Jewish-Christian Relations

Entendimentos e Assuntos no Diálogo Cristío-Judaico

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Willeke, Michaela

Crítica da Modernidade a partir das fontes do Judaísmo

Reunião: "A herança judaica da Europa - à crise da cultura no campo de tensão entre religião e modernidade"
Os relacionamentos entre pensamento judaico e história ocidental do espírito, entre Judaísmo e Cristandade, entre Europa e a comunidades judaicas na Europa e Israel - esses relacionamentos foram até agora tanto discutidos quanto ficaram precários. Um discurso a respeito continua a levantar perguntas, tensões e mal-entendidos, que testemunham que a “herança judaica da Europa” até agora não foi considerada adequadamente. E as controversas recentes no conexo com os acontecimentos em Israel mostraram novamente que existe alta demanda em diferenciação e esclarecimento objetivo, a fim de fazer claramente frente a combates de retirada ou à instrumentalização de táticas eleitorais. Trata-se de entender o Judaísmo como parte integrante e essencial da Europa e de procurar em comum soluções para os conflitos na Europa, bem como no Próximo Oriente.
…
Que uma tal discussão da modernidade ocidental, no entanto, tem de se dirigir, não somente ao Judaísmo e à Cristandade, mas igualmente também ao Islame, era incontroverso, podia, no entanto, no quadro desta reunião não ser tratado senão em referências, por exemplo em referência à filosofia da Idade Média ou então a respeito dos perigos dum fundamentalismo religioso.

Forma cultural ou territorial de vida?

A reunião foi aberta pela professora Drª Eveline Goodman-Thau à noite do 27 de junho no Centro Judaico de Berlim. Com referência à atmosfera prenhe de história desse lugar, lembrou que a história judaica da Europa deveria voltar a ser “história de todos nós”, para chegar a ter a consciência das raízes e caminhos comuns tanto na retrospectiva histórica como perante os desafios do presente e do futuro como herança e missão.

Na palestra inaugural, o professor Micha Brumlik (Francoforte sobre o Meno) depois tematizou visão e realidade do Sionismo, formulando no decurso a seguir da reunião a tese dum pós-sionismo atual, tese essa à qual voltaram várias vezes no decorrer da reunião. No recurso ao “Der Stern der Erlösung” [A Estrela da Redenção] de Franz Rosenzweig remeteu às aporias do Sionismo como identidade ligada a uma terra, em contraposição à identidade do “povo eterno” extra-histórica, e ancorada somente na liturgia, propagada por Rosenzweig. Embora a recaída na história, resultando da Shoáh, tivesse urgido ao Judaísmo aspirar um “fim da angústia” num Estado de Israel, não deixaria de ser necessário perguntar se a identidade judaica não seria, finalmente, antes a profissão a uma forma cultural, e menos a uma forma de vida territorial. Nisso, a “terra de Israel”, como dum “penhor da fidelidade de Deus”, encontrar-se-ia, não - substancialmente - num estado, mas antes - culturalmente - p. ex. num regresso para dentro da língua, o hebraico. Por fim, o povo judaico teria sido sempre “estrangeiro” e “forasteiro”, sendo a “Terra Santa” a cifra para o anseio de redenção das pessoas. Judaísmo, assim Brumlik finalizou a sua palestra, significaria, não Sionismo, mas sim um sistema de sinais e interpretações cultural e historicamente lotado, perante o qual seria para discutir hoje até que ponto se pudesse obter uma nova forma de vida - ou se, depois da territorial, agora ameaçasse uma diáspora espiritual, respectivamente interna.

Os três dias seguintes da reunião se dedicaram então a diversos pontos de gravidade do assunto superior de “religião e cultura”. O primeiro bloco de palestras estava posto sob o tema de “diálogo das culturas no contexto de religião e filosofia”, sendo iniciado pelo professor Dr. Karl-Erich Grözinger (Potsdam). Na sua exposição, “língua comum e pensar comum das culturas religiosas da Idade Média - motivo para esperança ou ilusão?”, esboçou o dispersar da hermenêutica rabínica e do pensar cristão, bem como o reencontro dos dois a partir do fim do século 9, na base duma nova confrontação com pensamento grego. Diante desse plano de fundo ilustrou, referindo-se a Saadja Gaon, Abraham ibn David e Maimônides, a tentativa de mediação da tradição judaica e filosofia grega, mas também o insistir no valor da tradição, profecia e revelação no Judaísmo. Essas explicações conduziram, finalmente, à tese otimista de que exatamente situações de crise teriam sempre reunido as três religiões monoteístas, urgindo-os para “reflexão renovada da própria particularidade”.

A palestra seguinte, do professor Dr. Wilhelm Schmidt-Biggemann (Berlim) dedicou-se à brisante questão de “Qabaláh cristã. Concepção de tolerância ou tentativa de ingerir?”, na qual  foram elucidadas especialmente a interpretação cristã-escatológica do Antigo Testamento e da Qabaláh judaica da parte de autores cristãos como Dionísio Areopagita e Johannes Reuchlin. Indicando a decidida interpretação cristológica, trinitária e soteriológica de fontes judaicas, Schmidt-Biggemann finalmente questionou se, na Qabaláh Cristã, trata-se duma concepção não-ingeridora de tolerância, a qual - com aconteceu não raramente - possa passar por prova dum “diálogo” de Judaísmo e Cristandade na Idade Média.

A terceira contribuição, do professor Dr. Klaus Davidowicz (Viena) ocupa-se com o complexo temático de “mística, messianismo e modernidade”, o qual expôs nos exemplos do líder carismático judaico Jakob Frank e dos seguidores deste.

“Mundos-Palavra” ou “Caminhos-Sentido”

Sob a seguinte rubrica “tradição - identidade - modernidade”, o professor Dr. Christoph Schulte (Potsdam) apresentou “Iluminismo - aculturação - ortodoxia”, para discutir mais pormenorizadamente o programa da “Hasqaláh”. Antes de tudo, enfatizou nisso que Iluminismo - no sentido judaico da palavra - significaria, não um Iluminismo da religião, mas antes um Iluminismo na religião, no qual esta fica fiel à sua tradição crítica-anamnesicamente. Também, distanciou-se dum entendimento da Hasqaláh como assimilação, introduzindo, no lugar disso, o conceito da “aculturação” como concepção que inclui tanto perdas como ganhos em identidade e liberdade.

A isso se referiu a contribuição programática da professora Drª. Eveline Goodman-Thau sob o título “saber e formação - filosofia judaica moderna como crítica de cultura” para, remetendo a Franz Rosenzweig e Hermann Cohen, esboçar uma “filosofia de existência das fontes do Judaísmo” crítica de historismo e cultura. Como ponto determinante dum “Novo Pensar”, focalizou o “ponto de interseção de história e biografia, pensar e existência”, este que tenta certificar-se da modernidade criticamente renovando, em vez de despedir, as tradições desta a favor dum entusiasmo de progresso ou então dum fim da história. Aos “mundos-palavra” da pós-modernidade, opôs os “caminhos-sentido” do pensar ocidental, estes que se formaram especialmente nas três religiões monoteístas como potencial tanto cultural indispensável como ético.

Esse discurso foi completado, na perspectiva histórico-filosófica, pela palestra “identidade entre tradição e história. Reflexões a Walter Benjamin e Theodor W. Adorno” da Drª Anne Eusterschulte (Berlim). Perto dos textos, ilustrou a consciência da impossibilidade de devolver e a desumanidade do esquecer face aos “escombros da história”, para apontar à historicidade e fragilidade do nosso pensar. E, em mais um passo, esboçou uma concepção de lembrança e historiografia como “tradução do enterrado para dentro do hoje”, a qual pergunta por aquilo que estiver por trás tanto da historiografia como do cânone filosófico.

O segundo dia continuou a discussão sob o lema “o Judaísmo entre religião e cultura, Israel e diáspora”.

Primeiro, a professora Drª Antonia Gruneberg (Oldenburg) referiu, sob o lema “… este começo existe sempre e por toda a parte e está pronto”, pensamentos à dimensão política e religiosa do “Novo Começo” em Hannah Arendt.

A Drª Fania Oz-Salzberger (Haifa), no entanto, dedicou-se a “Some European Contexts of Modern Hebrew Culture” [Alguns Contextos Europeus da Cultura Hebraica Moderna], protestando claramente contra uma determinação do Judaísmo como “a outra coisa” da Europa, entrando mais pormenorizadamente nas raízes e valores comuns do Judaísmo e Europa. Explicou isso exemplarmente na influência do pensar judaico na filosofia política européia do século 17 (Hobbes, Locke e outros) e na contribuição determinante da filosofia jurídica européia, respectivamente alemã, ao judiciário israelense, antes que, finalmente, votou numa reflexão básica de volta às cordas de tradição comuns do Judaísmo e da Europa. Pois seria - exatamente do ponto de vista da segunda e terceira geração depois da Shoáh - sumamente importante não perceber história judaica somente como história de perseguição e tolerância repressiva. O olhar deveria, antes, por fim ser dirigido às interdependências histórico-espirituais, para poder conduzir em diante o projeto da modernidade entre parceiros de direito igual e em franqueza aberta.

Israel e a Diáspora - Reciprocidade ou Marcha Solitária

Como é importante este olhar para as raízes comuns também para Israel, para evitar uma tabicação autista, a contribuição do Dr. David Witzthum (Jerusalém) o esclareceu no exemplo da paisagem israelense dos meios de publicidade e da imagem da Europa aí proporcionada. Enquanto nos decênios de 50 e 80 uma larga obra de rede européia garantia reportagem internacional e diferenciada, correspondentes israelenses (oficiais), entrementes, não mais se encontram na Europa. A isso, as contribuições de TV e rádio deslocaram-se amplamente a assuntos intra-israelenses e intra-judaicos, assim que publicidade dos meios de comunicação de Israel passa crescentemente para a automiração, enquanto a percepção da Europa se tem deformado a um estereotipo seletivo e antes negativo. Essa visão, a qual tira Europa largamente do ser considerada como terreno tradicional de proveniência e parceiro político, tem conseqüências graves, não só para o relacionamento entre Israel e Europa, mas também para aquele entre Israel e as comunidades de diáspora de Europa.

O professor Dr. Moshe Zimmermann (Jerusalém) esboçou essa situação torta intra-judaica na sua palestra “Israel e a diáspora - Reciprocidade ou marcha solitária?”, reconstruindo historicamente a história do Sionismo e o relacionamento à diáspora judaica, recorrendo igualmente ao conceito do “pós-sionismo”, e mostrando, do desenvolvimento demográfico de Israel, que o Judaísmo, entrementes, encontra-se em Israel mesmo na diáspora, respectivamente numa “existência de gueto”. Além disso, remeteu a confusão atual de anti-semitismo e anti-israelismo, bem como à assimilação crescente um nacionalismo romântico-nacionalista, para advertir duma tendência em direção a um fundamentalismo religioso. Em vistas disso, advogou a causa para um pluralismo permanente em Israel e em relação à diáspora, para não perder, por causa duma identidade nacional duvidosa, as imagens de contraste crítico-produtivas.

O Dr. Amos Elon (Jerusalém) aprofundou essa problemática sob o título de “Polical Dilemmata” [Dilemas Políticos] em perspectiva atual, recapitulando primeiro as estações do conflito entre Israel e os palestinenses desde 1967 e mostrando a radicalização crescente em ambos os lados. Especialmente, Elon criticou a política de colonização israelense, política essa que qualificou como ponto de estalo do conflito israelense-palestinense e, com isso, do conflito inteiro do Oriente Próximo. Às suas palavras explícitas, Elon fez seguir um voto igualmente claro, exigindo a vontade de ambos os lados para o compromisso como a única perspectiva de paz.

Ainda mais severamente, o Dr. Ron Pundak (Tel Aviv) formulou, a seguir, o problema na sua palestra “Jewishness versus <Israeliness> in the Israeli-Palestinian Conflict” [judaicidade contra israelidade no conflito israeslemse-palestinense]. Pundak, que participou das negociações de Oslo em 1993, exigiu uma “vista realista a Israel”, perguntando até que ponto Israel seria hoje de algum modo ainda um “estado de judeus para judeus”.

Claramente remeteu ao que Israel primeiro seria, não o “porto seguro” para judeus de todo o mundo, mas antes o fator central de ameaça. Perante o fundo dos desenvolvimentos mais recentes no Próximo Oriente, advogou também para volta imediata ao diálogo e para uma solução de dois estados, a qual garantisse a Israel um direito de existir  nas fronteiras de 1967, e que devesse igualmente oferecer uma base aceitável de existência aos palestinenses.

Na palestra à noite, também o professor Dr. Shlomo Avineri (Jerusalém) manifestou a necessidade diálogo e duma solução pacífica de dois estados; ao contrário aos oradores anteriores, porém, concebeu a situação do conflito essencialmente mais pessimista, criticando que até hoje não teria sido feito nenhum pronunciamento claro da parte dos palestinenses e do mundo árabe a respeito dum direito intocável de existência do Estado de Israel. Na base disso e em vista dos últimos atentados de suicídio, agora não haveria base de confiança par negociações possíveis. Avineri advogou, por conseguinte, para uma demarcação rigorosa de fronteira entre Israel e as regiões palestinenses (Faixa de Gaza e Banco Ocidental), para proteger Israel consideravelmente de atentados ulteriores, esperando um “resfriamento do conflito em ambos os lados”. A isso, Alvineri  conferiu uma recusa clara a Jassir Arafat e ao sistema político deste, votando para uma tropa neutra de proteção nas regiões dos palestinenses, a qual deveria possibilitar e controlar a construção de estruturas democráticas.

Europa - “hinterland [interior] da história espiritual de Israel”

Como a tabicação de Israel, proposta por Avineri, seria alternativa viável ao diálogo imediato, foi a seguir tão veementemente discutido como a questão de quem poderia trazer aquela tropa neutra de proteção para a região dos palestinenses. Ressaltou, contudo, novamente a importância central da Europa como o “hinterland da história espiritual” de Israel. Quanto a Europa se precisa conscientizar das suas raízes judaicas, tanto Israel necessita atualmente duma consciência retrospectiva da sua herança ocidental-humanística, portanto duma ligação, não só política, mas também cultural à Europa. Senão, o perigo ameaça cada vez mais, perante as aporias do conflito do Oriente Próximo, de cair num fundamentalismo religioso e auto-isolamento ideológico. Europa deve, portanto, ficar um parceiro digno de confiança de Israel - no entanto, não só na base duma responsabilidade histórica, que se trata sempre a proteger, mas também, e justamente  na base da história comum de muitos séculos, a qual quer ser lembrada e continuada de modo humano.
Essa discussão acerca de Europa, Judaísmo europeu e israelense e Estado de Israel foi continuada também na discussão de estrado, a qual se realizou no domingo como encerramento, e na qual participaram a professora Dr. Goodman-Thau, o professor Dr. Julius Schoeps (Potsdam), a professora Dr. Susan Neiman (Potsdam), a Drª Diana Pinto (Paris), bem como representantes da União Européia para estudantes judaicos.

Em soma, esta reunião proporciona - além de muitos pedidos de informação, controversas e visões - antes de tudo uma coisa: Judaísmo e pensar judaico não são forma homogênea nenhuma, mas sim rede de muitas cordas de tradição e discussões intra- e extra-judaicas. E as tensões entre Israel e o Judaísmo da diáspora levam finalmente ao plano amplo da modernidade ocidental e à questão da relação do Judaísmo e da história ocidental. Levasse a discussão atual sobre uma “crise da cultura” de fato a uma crítica da modernidade, a qual não despedisse esta pós-modernistamente, mas sim refletisse as suas tradições competentes, a religião - e em vista das assimetrias da história ocidental do espírito especialmente o Judaísmo - seria um fator apto do auto-esclarecimento. A herança judaica da Europa no quadro duma crítica da modernidade abriria - isto a reunião mostrou claramente - muitos impulsos críticos-construtivos tanto à Europa como a Israel. E seria um programa o qual concedesse, finalmente, ao Judaísmo o lugar na história da modernidade ocidental, lugar esse que lhe - além dos acontecimentos do século 20 - convém.

Michaela Willeke, Münster - ORIENTIERUNG 2002, pp. 241-244
Tradução: Pedro von Werden SJ
 


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