entendimento da Hasqaláh como assimilação, introduzindo, no lugar disso, o conceito da “aculturação” como concepção que inclui tanto perdas como ganhos em identidade e liberdade.A isso se referiu a contribuição programática da professora Drª. Eveline Goodman-Thau sob o título “saber e formação - filosofia judaica moderna como crítica de cultura” para, remetendo a Franz Rosenzweig e Hermann Cohen, esboçar uma “filosofia de existência das fontes do Judaísmo” crítica de historismo e cultura. Como ponto determinante dum “Novo Pensar”, focalizou o “ponto de interseção de história e biografia, pensar e existência”, este que tenta certificar-se da modernidade criticamente renovando, em vez de despedir, as tradições desta a favor dum entusiasmo de progresso ou então dum fim da história. Aos “mundos-palavra” da pós-modernidade, opôs os “caminhos-sentido” do pensar ocidental, estes que se formaram especialmente nas três religiões monoteístas como potencial tanto cultural indispensável como ético. Esse discurso foi completado, na perspectiva histórico-filosófica, pela palestra “identidade entre tradição e história. Reflexões a Walter Benjamin e Theodor W. Adorno” da Drª Anne Eusterschulte (Berlim). Perto dos textos, ilustrou a consciência da impossibilidade de devolver e a desumanidade do esquecer face aos “escombros da história”, para apontar à historicidade e fragilidade do nosso pensar. E, em mais um passo, esboçou uma concepção de lembrança e historiografia como “tradução do enterrado para dentro do hoje”, a qual pergunta por aquilo que estiver por trás tanto da historiografia como do cânone filosófico. O segundo dia continuou a discussão sob o lema “o Judaísmo entre religião e cultura, Israel e diáspora”. Primeiro, a professora Drª Antonia Gruneberg (Oldenburg) referiu, sob o lema “… este começo existe sempre e por toda a parte e está pronto”, pensamentos à dimensão política e religiosa do “Novo Começo” em Hannah Arendt. A Drª Fania Oz-Salzberger (Haifa), no entanto, dedicou-se a “Some European Contexts of Modern Hebrew Culture” [Alguns Contextos Europeus da Cultura Hebraica Moderna], protestando claramente contra uma determinação do Judaísmo como “a outra coisa” da Europa, entrando mais pormenorizadamente nas raízes e valores comuns do Judaísmo e Europa. Explicou isso exemplarmente na influência do pensar judaico na filosofia política européia do século 17 (Hobbes, Locke e outros) e na contribuição determinante da filosofia jurídica européia, respectivamente alemã, ao judiciário israelense, antes que, finalmente, votou numa reflexão básica de volta às cordas de tradição comuns do Judaísmo e da Europa. Pois seria - exatamente do ponto de vista da segunda e terceira geração depois da Shoáh - sumamente importante não perceber história judaica somente como história de perseguição e tolerância repressiva. O olhar deveria, antes, por fim ser dirigido às interdependências histórico-espirituais, para poder conduzir em diante o projeto da modernidade entre parceiros de direito igual e em franqueza aberta. Israel e a Diáspora - Reciprocidade ou Marcha SolitáriaComo é importante este olhar para as raízes comuns também para Israel, para evitar uma tabicação autista, a contribuição do Dr. David Witzthum (Jerusalém) o esclareceu no exemplo da paisagem israelense dos meios de publicidade e da imagem da Europa aí proporcionada. Enquanto nos decênios de 50 e 80 uma larga obra de rede européia garantia reportagem internacional e diferenciada, correspondentes israelenses (oficiais), entrementes, não mais se encontram na Europa. A isso, as contribuições de TV e rádio deslocaram-se amplamente a assuntos intra-israelenses e intra-judaicos, assim que publicidade dos meios de comunicação de Israel passa crescentemente para a automiração, enquanto a percepção da Europa se tem deformado a um estereotipo seletivo e antes negativo. Essa visão, a qual tira Europa largamente do ser considerada como terreno tradicional de proveniência e parceiro político, tem conseqüências graves, não só para o relacionamento entre Israel e Europa, mas também para aquele entre Israel e as comunidades de diáspora de Europa.O professor Dr. Moshe Zimmermann (Jerusalém) esboçou essa situação torta intra-judaica na sua palestra “Israel e a diáspora - Reciprocidade ou marcha solitária?”, reconstruindo historicamente a história do Sionismo e o relacionamento à diáspora judaica, recorrendo igualmente ao conceito do “pós-sionismo”, e mostrando, do desenvolvimento demográfico de Israel, que o Judaísmo, entrementes, encontra-se em Israel mesmo na diáspora, respectivamente numa “existência de gueto”. Além disso, remeteu a confusão atual de anti-semitismo e anti-israelismo, bem como à assimilação crescente um nacionalismo romântico-nacionalista, para advertir duma tendência em direção a um fundamentalismo religioso. Em vistas disso, advogou a causa para um pluralismo permanente em Israel e em relação à diáspora, para não perder, por causa duma identidade nacional duvidosa, as imagens de contraste crítico-produtivas. O Dr. Amos Elon (Jerusalém) aprofundou essa problemática sob o título de “Polical Dilemmata” [Dilemas Políticos] em perspectiva atual, recapitulando primeiro as estações do conflito entre Israel e os palestinenses desde 1967 e mostrando a radicalização crescente em ambos os lados. Especialmente, Elon criticou a política de colonização israelense, política essa que qualificou como ponto de estalo do conflito israelense-palestinense e, com isso, do conflito inteiro do Oriente Próximo. Às suas palavras explícitas, Elon fez seguir um voto igualmente claro, exigindo a vontade de ambos os lados para o compromisso como a única perspectiva de paz. Ainda mais severamente, o Dr. Ron Pundak (Tel Aviv) formulou, a seguir, o problema na sua palestra “Jewishness versus <Israeliness> in the Israeli-Palestinian Conflict” [judaicidade contra israelidade no conflito israeslemse-palestinense]. Pundak, que participou das negociações de Oslo em 1993, exigiu uma “vista realista a Israel”, perguntando até que ponto Israel seria hoje de algum modo ainda um “estado de judeus para judeus”. Claramente remeteu ao que Israel primeiro seria, não o “porto seguro” para judeus de todo o mundo, mas antes o fator central de ameaça. Perante o fundo dos desenvolvimentos mais recentes no Próximo Oriente, advogou também para volta imediata ao diálogo e para uma solução de dois estados, a qual garantisse a Israel um direito de existir nas fronteiras de 1967, e que devesse igualmente oferecer uma base aceitável de existência aos palestinenses. Na palestra à noite, também o professor Dr. Shlomo Avineri (Jerusalém) manifestou a necessidade diálogo e duma solução pacífica de dois estados; ao contrário aos oradores anteriores, porém, concebeu a situação do conflito essencialmente mais pessimista, criticando que até hoje não teria sido feito nenhum pronunciamento claro da parte dos palestinenses e do mundo árabe a respeito dum direito intocável de existência do Estado de Israel. Na base disso e em vista dos últimos atentados de suicídio, agora não haveria base de confiança par negociações possíveis. Avineri advogou, por conseguinte, para uma demarcação rigorosa de fronteira entre Israel e as regiões palestinenses (Faixa de Gaza e Banco Ocidental), para proteger Israel consideravelmente de atentados ulteriores, esperando um “resfriamento do conflito em ambos os lados”. A isso, Alvineri conferiu uma recusa clara a Jassir Arafat e ao sistema político deste, votando para uma tropa neutra de proteção nas regiões dos palestinenses, a qual deveria possibilitar e controlar a construção de estruturas democráticas. Europa - “hinterland [interior] da história espiritual de Israel”Como a tabicação de Israel, proposta por Avineri, seria alternativa viável ao diálogo imediato, foi a seguir tão veementemente discutido como a questão de quem poderia trazer aquela tropa neutra de proteção para a região dos palestinenses. Ressaltou, contudo, novamente a importância central da Europa como o “hinterland da história espiritual” de Israel. Quanto a Europa se precisa conscientizar das suas raízes judaicas, tanto Israel necessita atualmente duma consciência retrospectiva da sua herança ocidental-humanística, portanto duma ligação, não só política, mas também cultural à Europa. Senão, o perigo ameaça cada vez mais, perante as aporias do conflito do Oriente Próximo, de cair num fundamentalismo religioso e auto-isolamento ideológico. Europa deve, portanto, ficar um parceiro digno de confiança de Israel - no entanto, não só na base duma responsabilidade histórica, que se trata sempre a proteger, mas também, e justamente na base da história comum de muitos séculos, a qual quer ser lembrada e continuada de modo humano.Essa discussão acerca de Europa, Judaísmo europeu e israelense e Estado de Israel foi continuada também na discussão de estrado, a qual se realizou no domingo como encerramento, e na qual participaram a professora Dr. Goodman-Thau, o professor Dr. Julius Schoeps (Potsdam), a professora Dr. Susan Neiman (Potsdam), a Drª Diana Pinto (Paris), bem como representantes da União Européia para estudantes judaicos. Em soma, esta reunião proporciona - além de muitos pedidos de informação, controversas e visões - antes de tudo uma coisa: Judaísmo e pensar judaico não são forma homogênea nenhuma, mas sim rede de muitas cordas de tradição e discussões intra- e extra-judaicas. E as tensões entre Israel e o Judaísmo da diáspora levam finalmente ao plano amplo da modernidade ocidental e à questão da relação do Judaísmo e da história ocidental. Levasse a discussão atual sobre uma “crise da cultura” de fato a uma crítica da modernidade, a qual não despedisse esta pós-modernistamente, mas sim refletisse as suas tradições competentes, a religião - e em vista das assimetrias da história ocidental do espírito especialmente o Judaísmo - seria um fator apto do auto-esclarecimento. A herança judaica da Europa no quadro duma crítica da modernidade abriria - isto a reunião mostrou claramente - muitos impulsos críticos-construtivos tanto à Europa como a Israel. E seria um programa o qual concedesse, finalmente, ao Judaísmo o lugar na história da modernidade ocidental, lugar esse que lhe - além dos acontecimentos do século 20 - convém. Michaela Willeke, Münster - ORIENTIERUNG 2002, pp. 241-244 Tradução: Pedro von Werden SJ |

