Jewish-Christian Relations

Entendimentos e Assuntos no Diálogo Cristío-Judaico

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Artigos | Contribuições Científicas (466)

Lapide, Pinchas

Carta ao Apóstolo Paulo

Pinchas Lápide

O que um judeu crente de hoje tem a dizer ao cristão e gostaria de saber

Caro Paulo, ... Agora há máquinas a vapor e aeronaves. Si habuisses - Se tivesses tido ..., quantos terias missionado para o Deus de Israel?! Nessa área, há ainda hoje uma data de ativistas no campo cristã. Mas o negócio de missão encontra-se numa grave crise:

Durante séculos têm convertido – também em teu nome – com fogo e espada; mas hoje em dia os ídolos de todas as espécies têm-se sobreposto outra vez.

Mesmo assim: em cada cidade do Ocidente há palácios de oração, que se chama de catedrais. Muitas vezes elas têm o teu nome – agora ouve e te admira: têm-te canonizado de Santo! Mas a maior surpresa te espera ainda: em muitos lugares ajoujaram a ti e o teu arquiconcorrente Pedro, o velho homem da pesca, batizando então a catedral de São Pedro e São Paulo!

... Não se pode afirmar que essas casas de oração (exatamente como as nossas sinagogas) transbordem de orantes - embora a decoração interior esteja em alto nível artístico: Formigam deveras as estátuas e pinturas de ti, embora tu e eu saibamos que "Não ti faças imagem alguma", como reza nos "Dez Mandamentos". Estes ... são, aproximadamente, a única coisa que, em princípio, tem permanecido comum a todas as centenas de confissões cristãs.

Prega-se nas igrejas freqüentemente com referência a ti – no que muitos párocos passam pela mesma como tu em Trôade, quando Êutico adormeceu durante o teu sermão. No entanto, desde então, agradavelmente não houve caso de que alguém, como ele, caiu com isso da janela, "e foi levantado morto", como se lê nos Atos dos Apóstolos (20,9-11). Que sorte! Pois uns dos párocos de hoje, freqüentemente, tem facilidade para sermões enfadonhos; mas a reanimação de mortos não lhes quer justamente dar resultado – como deu a ti junto ao Êutico naquela época.

De todas as muitas viagens tuas, a tua visita em Corinto tem talvez as conseqüências mais graves para todas as mulheres cristãs. É que os homens se referem com satisfação ao teu grito formulado na tua primeira carta aos Coríntios: "As mulheres calem-se nas igrejas!" (I Cor 14,34). No meu entender, tu nunca tiveste a intenção – por causa do teu aborrecimento com umas poucas mulheres em Corinto – de proibir, para todos os lugares e tempos, às mulheres a palavra na igreja. Mas aí estás! Assim acontece a quem, como Santo, é permanentemente lembrado pela sua palavra.

Não faltou mais muito para que teriam declarado sagradas relíquias teu manto e os poucos livros que esqueceste em Trôade ... construindo-lhes um cofre (II Tim 4,13).

Apesar da tua popularidade, és e permaneces uma das mais mal entendidas personagens do Novo Testamento. Este, além disso, foi traduzido freqüentemente errado. Observei que nisso trata-se, em parte, de traduções defeituosas dos freqüentemente enérgicos ditos teus, mas não menos freqüentemente de "intro-leitura" no texto por parte de alguns cristãos, os quais deveriam ser chamados propriamente de "paulinistas".

Deixa-nos chegar ao teu acontecimento de Damasco. Todo mundo fala da tua pretensa ‘conversão’ ali. Mas te pergunto: de o quê e ao quê teria havido propriamente essa conversão? Já que a palavra "conversão" não ocorre no contexto de modo algum? (Mais ainda: Não usas essa expressão em nenhuma das tuas cartas – o que para mim fala volumes!). O quê então aconteceu ali na estrada a Damasco? Tu mesmo dizes na tua Carta aos Gálatas que Deus te teria chamado pela Sua graça e te dado uma missão aos pagãos (Gal 1,15-16).

No teu ser-judeu crente, então, essa vocação não tem mudado nem o mínimo – mesmo se tens tido Jesus de Nazaré como o Messias de Israel! Afinal, é que também o grande rábi Akiba (perto do ano de 133) acreditava que um certo Bar-Kohba seria o Messias de Israel. O Bar-Kohba, lamentavelmente, também fracassou – e o rábi Akiba, o qual se enganara, então foi, como tu, torturado até a morte pelos romanos. Como grande judeu e doutor está sendo contado até o dia de hoje. Entre Akiba e ti, no entanto, há consideráveis diferenças teológicas, as quais, talvez, tens podido bater a fundo com ele pessoalmente no além no decorrer dos séculos.

... Tens pregado o teu messias como "Filho de Deus", o que Akiba nunca fez com Bar-Kohba. Mesmo assim, ando certo na suposição de que tiveste o "filho de ‘Deus" em mente no seu significado hebraico, como o aprendeste junto ao teu professor Raban Gamaliel. Com isso, não cometeste falta alguma contra o judaísmo, já que esse conceito significa alguém que anda imaculado no caminho da Toráh. Justamente assim Rábi Jesus o expressou no seu Sermão da Montanha (Mt 5,45: ‘para que chegueis a ser filhos do vosso pai, do nos céus, ...). Só quando esse conceito foi traduzido ao grego, recebeu o sentido totalmente diferente e corrente no cristianismo hodierno...

Valente e discutido eras durante toda a tua vida, como podemos deduzir facilmente das tuas cartas, como na Carta aos Romanos, onde insultas os teus diversos adversários muito brutal e desgraçadamente – como "adúlteros e ladrões de templo" (Rom 2,22s.), "que se castrem de vez..." (Gal 5,12); "mentirosos" (I Tim 1,10) e outras coisas ainda. Defendo-te tão bem como posso, atribuindo esses ataques de cólera ao teu temperamento oriental e ao teu zelo missionário.

Especialmente, fascina-me a tua permanente desavença com o teu colega Simão Kefa, o qual, como Pedro, tem agora igualmente fama mundial, sendo, exatamente como tu, venerado como Santo. Não te quero excitar, mas me parece que ele tem chegado um pouco mais longe do que tu, sendo nomeado representante do vosso Rábi para todos os tempos.

Chegado longe vós dois judeus tendes em todo o caso! Compreendo que deveste ficar atrás no debate com a comunidade original – porque nunca conheceste pessoalmente o Jesus terrestre. Os outros, porém, marchavam com ele pelo país durante anos e podiam citar de cor os seus ensinamentos.

Será pensável, caro Paulo, que é por isso que tão freqüentemente acentuas o Jesus pós-pascal, cedendo ao Jesus terrestre somente o segundo violino? Mais que um e meio milênio a Igreja, com respeito a isso, andou seguindo o teu exemplo, redescobrindo só agora o Rábi Jesus terrestre, que sim nasceu, foi circunciso e educado como judeu, e que durante toda a sua vida foi fiel à fé dos seus pais – até que, pelo seu povo e sua fé, foi pregado na cruz pelos romanos.

Lemos no Novo Testamento que, em todas as tuas viagens, sempre foste primeiro às sinagogas do lugar, e depois aos "tementes de Deus". Estarás espantado ao saber que hoje quase não se sabe mais quem era essa gente. Da nossa tradição judaica, porém, conhecemo-los muito bem como pessoas que já na tua época tinham abjurado da idolatria, estavam a caminho ao judaísmo e já tiveram aceito os "Sete Mandamentos dos Filhos de Noé". Tiveram orientado as suas vidas conforme o mandamento de cuidar do direito e as proibições de derramar sangue, de roubo e de luxúria.

Porém só uma vez, em Atenas, foste a pagãos plenos para lhes pregar (At 17,16ss.). (Não vou contar a ninguém que tiveste ali somente um sucesso muito pequeno.)

Podemos, então, partir da suposição de que o teu desejo era propriamente a difusão duma espécie de judaísmo de reforma com Jesus como messias? Jesus mesmo, como certamente sabes, nunca quis, menos poucas exceções, ir aos gentios – assim se lê no Evangelho de Mateus (Mt 15,24) – e era um agravador da Toráh declarado (= que fazia a Toráh mais pesada).

A propósito, viste o original hebraico dos evangelhos? A nós, lamentavelmente, estão ficando conservadas somente traduções gregas, as quais foram assentadas entre os anos de 70 e 100, portanto muito tempo depois da tua morte. Estou-me atualmente esfalfando muito para esclarecer nelas vários graves erros de tradução, os quais, no decorrer dos séculos, têm levado a maus preconceitos, e até a perseguições por parte dos cristãos contra os teus e meus irmãos e irmãs. Em breve, vou-te apresentar mais de três dúzias de exemplos dessa natureza.

Voltando à tua missão na área do Mediterrâneo:

Primeiro: – Sem o pequeno sim a Jesus como Messias de alguns milhares de judeus, os quais o aceitaram entusiasmados, de um lado, e sem o grande não da maioria dos judeus de outro lado, os quais, embora o amassem e estimassem como professor, como profeta ou como rábi, não podiam reconhecê-lo como messias num mundo tão irremido, nunca deverias ter saído para tuas viagens de missão na metade do mundo. Ou estou errado aí?

Ou terias ido em todo o caso – como entre ti e a comunidade original de Jerusalém (sob a direção de Pedro e Tiago) as tensões tinham chegado a ser bastante insuportáveis?

Segundo: - A grande catástrofe da destruição de Jerusalém e a expulsão dos judeus pelos romanos – no ano de 70 - é que aconteceu muito tempo depois da tua morte. Aí não se podia mais pregoar nenhum messias judaico numa cruz romana no império mundial romano; já que, como se sabe, naqueles distúrbios de guerra também a comunidade original de Jerusalém tem desaparecido, tornando-se a área mediterrânea aos poucos uma região cristã-pagã. Imaginaste isso assim? Na retrospecção, podemos supor que, sem a destruição de Jerusalém, os mesmos pagãos teriam chegado a ser judeus-cristãos ou jesuanos meio-judaicos. Certo é que em vida de Jesus, todo o seu movimento era interno-judeu e fiel à Toráh e ficou assim.

O cristianismo pagão, porém, rompeu entrementes com a fé judaica de Jesus, tem missionado uma multidão de pagãos no mundo inteiro, tornando-se autônomo e conquistando a metade do mundo sob o nome de "cristianismo".

Não poucos desses cristãos nutriram, no decorrer dos séculos, uma não-bíblica malícia sobre a destruição de Jerusalém, a qual quiseram interpretar como castigo de Deus pela "recusa" judaica de Jesus. Não poderias aí intervir com um grande trovão e lembrar que todos os profetas de Israel admoestaram e advertiram e ameaçaram com destruição do templo – por motivo de preocupação e aflição pelos seus pecados ocasionais? Os mesmos profetas, Jesus e também tu, porém, frisavam continuamente também as anunciadas alianças de graça do mesmo Deus com o mesmo povo de Israel, o que os tais cristãos gostam de varrer para baixo do tapete teológico!

... Durante séculos, no judaísmo, acusaram-te de heresia ou te passaram em silêncio, enquanto cristãos acrescentaram tudo para te – que te fizeste conhecer como "judeu" (At 22,3: Eu sou homem judeu, ...), como "hebreu" (2Cor 11,22: Hebreus são, eu também...) e como "fariseu" (At 26,5: ... dentro do mais diligente partido da nossa religião vivia, fariseu".) – alhear do teu povo! Exatamente assim o fizeram com Jesus de Nazaré também.

Só em nossos dias chegam as "tentativas de buscar de volta à pátria (Heimholungsversuche)" do nazareno (o qual, a meu ver, nunca se fora!) ao seu judaísmo. Também começa a brotar entre judeus um entender para tuas – freqüentemente contraditórias – pretensões. Isso é mais fácil hoje em dia, porque há outra vez um estado judeu de um lado e, de outro, uma diáspora mundial – justamente como nos teus dias. Pena que não podes visitar as grandes Sinagogas de Reforma na América; creio que te sentirias ali totalmente em casa. Mas para que não surja um mal-entendido entre nós: judeus permanecem todos eles, e numa mistura de judaísmo e cristianismo ninguém pensa em ambos os campos.

Uma galinha gigante, em todo o caso, teria ainda a depenar contigo: tua atitude discrepante referente à Toráh, a qual, de um lado, enalteces como "santa, justa e boa" (Rom 7,12); mas, de outro lado, a qualificas como "produzindo pecado hiper-pecaminoso" (Rom 7,13) – podendo a seguir falar da "maldição da lei" (Gal 3,13). Por último, porém, afirmas com ênfase: "Desativamos a lei pela fé? De modo nenhum! Pomos a lei de pé!" (Rom 3,31). Previste, meu caro benyaminide, que a cristandade, referendo-se a ti, iria declarar como não mais válidos quase todos os mandamentos da Toráh?

Esse despedaçamento teu, judeus não o podiam entender. A não ser, como pondero, que no elogio entendes de fato a Toráh em globo, ao passo que na depreciação da "lei (nomos)", como dizes em grego, pensaste em umas interpretações de colegas rabínicos teus, com os quais estavas no clinch (rebite). Estas questões vou estudar em breve. (Disputa de rabinos pela interpretação há em grande abundância até o dia de hoje; mas o azar é que tuas palavras de afronto foram feitas absolutas pelos cristãos e santificadas!)

Em todo o caso está certo que transfuncionaste a fé de Jesus para uma fé em Jesus. Aqui, meu caro amigo, está talvez o núcleo da coisa (des Pudels Kern), o qual tinha de conduzir à separação dos caminhos!

Mas agora chegamos a questão de mulher (Gretchenfrage): Como estás com as mulheres? Pois a antijudaísmo, - em certos círculos feministas de hoje. – tem conduzido a tua estranha orientação referente às filhas de Eva. Como pudeste asseverar que a mulher seria somente um "reflexo de varão" (I Cor 11,7), e que as mulheres "se subordinassem" (I Cor 14,34)? Mais ainda recomendas que "homem não toque em mulher" (I Cor 7,1) e que desejas que todos os homens não casem (I Cor 7,7). Isso não é de longe tudo o negativo que tens a dizer sobre o "sexo mais fraco", como o chamas. Terias o amor de esclarecer às feministas, - as quais a nós judeus imputam todos esses pronunciamentos – talvez numa pequena visão por exemplo, que tudo isso é o teu bem especial, este que não provém de modo algum da Torá ou da opinião doutrinal rabínica.

Muita quebra-cabeça fez a mim e a outros o teu conselho na Carta aos Romanos (13,1-5) de ser cegamente submisso a qualquer autoridade porque viria "de Deus". Não é possível que possas ser de opinião de que, por exemplo, à Polônia não seria permitido livrar-se do jugo russo – ou que não se deveria ter feito resistência contra Hitler? E o quê deveria valer para os teólogos de libertação Leonardo Boff, os irmãos Cardinale e muitos outros na América Latina, os quais todos são cristãos devotos?

Tento a te compreender: Escreveste para um determinado lugar num determinado tempo – a saber: para a jovem e fraca comunidade em Roma na tua vida, comunidade essa que era ainda muito pequena demais e não organizada para arriscar resistência contra o império mundial de Roma. É que eras prudente demais para querer eternizar um conselho específico tal para todos os lugares e todos os tempos! Exatamente isso, porém, a Igreja tem feito depois com estas e outras palavras tuas.

Depois dessa descompostura, deixa-me já dizer uma trouxa de coisas ao teu favor:

O que eu e muitos outros comigo estimamos muito, é que na tua última carta, a qual se deve considerar o teu testamento – nos capítulos 9-11 da Carta aos Romanos então – seguras inequivocamente que "todas as alianças" de Deus naturalmente pertencem ao povo de Israel para sempre (Rom 9,4-5) e que Deus "nunca tem rejeitado nem repudiado" o povo da Sua aliança (Rom 11,1); e não por último, que a vocação e promissão a todo o Israel são e permanecem "irrevogáveis e inarrepreensíveis" (Rom 11,29).

Embora o rábi de Nazaré tenha entendido muito mais de agricultura e botânica do que tu, - já que eras uma pessoa de cidade, em cujas parábolas abundam as imagens de cidade grande, - continua me agradando a tua parábola da árvore e da raiz: "Não tu carregas a raiz", assim inculcas aos cristãos-gentios, "mas sim a raiz (Israel) carrega a ti!" (Rom 11,18). Uma felicidade, caro rábi de Tarso, que perante pagãos quase jamais pregaste, mas em troca lhes tens escrito no álbum tão importantes declarações.

O que quer que seja por que estiveres repreendido, permanece o teu mérito imortal que tu – e depois muitos outros em teu nome – propagaste a mensagem do Deus de Israel em todos os cantos do mundo. Quem sabe se sem a tua enorme entrada em ação, a gente neste país (Alemanha) ainda hoje ofereceria sacrifícios de cavalos a Wotan e Freya na Godesburg?

Caro Paulo, ... isto não é senão um petisco da ementa de assuntos e questões que gostaria afetuosamente discutir contigo. Estou palpitantemente interessado, por exemplo, também no catálogo de questões seguintes:

  • Quantas cristologias propriamente conhecias – e qual delas recomendarias à cristandade hodierna (como vínculo unificante na sua divisão)?
  • O quê propriamente impeliu-te "à Arábia (Gal 1,17), a qual naquela época era um ermo quase inabitado? Depois da reconstrução das tuas viagens de missão e estudos, creio que encontrei pista da finalidade da viagem e do teu assunto ali.
  • O quê queres dizer com o teu "aguilhão à carne", o qual designas como "anjo de satã" (2Cor 12,7)? ...
  • Porque circuncidaste o teu ajudante Timóteo (At 16,3) – já que anuncias aos Gálatos que "em Jesus nem circuncisão nem incircuncisão valem coisa alguma" (Gal 5,6)? Aqui há uma contradição – além disso, tenho de comunicar-te que este acontecimento na vida de Jesus chegou a ser tão importante para todo o Ocidente, que se celebra a festa do Ano Novo no l.º de janeiro – a saber: no dia da sua circuncisão, sendo este o dia da sua chegada a ser judeu. Note bem: não o dia do seu nascimento, o dia 24 de dezembro, chegou a ser o dia de passagem do ano de todos os cristãos!
  • "Saudai o Andrônico e o Junias, meus parentes de tribo ... os quais são afamados apóstolos e estavam no Cristo antes de mim." Assim escreves na Carta aos Romanos (16,7). Tenho pesquisado e constatado que no grego não há nome de homem Junias – mas sim um nome de mulher Junia. É imaginável que a posterior igreja de homens juntou um s àquela apóstola, para a masculinizar? Minhas perguntas: Eram Andrônico e Junia porventura até um casal apostólico?
  • Como explica que nem o difamado como traidor Judas, nem o pretenso processo de Jesus perante o Alto Conselho não encontra menção junto a ti, nem palavrinha? Não ouviste nada disso? Considerando as graves conseqüências que a "traição" e o "processo perante o Sinédrio" trazem até hoje, acho o teu silêncio eloqüente!

Das perguntas não há fim, como vês – a ti e sobre ti. Assim, não me restará outra coisa do que escrever mais um livro dedicado a ti. Gostas do título: "Paulo, judeu ou cristão"? O primeiro exemplar quero te enviar, Deo volente (se Deus quiser), por correio apostólico a Tarso.

Como o rábi de Nazaré já recomendou: "A verdade vos faz livres", tenho-me permitido, caro Paulo, estorvar a tua tranqüilidade celeste com minha curiosidade. Creio que aí encontro-me em muito boa companhia, pois já na Segunda Carta de Pedro no Novo Testamento, o autor se queixa de que "várias coisas nas cartas do Paulo seriam difíceis de entender" (2Pe 31,6).

Em cordial solidariedade e com Shalôm fraternal saúda-te teu Pinchas

P.S.: Caro Paulo, nunca desististe, aliás, do teu belo nome régio Shaúl, mas somente adquiriste o nome paralelo de Paulo para as tuas viagens ao mundo dos pagãos. Semelhantemente procedem muitos piedosos judeus até o dia de hoje. Triste me deixa o dito alemão: "Um Saulo chegou a ser um Paulo" ("Aus einem Saulus wurde ein Paulus") – querendo dizer: Um criminoso chegou a ser honesto! Isso realmente não mereces!


Publicação com benévola permissão da revista Publik-Forum

© 2000 Publik Forum. Tradução (abreviada) do texto alemão em Publik-Forum, Nº 15 – 8 de agosto de 1997, pp. 42-45 Pedro von Werden SJ
 


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