Carta ao Apóstolo Paulo
Pinchas Lápide
O que um judeu crente de hoje tem a dizer ao cristão e gostaria de saber
Caro Paulo, ... Agora há máquinas a vapor e aeronaves. Si habuisses - Se
tivesses tido ..., quantos terias missionado para o Deus de Israel?! Nessa área, há ainda
hoje uma data de ativistas no campo cristã. Mas o negócio de missão encontra-se numa
grave crise:
Durante séculos têm convertido – também em teu nome – com fogo e espada; mas hoje
em dia os ídolos de todas as espécies têm-se sobreposto outra vez.
Mesmo assim: em cada cidade do Ocidente há palácios de oração, que se chama de
catedrais. Muitas vezes elas têm o teu nome – agora ouve e te admira: têm-te canonizado
de Santo! Mas a maior surpresa te espera ainda: em muitos lugares ajoujaram a ti e o teu
arquiconcorrente Pedro, o velho homem da pesca, batizando então a catedral de São Pedro e
São Paulo!
... Não se pode afirmar que essas casas de oração (exatamente como as nossas
sinagogas) transbordem de orantes - embora a decoração interior esteja em alto nível artístico:
Formigam deveras as estátuas e pinturas de ti, embora tu e eu saibamos que "Não ti faças
imagem alguma", como reza nos "Dez Mandamentos". Estes ... são,
aproximadamente, a única coisa que, em princípio, tem permanecido comum a todas as
centenas de confissões cristãs.
Prega-se nas igrejas freqüentemente com referência a ti – no que muitos párocos
passam pela mesma como tu em Trôade, quando Êutico adormeceu durante o teu sermão. No
entanto, desde então, agradavelmente não houve caso de que alguém, como ele, caiu com
isso da janela, "e foi levantado morto", como se lê nos Atos dos Apóstolos
(20,9-11). Que sorte! Pois uns dos párocos de hoje, freqüentemente, tem facilidade para
sermões enfadonhos; mas a reanimação de mortos não lhes quer justamente dar resultado
– como deu a ti junto ao Êutico naquela época.
De todas as muitas viagens tuas, a tua visita em Corinto tem talvez as conseqüências
mais graves para todas as mulheres cristãs. É que os homens se referem com satisfação ao
teu grito formulado na tua primeira carta aos Coríntios: "As mulheres calem-se nas
igrejas!" (I Cor 14,34). No meu entender, tu nunca tiveste a intenção – por causa
do teu aborrecimento com umas poucas mulheres em Corinto – de proibir, para todos os
lugares e tempos, às mulheres a palavra na igreja. Mas aí estás! Assim acontece a quem,
como Santo, é permanentemente lembrado pela sua palavra.
Não faltou mais muito para que teriam declarado sagradas relíquias teu manto e os
poucos livros que esqueceste em Trôade ... construindo-lhes um cofre (II Tim 4,13).
Apesar da tua popularidade, és e permaneces uma das mais mal entendidas personagens do
Novo Testamento. Este, além disso, foi traduzido freqüentemente errado. Observei que nisso
trata-se, em parte, de traduções defeituosas dos freqüentemente enérgicos ditos teus,
mas não menos freqüentemente de "intro-leitura" no texto por parte de alguns
cristãos, os quais deveriam ser chamados propriamente de "paulinistas".
Deixa-nos chegar ao teu acontecimento de Damasco. Todo mundo fala da tua pretensa
‘conversão’ ali. Mas te pergunto: de o quê e ao quê teria havido propriamente essa
conversão? Já que a palavra "conversão" não ocorre no contexto de modo algum?
(Mais ainda: Não usas essa expressão em nenhuma das tuas cartas – o que para mim fala
volumes!). O quê então aconteceu ali na estrada a Damasco? Tu mesmo dizes na tua Carta aos
Gálatas que Deus te teria chamado pela Sua graça e te dado uma missão aos pagãos (Gal
1,15-16).
No teu ser-judeu crente, então, essa vocação não tem mudado nem o mínimo – mesmo
se tens tido Jesus de Nazaré como o Messias de Israel! Afinal, é que também o grande rábi
Akiba (perto do ano de 133) acreditava que um certo Bar-Kohba seria o Messias de
Israel. O Bar-Kohba, lamentavelmente, também fracassou – e o rábi Akiba, o qual
se enganara, então foi, como tu, torturado até a morte pelos romanos. Como grande judeu e
doutor está sendo contado até o dia de hoje. Entre Akiba e ti, no entanto, há consideráveis
diferenças teológicas, as quais, talvez, tens podido bater a fundo com ele pessoalmente no
além no decorrer dos séculos.
... Tens pregado o teu messias como "Filho de Deus", o que Akiba nunca fez com
Bar-Kohba. Mesmo assim, ando certo na suposição de que tiveste o "filho de
‘Deus" em mente no seu significado hebraico, como o aprendeste junto ao teu professor
Raban Gamaliel. Com isso, não cometeste falta alguma contra o judaísmo, já que esse
conceito significa alguém que anda imaculado no caminho da Toráh. Justamente assim Rábi
Jesus o expressou no seu Sermão da Montanha (Mt 5,45: ‘para que chegueis a ser filhos
do vosso pai, do nos céus, ...). Só quando esse conceito foi traduzido ao grego,
recebeu o sentido totalmente diferente e corrente no cristianismo hodierno...
Valente e discutido eras durante toda a tua vida, como podemos deduzir facilmente das
tuas cartas, como na Carta aos Romanos, onde insultas os teus diversos adversários muito
brutal e desgraçadamente – como "adúlteros e ladrões de templo" (Rom 2,22s.),
"que se castrem de vez..." (Gal 5,12); "mentirosos" (I Tim 1,10) e
outras coisas ainda. Defendo-te tão bem como posso, atribuindo esses ataques de cólera ao
teu temperamento oriental e ao teu zelo missionário.
Especialmente, fascina-me a tua permanente desavença com o teu colega Simão Kefa, o
qual, como Pedro, tem agora igualmente fama mundial, sendo, exatamente como tu, venerado
como Santo. Não te quero excitar, mas me parece que ele tem chegado um pouco mais longe do
que tu, sendo nomeado representante do vosso Rábi para todos os tempos.
Chegado longe vós dois judeus tendes em todo o caso! Compreendo que deveste ficar atrás
no debate com a comunidade original – porque nunca conheceste pessoalmente o Jesus
terrestre. Os outros, porém, marchavam com ele pelo país durante anos e podiam citar de
cor os seus ensinamentos.
Será pensável, caro Paulo, que é por isso que tão freqüentemente acentuas o Jesus pós-pascal,
cedendo ao Jesus terrestre somente o segundo violino? Mais que um e meio milênio a Igreja,
com respeito a isso, andou seguindo o teu exemplo, redescobrindo só agora o Rábi Jesus
terrestre, que sim nasceu, foi circunciso e educado como judeu, e que durante toda a sua
vida foi fiel à fé dos seus pais – até que, pelo seu povo e sua fé, foi pregado na
cruz pelos romanos.
Lemos no Novo Testamento que, em todas as tuas viagens, sempre foste primeiro às
sinagogas do lugar, e depois aos "tementes de Deus". Estarás espantado ao saber
que hoje quase não se sabe mais quem era essa gente. Da nossa tradição judaica, porém,
conhecemo-los muito bem como pessoas que já na tua época tinham abjurado da idolatria,
estavam a caminho ao judaísmo e já tiveram aceito os "Sete Mandamentos dos Filhos de
Noé". Tiveram orientado as suas vidas conforme o mandamento de cuidar do direito e as
proibições de derramar sangue, de roubo e de luxúria.
Porém só uma vez, em Atenas, foste a pagãos plenos para lhes pregar (At 17,16ss.). (Não
vou contar a ninguém que tiveste ali somente um sucesso muito pequeno.)
Podemos, então, partir da suposição de que o teu desejo era propriamente a difusão
duma espécie de judaísmo de reforma com Jesus como messias? Jesus mesmo, como certamente
sabes, nunca quis, menos poucas exceções, ir aos gentios – assim se lê no Evangelho de
Mateus (Mt 15,24) – e era um agravador da Toráh declarado (= que fazia a Toráh mais
pesada).
A propósito, viste o original hebraico dos evangelhos? A nós, lamentavelmente, estão
ficando conservadas somente traduções gregas, as quais foram assentadas entre os anos de
70 e 100, portanto muito tempo depois da tua morte. Estou-me atualmente esfalfando muito
para esclarecer nelas vários graves erros de tradução, os quais, no decorrer dos séculos,
têm levado a maus preconceitos, e até a perseguições por parte dos cristãos contra os
teus e meus irmãos e irmãs. Em breve, vou-te apresentar mais de três dúzias de exemplos
dessa natureza.
Voltando à tua missão na área do Mediterrâneo:
Primeiro: – Sem o pequeno sim a Jesus como Messias de alguns milhares de judeus, os
quais o aceitaram entusiasmados, de um lado, e sem o grande não da maioria dos judeus de
outro lado, os quais, embora o amassem e estimassem como professor, como profeta ou como rábi,
não podiam reconhecê-lo como messias num mundo tão irremido, nunca deverias ter saído
para tuas viagens de missão na metade do mundo. Ou estou errado aí?
Ou terias ido em todo o caso – como entre ti e a comunidade original de Jerusalém (sob
a direção de Pedro e Tiago) as tensões tinham chegado a ser bastante insuportáveis?
Segundo: - A grande catástrofe da destruição de Jerusalém e a expulsão dos
judeus pelos romanos – no ano de 70 - é que aconteceu muito tempo depois da tua morte. Aí
não se podia mais pregoar nenhum messias judaico numa cruz romana no império mundial
romano; já que, como se sabe, naqueles distúrbios de guerra também a comunidade original
de Jerusalém tem desaparecido, tornando-se a área mediterrânea aos poucos uma região
cristã-pagã. Imaginaste isso assim? Na retrospecção, podemos supor que, sem a destruição
de Jerusalém, os mesmos pagãos teriam chegado a ser judeus-cristãos ou jesuanos
meio-judaicos. Certo é que em vida de Jesus, todo o seu movimento era interno-judeu e fiel
à Toráh e ficou assim.
O cristianismo pagão, porém, rompeu entrementes com a fé judaica de Jesus, tem
missionado uma multidão de pagãos no mundo inteiro, tornando-se autônomo e conquistando a
metade do mundo sob o nome de "cristianismo".
Não poucos desses cristãos nutriram, no decorrer dos séculos, uma não-bíblica malícia
sobre a destruição de Jerusalém, a qual quiseram interpretar como castigo de Deus pela
"recusa" judaica de Jesus. Não poderias aí intervir com um grande trovão e
lembrar que todos os profetas de Israel admoestaram e advertiram e ameaçaram com destruição
do templo – por motivo de preocupação e aflição pelos seus pecados ocasionais? Os
mesmos profetas, Jesus e também tu, porém, frisavam continuamente também as anunciadas
alianças de graça do mesmo Deus com o mesmo povo de Israel, o que os tais cristãos gostam
de varrer para baixo do tapete teológico!
... Durante séculos, no judaísmo, acusaram-te de heresia ou te passaram em silêncio,
enquanto cristãos acrescentaram tudo para te – que te fizeste conhecer como
"judeu" (At 22,3: Eu sou homem judeu, ...), como "hebreu" (2Cor
11,22: Hebreus são, eu também...) e como "fariseu" (At 26,5: ...
dentro do mais diligente partido da nossa religião vivia, fariseu".) – alhear do
teu povo! Exatamente assim o fizeram com Jesus de Nazaré também.
Só em nossos dias chegam as "tentativas de buscar de volta à pátria
(Heimholungsversuche)" do nazareno (o qual, a meu ver, nunca se fora!) ao seu judaísmo.
Também começa a brotar entre judeus um entender para tuas – freqüentemente contraditórias
– pretensões. Isso é mais fácil hoje em dia, porque há outra vez um estado judeu de um
lado e, de outro, uma diáspora mundial – justamente como nos teus dias. Pena que não
podes visitar as grandes Sinagogas de Reforma na América; creio que te sentirias ali
totalmente em casa. Mas para que não surja um mal-entendido entre nós: judeus permanecem
todos eles, e numa mistura de judaísmo e cristianismo ninguém pensa em ambos os campos.
Uma galinha gigante, em todo o caso, teria ainda a depenar contigo: tua atitude
discrepante referente à Toráh, a qual, de um lado, enalteces como "santa, justa e
boa" (Rom 7,12); mas, de outro lado, a qualificas como "produzindo pecado
hiper-pecaminoso" (Rom 7,13) – podendo a seguir falar da "maldição da
lei" (Gal 3,13). Por último, porém, afirmas com ênfase: "Desativamos a lei pela
fé? De modo nenhum! Pomos a lei de pé!" (Rom 3,31). Previste, meu caro benyaminide,
que a cristandade, referendo-se a ti, iria declarar como não mais válidos quase todos os
mandamentos da Toráh?
Esse despedaçamento teu, judeus não o podiam entender. A não ser, como pondero, que no
elogio entendes de fato a Toráh em globo, ao passo que na depreciação da "lei (nomos)",
como dizes em grego, pensaste em umas interpretações de colegas rabínicos teus, com os
quais estavas no clinch (rebite). Estas questões vou estudar em breve. (Disputa de
rabinos pela interpretação há em grande abundância até o dia de hoje; mas o azar é que
tuas palavras de afronto foram feitas absolutas pelos cristãos e santificadas!)
Em todo o caso está certo que transfuncionaste a fé de Jesus para uma fé em Jesus.
Aqui, meu caro amigo, está talvez o núcleo da coisa (des Pudels Kern), o qual tinha de
conduzir à separação dos caminhos!
Mas agora chegamos a questão de mulher (Gretchenfrage): Como estás com as mulheres?
Pois a antijudaísmo, - em certos círculos feministas de hoje. – tem conduzido a tua
estranha orientação referente às filhas de Eva. Como pudeste asseverar que a mulher seria
somente um "reflexo de varão" (I Cor 11,7), e que as mulheres "se
subordinassem" (I Cor 14,34)? Mais ainda recomendas que "homem não toque em
mulher" (I Cor 7,1) e que desejas que todos os homens não casem (I Cor 7,7). Isso não
é de longe tudo o negativo que tens a dizer sobre o "sexo mais fraco", como o
chamas. Terias o amor de esclarecer às feministas, - as quais a nós judeus imputam todos
esses pronunciamentos – talvez numa pequena visão por exemplo, que tudo isso é o teu bem
especial, este que não provém de modo algum da Torá ou da opinião doutrinal rabínica.
Muita quebra-cabeça fez a mim e a outros o teu conselho na Carta aos Romanos (13,1-5) de
ser cegamente submisso a qualquer autoridade porque viria "de Deus". Não é possível
que possas ser de opinião de que, por exemplo, à Polônia não seria permitido livrar-se
do jugo russo – ou que não se deveria ter feito resistência contra Hitler? E o quê
deveria valer para os teólogos de libertação Leonardo Boff, os irmãos Cardinale e muitos
outros na América Latina, os quais todos são cristãos devotos?
Tento a te compreender: Escreveste para um determinado lugar num determinado tempo – a
saber: para a jovem e fraca comunidade em Roma na tua vida, comunidade essa que era ainda
muito pequena demais e não organizada para arriscar resistência contra o império mundial
de Roma. É que eras prudente demais para querer eternizar um conselho específico tal para
todos os lugares e todos os tempos! Exatamente isso, porém, a Igreja tem feito depois com
estas e outras palavras tuas.
Depois dessa descompostura, deixa-me já dizer uma trouxa de coisas ao teu favor:
O que eu e muitos outros comigo estimamos muito, é que na tua última carta, a qual se
deve considerar o teu testamento – nos capítulos 9-11 da Carta aos Romanos então –
seguras inequivocamente que "todas as alianças" de Deus naturalmente pertencem ao
povo de Israel para sempre (Rom 9,4-5) e que Deus "nunca tem rejeitado nem
repudiado" o povo da Sua aliança (Rom 11,1); e não por último, que a vocação e
promissão a todo o Israel são e permanecem "irrevogáveis e inarrepreensíveis"
(Rom 11,29).
Embora o rábi de Nazaré tenha entendido muito mais de agricultura e botânica do que
tu, - já que eras uma pessoa de cidade, em cujas parábolas abundam as imagens de cidade
grande, - continua me agradando a tua parábola da árvore e da raiz: "Não tu carregas
a raiz", assim inculcas aos cristãos-gentios, "mas sim a raiz (Israel) carrega a
ti!" (Rom 11,18). Uma felicidade, caro rábi de Tarso, que perante pagãos quase jamais
pregaste, mas em troca lhes tens escrito no álbum tão importantes declarações.
O que quer que seja por que estiveres repreendido, permanece o teu mérito imortal que tu
– e depois muitos outros em teu nome – propagaste a mensagem do Deus de Israel em todos
os cantos do mundo. Quem sabe se sem a tua enorme entrada em ação, a gente neste país (Alemanha)
ainda hoje ofereceria sacrifícios de cavalos a Wotan e Freya na Godesburg?
Caro Paulo, ... isto não é senão um petisco da ementa de assuntos e questões
que gostaria afetuosamente discutir contigo. Estou palpitantemente interessado, por exemplo,
também no catálogo de questões seguintes:
- Quantas cristologias propriamente conhecias – e qual delas recomendarias à
cristandade hodierna (como vínculo unificante na sua divisão)?
- O quê propriamente impeliu-te "à Arábia (Gal 1,17), a qual naquela época era
um ermo quase inabitado? Depois da reconstrução das tuas viagens de missão e estudos,
creio que encontrei pista da finalidade da viagem e do teu assunto ali.
- O quê queres dizer com o teu "aguilhão à carne", o qual designas como
"anjo de satã" (2Cor 12,7)? ...
- Porque circuncidaste o teu ajudante Timóteo (At 16,3) – já que anuncias aos Gálatos
que "em Jesus nem circuncisão nem incircuncisão valem coisa alguma" (Gal
5,6)? Aqui há uma contradição – além disso, tenho de comunicar-te que este
acontecimento na vida de Jesus chegou a ser tão importante para todo o Ocidente, que se
celebra a festa do Ano Novo no l.º de janeiro – a saber: no dia da sua circuncisão,
sendo este o dia da sua chegada a ser judeu. Note bem: não o dia do seu nascimento, o
dia 24 de dezembro, chegou a ser o dia de passagem do ano de todos os cristãos!
- "Saudai o Andrônico e o Junias, meus parentes de tribo ... os quais são
afamados apóstolos e estavam no Cristo antes de mim." Assim escreves na Carta aos
Romanos (16,7). Tenho pesquisado e constatado que no grego não há nome de homem Junias
– mas sim um nome de mulher Junia. É imaginável que a posterior igreja de homens
juntou um s àquela apóstola, para a masculinizar? Minhas perguntas: Eram Andrônico e
Junia porventura até um casal apostólico?
- Como explica que nem o difamado como traidor Judas, nem o pretenso processo de Jesus
perante o Alto Conselho não encontra menção junto a ti, nem palavrinha? Não ouviste
nada disso? Considerando as graves conseqüências que a "traição" e o
"processo perante o Sinédrio" trazem até hoje, acho o teu silêncio eloqüente!
Das perguntas não há fim, como vês – a ti e sobre ti. Assim, não me restará outra
coisa do que escrever mais um livro dedicado a ti. Gostas do título: "Paulo, judeu ou
cristão"? O primeiro exemplar quero te enviar, Deo volente (se Deus quiser),
por correio apostólico a Tarso.
Como o rábi de Nazaré já recomendou: "A verdade vos faz livres", tenho-me
permitido, caro Paulo, estorvar a tua tranqüilidade celeste com minha curiosidade. Creio
que aí encontro-me em muito boa companhia, pois já na Segunda Carta de Pedro no Novo
Testamento, o autor se queixa de que "várias coisas nas cartas do Paulo seriam difíceis
de entender" (2Pe 31,6).
Em cordial solidariedade e com Shalôm fraternal saúda-te teu Pinchas
P.S.: Caro Paulo, nunca desististe, aliás, do teu belo nome régio Shaúl, mas
somente adquiriste o nome paralelo de Paulo para as tuas viagens ao mundo dos pagãos.
Semelhantemente procedem muitos piedosos judeus até o dia de hoje. Triste me deixa o dito
alemão: "Um Saulo chegou a ser um Paulo" ("Aus einem Saulus wurde ein
Paulus") – querendo dizer: Um criminoso chegou a ser honesto! Isso realmente não
mereces!
Publicação com benévola permissão da revista Publik-Forum
© 2000 Publik Forum. Tradução (abreviada) do texto alemão em Publik-Forum, Nº 15 – 8
de agosto de 1997, pp. 42-45 Pedro von Werden SJ  |