As Contradições de Paulo – Podem Elas Ser Resolvidas?
John G. Gager
Se olharmos as cartas de Paulo, não é difícil extrair o que
superficialmente parecem visões diretamente opostas, contra e pró Israel:
I. Contra Israel:
- "Todos que confiam em obras da lei estão sob uma maldição" (Gálatas
3,10).
- "Pois [alguns manuscritos adicionam ‘em Cristo Jesus’ ] nem circuncisão
conta para coisa alguma, nem incircuncisão, mas uma nova criação (é que
conta)!" (Gálatas 6,15).
- "Ninguém será justificado diante dele (Deus) por obras da lei, desde que pela
lei vem o conhecimento do pecado" (Romanos 3,20).
- "Israel, que procurou uma lei de justiça, não conseguiu cumprir aquela
lei" (Romanos 9,31).
- "Mas as suas mentes obscureceram; até o dia de hoje o mesmo véu sobre a leitura
do antigo testamento permanece; não é tirado, pois em Cristo é desfeito. Sim, até
hoje, quando Moisés é lido, um véu está sobre o seu coração" (2Cor 3,14-15).
II. Pró Israel:
- "O quê é o extraordinário do judeu? Ou o quê vale a circuncisão? Muito, sob
todos os aspetos." (Romanos 3,1).
- "Derrubamos, então, a lei pela fé? De modo nenhum, ao contrário: sustentamos a
lei!" (Romanos 3,31).
- "O quê vamos dizer? Que a lei é pecado? De modo nenhum." (Romanos 7,7).
- "Assim, a lei é santa, e o mandamento é santo, justo e bom" (Romanos
7,12).
- ... "que são os israelitas, dos quais são a filiação, a glória, as alianças,
a legislação, o culto e as promessas; dos quais são os padres e os quais é o Cristo
segundo a carne, ..." (Romanos 9,4).
- "... Não teria Deus rejeitado o seu povo? De modo nenhum..." (Romanos
11,1).
- ‘... Todo o Israel será salvo..." (Romanos 11,26).
- "A lei, então, é contra as promessas de Deus? De modo nenhum..." (Gálatas
3,21).
Esses dois conjuntos de citações aparecem contradizer um ao outro. Mas contradizem-se
mesmo? Era o apóstolo dos gentios incapaz de pensar consistentemente? Alguns recentes
cientistas de Paulo declararam precisamente que era. O exegeta finlandês Heikki Räisänen,
por exemplo, tomou aquilo que chamo de visão "contraditória" das cartas de Paulo
para insistir em que "o pensamento de Paulo sobre a lei é cheio de inconsistências".1
Outros cientistas tentaram resolver o dilema supondo que o problema foi introduzido por
editores posteriores. Assim, o eminente cientista bíblico australiano J. C. O’Neill
declarou: "Se a escolha for entre supor que Paulo era confuso e contraditório e entre
supor que seu texto foi comentado e ampliado, não hesito escolher o segundo."2
E assim O’Neill procede eliminando muitas passagens, argumentando que seriam introduzidas
no texto por editores posteriores que o profundamente mal intenderam.
Ainda outros cientistas procuram um caminho para sair do problema psicologizando sobre o
apóstolo. Paulo, dizem, ficava preso num laço psicológico; tinha abandonado o Judaísmo e
a Lei, mas era incapaz de admitir isso nem a si mesmo nem a outros. Isso aparece ser a visão
de Robert Hammerton-Kelly da Stanford University, que escreve que Paulo firmou-se no
"papel [de Israel] no plano de salvação" devido a "poderosos fatores
pessoais" e um "caso de nostalgia que subjugasse o seu juízo".3
Os dois conjuntos de passagens antitéticas, portanto, refletem os dois cornos do dilema
religioso do próprio Paulo.
A solução mais comum para as aparentes tensões entre os dois conjuntos de passagens
tem sido aquilo que chamo de solução "subordinativa" – um conjunto é
subordinado ao outro. Na solução subordinativa, porém, são sempre as passagens pró
Israel que são subordinadas às passagens anti-Israel. Em suma, as passagens anti-Israel são
representativas para o verdadeiro Paulo; as passagens pró Israel são ou explicadas para
fora ou ignoradas.
Na solução subordinativa, Paulo é o pai do antijudaísmo cristão. O grande
historiador alemão Adolf Harnack o pôs deste modo: "Era Paulo que liberou a religião
cristã do Judaísmo ... Era ele que confiantemente considerava o Evangelho uma como nova
força que abolisse a religião da lei."4 Assaz
estranhamente, a solução subordinativa nunca começa com as passagens pró Israel e
subordinando as de contra Israel.
Mais importante: nenhuma dessas posições considera a possibilidade de que o apóstolo
para os gentios, escrevendo a igrejas gentílicas e tratando de assuntos gentílicos, esteja
se dirigindo, nos dois conjuntos de passagens, a duas diferentes audiências sobre dois
assuntos diferentes. É possível que no conjunto pró Israel esteja falando da Lei/Toráh
como esta se refere a Israel, e que no conjunto anti-Israel esteja falando da Lei/Toráh
como esta se refere a seguidores gentílicos de Jesus Cristo? Esta é a posição que
gostaria de explorar.
Para entender o meu argumento, precisamos entender que quero ler o texto num modo em que
ouvimos a sua voz, e não justamente a nossa própria. Lemos todos os textos dentro duma
estrutura. Sempre começamos com suposições. Nunca começamos com uma lousa limpa. E na
maior parte, quando lidarmos com textos como as cartas de Paulo, escritos num tempo e num
lugar radicalmente diferente dos nossos próprios, nossas questões e referências serão
muito distantes daquelas dos seus primeiros leitores. Na maioria dos tempos, nossas
estruturas ou suposições são incônscias, ficando tão profundamente engastadas na nossa
cultura e na nossa maquilagem cognitiva que tenham chegado a ser parte do modo em que
pensamos do mundo. Por isso, cometemos freqüentemente o erro de supor que não estejam aí
simplesmente, mas sim que façam realmente parte do modo com as coisas são. Uma vez que
chegarmos a ser cônscios dessas escondidas suposições, chegaremos a perceber a
possibilidade de mudá-las. Mudá-las cria-nos a possibilidade de entender o texto baseado
numa nova hermenêutica, ou princípio de interpretação.
Vejam as suposições que comumente trazemos conosco quando lermos as cartas de Paulo.
Primeiro, podemos ler as cartas de Paulo como escritura. Isso quer dizer que
aquilo que escreve é verdadeiro – talvez não no sentido que entendem modernos
literalistas bíblicos quando falam da Bíblia como verdadeira, mas pelo menos no sentido de
serem poderosas e autoritativas. Além disso, como parte do cânon cristão, supõe-se que
estejam por trás das verdades básicas da Cristandade.
Segundo, desde o tempo dos primeiros Padres Eclesiais até décadas recentes,
todos os intérpretes de Paulo leram-no a partir da perspectiva do triunfo da Cristandade
depois do decisivo rompimento entre Cristandade e Judaísmo. A reinante visão cristã do
Judaísmo durante todo esse período tem sido que os judeus teriam sido substituídos como o
eleito povo de Deus pelos cristãos (ou Cristandade), que os judeus não mais seriam os
portadores da promessa da salvação de Deus, e que sua única esperança para salvação
estaria no chegarem a ser cristãos. Nessa hermenêutica, resulta que também Paulo, com o
seu status canônico, deva-se ter atido a essa dominante visão cristã do Judaísmo. E isso
é exatamente como Paulo foi lido através da história cristã. Não justamente 80 ou 90 ou
até 99 porcentos do tempo, mas sim 100 porcentos do tempo, sem exceção – isso é até
recentemente, quando uns poucos cientistas dissidentes começaram, não só a questionar
aquela imagem, mas sim também a rejeitá-la completamente.
Um deles, Lloyd Gaston da Vancouver School of Theology, colocou-o deste modo: "É
Paulo que tem provido- historicamente – a estrutura teórica para o antijudaísmo cristão,
a partir de Márcion, através de Lutero e F. C. Baur até Bultmann."5
Para sintetizar: o que chamo a antiga visão de Paulo, baseia-se na seguinte estrutura de
suposições: Com a vinda de Cristo, Israel foi rejeitado (ou os judeus foram rejeitados)
por Deus como o eleito povo da aliança, a fé de Israel e a lei de Moisés (inclusive a
circuncisão) foi declarada invalida; Israel foi substituído como povo de Deus por um povo
novo chamado de cristãos, e a partir desse ponto em diante, o único caminho à redenção
ou salvação – para judeus e gentios – é a fé em Cristo. De acordo com essa
interpretação do ensino de Paulo, judeus e Judaísmo não jogam mais papel nenhum na obra
da salvação de Deus.
Esse é o resultado quando nos aproximamos a Paulo do nosso lado da linha de tempo.
Vivemos depois do triunfo da Cristandade e da separação final dos caminhos entre judeus e
cristãos. Paulo não vivia nisso. Trazemos, porém, aquela estrutura pós-paulina conosco
quando o lemos. E essas estrutura tem determinado o como o lemos – pelo menos até faz uns
poucos décadas, quando certo número de cientistas começaram a oferecer uma nova visão de
Paulo.
Considerem que acontecerá se, por um momento, considerarmos as cartas de Paulo a partir
do outro lado da linha do tempo, do tempo de Paulo ao lugar do nosso próprio. O quê
aconteceria se puséssemos em dúvida o triunfo da Cristandade no tempo de Paulo, ou ainda a
racha final entre judeus e cristãos? Ou – já que começamos a fazer perguntas duras
sobre nossas suposições – o que vai acontecer se relembrarmos (aqui não estou
inventando, mas simplesmente descrevendo) que no tempo de Paulo não havia outra Bíblia do
que a Bíblia Hebraica, nenhum Novo Testamento, nem mesmo qualquer idéia dum Novo
Testamento, nem Cristandade nenhuma, nem mesmo a idéia de Cristandade? Qual diferença fará
para a nossa leitura de Paulo, se trouxermos essas suposições, essa estrutura conosco,
quando lemos suas cartas? O resultado não é justamente um ajustamento menor aqui ou ali
nas franjas da velha imagem, imagem esta, que 100 porcentos dominava dos dias de Paulo até
aos nossos, é 100 porcentos errada, de alto a baixo, do começo até o fim.
O melhor argumento contra a velha visão vem das próprias cartas de Paulo. A velha visão
representa um completo ler mal de Paulo, que não começou com modernos teólogos cristãos
ou com Martin Lutero ou mesmo com Márcion no segundo século, mas sim com os próprios
contemporâneos de Paulo. E ele era bem cônscio disso. De fato, argumenta vigorosamente
contra isso na sua carta aos romanos. A própria Romanos é a refutação sistemática
daquilo que tenho chamado de a velha visão, mas agora com a afirmação adicional de que
essa velha visão já estava em circulação – sob o nome de Paulo – no próprio tempo
de vida deste.
Alguns exegetas argumentaram que Paulo nunca era realmente capaz de viver conforme as
exigências da Lei Mosaica, e que a Cristandade lhe deu a oportunidade de jogar fora aquele
fardo intolerável. Outros acham que chegou finalmente a ver o Judaísmo como nada mais que
a religião de formalismo árido, mera observância externa destituída de qualquer substância
espiritual real. A origem dessa visão é freqüentemente identificada com a visão do
Cristo ressuscitado cegadora de Paulo na estrada a Damasco.
Várias outras explicações artificiais foram propostas para a suposta rejeição do
Judaísmo por Paulo, que estão debaixo daquela que estávamos chamando de a visão velha.
Por exemplo, segundo uma das histórias, Paulo nasceu gentílico, enamorou uma mulher judia
e, como parte dos seus esforços para ganhar as afeições dela, empreendeu um esforço tíbio
de observar a lei mosaica. Quando ela finalmente o rejeitou, ele voltou aos seus velhos
modos pagãos, e deu vazão à sua frustração atacando o Judaísmo. Isso não é
justamente piada: É uma história que de fato circulava em círculos antipaulinos pouco
depois da morte do apóstolo.6
A história é preservada nas escritas do bispo cristão Epifânio de Salamis, Panarion
(também conhecido como Refutação de todas as Heresias)...
Todas essas explicações, antigas e modernas, têm uma coisa em comum: Cada uma supõe
que Paulo rejeitou o Judaísmo, substituindo os cristãos no lugar dos judeus, como o novo
povo de Deus.
Todavia, a evidência para isso vem, não das cartas de Paulo (a única evidência que
vem do próprio Paulo), mas sim de outras partes do Novo Testamento (uma coleção que nem
era imaginada no tempo da vida de Paulo), especialmente dos Atos dos Apóstolos. Tanto Atos
como o Novo Testamento como um todo são muito distantes do tempo e das circunstâncias de
Paulo, deram, porém, nascimento à visão tradicional de Paulo. A inconfundível mensagem
de Atos – repetidamente colocada na boca de Paulo – é que os gentios têm substituído
os judeus como povo de Deus. E Atos é estrategicamente posto antes das cartas de Paulo, uma
clara imagem de Paulo é-nos apresentada, que precondicione nossa reação às suas cartas.
Igual a Atos, a mensagem em toda a parte do Novo Testamento referente ao Judaísmo é que
o Judaísmo é rejeitado, invalidado e substituído por Cristandade. E se essa é a mensagem
do Novo Testamento como um todo, como podemos duvidar que sua figura central (13 dos seus 27
escritas reivindicam ter sido escritas por Paulo, e Atos é sobre ele) pregava a mesma
mensagem? Em resumo, as outras partes do Novo Testamento, particularmente Atos, sempre
serviram como a lente através da qual Paulo foi lido e interpretado.
Mas essa lente provê um retrato correto de Paulo, ou uma distorção do seu pensamento?
Diversos intérpretes recentes – inclusive Lloyd Gaston, já mencionado, Krister Stendahl,7
meu próprio antigo professor na Havard, e mais recentemente Stanley Stowers8
da Brown University – começaram a duvidar de tudo sobre a velha visão: de suas suposições,
de suas questões e de suas respostas – não justamente de detalhes, mas sim de tudo.
Um indício bastante claro de que Paulo tem sido terrivelmente mal interpretado, é
refletido no fato de que os defensores da interpretação tradicional de Paulo como o pai do
antijudaísmo cristão nunca chegaram a um acordo com as centrais passagens pró-Israel nas
cartas de Paulo (citadas no começo deste artigo).
Essas passagens contradizem redondamente a tradicional visão de Paulo como o autor do
antijudaísmo cristão. Não há simplesmente um jeito de reconciliar as passagens pró-Israel
com aquela visão. De fato, todas elas parecem estar dirigidas contra aquela visão, como se
Paulo estaria escutando os seus intérpretes posteriores balançando a cabeça consternado
sobre a má compreensão profunda da sua posição. E isto, como vou mostrar, é quase
exatamente o que estava acontecendo. Pois a visão tradicional estava circulando no próprio
tempo de Paulo. A carta aos Romanos não é senão uma sistemática – embora afinal mal
sucedida – tentativa de corrigir aquilo que Paulo tomou como sendo uma profunda distorção
dos seus ensinos durante o tempo da sua própria vida.
A esta altura, precisamos estabelecer uma inteiramente nova estrutura para ler Paulo. Em
vez de usar uma estrutura de fora das cartas de Paulo, seja no Atos ou seja no caráter do
Novo Testamento como um todo ou seja em esforços pseudopsicológicos para ler os seus
internos pensamentos, vamos procurar um conjunto de pontos de partida dentro das suas
cartas.
A quem Paulo está falando nas suas cartas, especialmente na Gálatas 5,6 e 6,15, onde
declara que circuncisão não é mais essencial para salvação? E porque insiste mesmo tão
furioso, outra vez em Gálatas, em que para gentios um novo caminho à redenção tem sido
tornado acessível, um caminho diferente do caminho de Israel, mas também testificado e
predito pela Lei e pelos profetas? E finalmente, Paulo (que sempre se refere a si mesmo como
o apóstolo aos gentios) crê realmente que a adesão de gentios a Jesus Cristo leve ao repúdio
de Israel e da circuncisão (que para ele é claramente um maior símbolo do relacionamento
de Israel a Deus) como o caminho à redenção para judeus?
Antes da sua vocação para ser o apóstolo aos gentios, quando era ainda fariseu, Paulo
era qualquer coisa menos neutro nos seus sentimentos sobre o novo movimento de Jesus. De
fato, era um ativo perseguidor de seguidores de Jesus (Filipenses 3,6). Indo em pós da sua
vocação, ou conversão, Paulo chegou a ver-se exclusivamente como o apóstolo aos gentios.
É que declara na Gálatas 1,15-16: "Deus, que me separou desde o seio materno e me
chamou por sua graça, houve por bem revelar em mim o seu filho para que eu o evangelizasse
entre os gentios..." Em outras palavras, sua divinamente apontada tarefa era levar uma
nova mensagem referente ao status e salvação dos gentios, um status diferente da antiga
aliança com Israel, mas não contra ela. É que declara em Romanos 3,13: "Derrubamos
então a lei por esta noção de fé? De modo nenhum. Ao contrário: sustentamos a
lei."
A mensagem de Paulo era intensamente escatológica: O fim do mundo estava à mão. Dentro
do tempo da sua própria vida, a trombeta iria soar, os mortos iriam surgir, e esta era
chegaria a um fim. Qualquer coisa estava acontecendo em passo febril. "... O tempo se
fez curto...", é que declara em 1 Coríntios 7,29.
Essa intensidade escatológica é especialmente relevante para dois centrais assuntos no
pensamento de Paulo. O primeiro é a expectativa em numerosos textos judaicos do tempo
quando a inclusão dos gentios como crianças de Deus tomará lugar no fim da história.9
O segundo é o elaborado cenário que mantém que a cegueira temporária dos judeus é
divinamente ordenada condição prévia para a inclusão dos gentios (Romanos 11). Conforme
o estágio final desse cenário, uma vez que os gentios forem trazidos a um novo
relacionamento com Deus, Israel vai recobrar o seu juízo e "Todo o Israel será
salvo" (Romanos 11,26). Notem que não diz: "Todo o Israel chegará a crer em
Jesus ou Cristandade", justamente diz: "Todo Israel será salvo".
Tudo isso supostamente iria acontecer no tempo de vida de Paulo. Quando não aconteceu e
quando cristãos posteriores começaram a ler Paulo fora da sua intensa estrutura escatológica,
o quê foi que sobrou? Justamente a cegueira e a exclusão de Israel! Para o próprio Paulo,
porém, pensar na cegueira de Israel como uma condição permanente, ou algo diferente do
que um plano divinamente escolhido para levar salvação aos gentios teria sido o cúmulo de
loucura
Mas isso é precisamente como a visão tradicional o interpreta.
Um fator final é importante no entendimento das cartas de Paulo a partir do ponto de
vista de Paulo: A mensagem de Paulo aos gentios e sobre estes – que lhes seria oferecida
salvação fora da aliança com Israel – era ativa e clamorosamente resistida por outros
dentro do movimento de Jesus. Esses grupos antipaulinos, que o próprio Paulo ligou com
Pedro e Tiago (o irmão de Jesus), insistiram em que seguidores gentílicos de Jesus não
pudessem ser salvos ou redimidos senão por chegarem a ser membros do povo de Israel. Para
masculinos adultos significava isso circuncisão. Sabemos também que esses líderes
antipaulinos de dentro do movimento de Jesus seguiram Paulo de cidade a cidade, tentando
impor seu evangelho de circuncisão nos crentes gentílicos de Paulo. A questão entre Paulo
e seus oponentes não era se gentios podiam chegar a ser seguidores de Jesus. Podiam. A
questão era se eles primeiro tinham de tornar-se judeus ou se, em que Paulo insistia, um
novo caminho para eles tinha sido aberto pela fé e morte de Jesus.
São esses apóstolos antipaulinos dentro do movimento de Jesus que são o alvo da ira de
Paulo. É contra eles que os seus argumentos estão direcionados. Sua preocupação com a
circuncisão não tem nada a ver com judeus fora do movimentos de Jesus (como ele nos conta
explicitamente em Romanos 2,25-3,4). Como o apóstolo aos gentios, é exclusivamente
preocupado com a questão da circuncisão de gentílicos dentro do movimento de Jesus.
Dois recentes intérpretes abordaram essas questões num modo que merece uma breve
digressão. O primeiro é Michael Wyschogorod, um filósofo judeu ortodoxo e estudioso de
Paulo por muito tempo. "No começo da minha carreira de estudante de Paulo,"
escreve, "estive profundamente perplexo por sua atitude referente à lei. Para ser
franco mesmo referente a isso, não podia entender como um judeu religiosamente sensitivo
como Paulo pudesse falar sobre a lei como o fez." 10
... George Foot Moore ... : "[Paulo] era, de fato, não escrevendo para convencer
judeus, mas para preservar seus convertidos gentílicos de serem convencidos por
propagandistas judaicos, que insistiram que fé em Cristo não era suficiente para salvação
à parte da observância da lei". .... Os "propagandistas judaicos" são os
oponentes de Paulo no movimento de Jesus.
A angústia de Wyschogorod é de um jeito de reação que a maioria dos judeus tem e
alguns cristãos também. O que acho simplesmente surpreendente é que até muito
recentemente ninguém achou que vale a pena considerar a solução simples de Wyschogorod,
que cito:
A questão para Paulo não é principalmente o significado da Toráh para judeus, mas
sim o seu significado para gentílicos crentes em Jesus ... Todas as odiosas coisas que
Paulo diz sobre a lei, pretendem dissuadir gentílicos de adotarem a lei, e serão
completamente mal entendidos, se forem lidas como expressões da opinião de Paulo sobre o
valor da lei para judeus.11
Em outras palavras: Paulo não falou coisas odiosas sobre a Lei como relacionada a
Israel: Não tirou a conclusão de que a Lei trouxe morte a Israel, e não ignorou ou negou
a doutrina bíblica do arrependimento e perdão para Israel.
Estou preparado para fazer o próximo passo: Sempre que qualquer declaração
supostamente explicando pensamento de Paulo começar com palavras semelhantes como
"Como um judeu como Paulo podia dizer X, Y, Z sobre a Lei", a declaração deve
ser considerada como descaminhada. Com toda a probabilidade, Paulo não está falando sobre
a Lei e Israel, mas antes sobre a Lei e membros gentílicos do movimento de Jesus.
Uma das maiores personagens na criação daquilo que chamo de o "novo Paulo" é
Lloyd Gaston, que o põe assim:
Paulo escreve a cristãos gentílicos, tratando problemas gentílicos-cristãos, destes
em primeiro lugar daqueles que tratam do direito dos gentílicos como gentílicos, sem
adotar a Toráh de Israel, à plena cidadania no povo de Deus. É digno de nota que na
discussão sem fim sobre o entendimento da lei de Paulo, poucos perguntaram o quê um
judeu do primeiro século teria pensado da lei no sentido de como ela se relacione aos
gentílicos.12
Se tomarmos esses fatos e essa estrutura como o ponto de partida para ler as suas cartas,
chegará a ser claro que a primeira – diria sua exclusiva - preocupação de Paulo era o
novo status em Cristo dos gentílicos, não o status de Israel.
Paulo estava constantemente na defensiva, não tanto contra os judeus fora do movimento
como contra outros apóstolos dentro deste. Especialmente em Gálatas, seus oponentes devem
ser entendidos como apóstolos antipaulinos, determinados em solapar o Evangelho de Paulo de
qualquer modo possível. Essas pessoas são o alvo da sua ira e de seus argumentos. Assim,
as declarações anti-Israel, citadas no começo deste artigo, não se aplicam senão no
status da Lei para gentílicos dentro do movimento de Jesus. Não têm significado, qualquer
que seja, para uma validez sua referente a Israel.
Embora a leitura falsa de Paulo tenha começado no seu próprio tempo e, até muito
recentemente, sido adotada por virtualmente todos os intérpretes, o próprio Paulo é tão
claro como alguém possa ser: "Circuncisão é certamente de valor, se praticares a
lei..." (Romanos 2,25).
Paulo nunca fala de gentios como substituindo Israel. (Notem que Paulo nunca se refere a
gentílicos membros do movimento de Jesus como cristãos; para ele, a humanidade é sempre
dividida entre judeus e gentios.) E Paulo nunca fala de Deus como tendo rejeitado Israel a
favor dum novo eleito povo.
Não posso negar que intérpretes através dos tempos o leram desse modo, mas mais uma
vez, creio que Paulo veementemente repudia essa falsa leitura do seu pensamento:
"Pergunto, então, tem Deus rejeitado seu povo [Israel]? De modo nenhum.!"
(Romanos 11,1).
Sobretudo, Paulo nunca fala da redenção de Israel em termos de Jesus. Quando não pode
mais pensar da salvação para gentílicos em termos da aliança mosaica, não imagina salvação
para judeus ocorrendo através da aceitação de Jesus por eles. Ou, para emprestar uma
linha de Lloyd Gaston, para Paulo, Jesus não era o Messias de Israel.
Como, então, podem 20 séculos de intérpretes estar tão errados? A resposta é que a
leitura falsa não é só incompreensível, mas sim também inevitável, dada a estrutura
dentro da qual Paulo foi lido no tempo seguinte à sua morte. Quando as pessoas perderam a
vista das circunstâncias imediatas das cartas, começando a assumir que os seus oponentes
eram judeus fora do movimento de Jesus em vez de outros apóstolos dentro, quando Paulo foi
lido através da lente de Atos e do Novo Testamento, quando a intensa visão do mundo
escatológica de Paulo tinha de ser abandonada, então a antiga leitura tradicional de Paulo
chegou a ser inevitável. É o resultado de ler Paulo dentro duma distante estrutura alheia,
antes de que naquela do próprio apóstolo, e de esquecer que Paulo é o apóstolo aos gentílicos,
e que está lidando com gentílicos e com o novo status destes em Cristo.
É a minha visão que a nova leitura de Paulo, que estou advogando, não é simplesmente
uma entre várias alternativas, mas sim a única leitura historicamente defensável. Esta é
uma atitude audaz, talvez ainda uma louca. Está certamente fora do passo com as modernas
teorias que considerem todas visões como possíveis e não permitam última adjudicação
entre elas. É também altamente presunçosa, até arrogante, na sua insistência de que 20
séculos de intérpretes erraram. Mas se estiver certo, todos os leitores, tanto judeus como
cristãos, precisam enfrentar as razões para as origens da antiga visão no primeiro século
e para a continuação desta desde então.
Notas:
1] Heikki Räisanen, Paul and the Law (Tübingen: Mohr,
1987), p. 264.
2] J, C. O’Neill, The Recovery of Paul’s Letter to the
Galatians (Londres: SPCK, 1972), p. 47.
3] Robert Hammerton-Kelly, Sacred Violence: Paul’s
Hermeneutic of the Cross (Minneapolis: Fortress, 1992), pp. 11-12.
4] Adolf von Harnack, What is Christianity? (New York:
G. P. Putnam’s Sons, 1901), p. 190.
5] Lloyd Gaston, Paul and the Torah (Vancouver: Univ.
of British Columbia Press, 1987), p. 15.
6] A história é preservada nas escritas do bispo cristão
Epifânio de Salamis, Panarion (também conhecido como Refutação de todas as Heresias)
30.16.6-9. Para tradução, veja The Writings of St. Paul, ed. Wayne A. Meeks (New
York: Norton, 1972), pp. 177-178.
7] Krister Stendahl, Paul Among Jews and Gentiles and Other
Essays (Philadelphia: Fortress, 1976); Final Account, Paul’s Letter to the Romans,
(Minneapolis: Fortress, 1995).
8] Stanley Stowers, A Rereading of Romans: Justice, Jews,
and Gentiles (New Haven: Yale Univ. Press, 1994).
9] Veja a discussão de W. D. Davies em "Paul and the
People of Israel", New Testament Studies 24 (1977), pp. 7-8.
10] Michael Wyschogrod, "O Impacto do Diálogo com a
Cristandade no Meu Auto-Entendimento como Judeu" em Die Hebräische Bibel und ihre
zweifache Nachgeschichte (A Bíblia Hebraica e a sua dupla Pós-História), ed. Erhard
Blum e outros (Neunkirchen-Vluyn: Neukirchener, 1990), p. 731. Wyschogrod hesita um poco,
afinal, porém, parece convencido (p. 733). George Foot Moore, no seu magistral Judaism
in the First Centuries of the Christian Era: The Age of the Tannaim (Judaísmo nos Primeiros
Séculos da Era Cristã: A Idade dos Sábios da Mishnah), 3 vols. (Cambridge, MA: Havard
University Press, 1962), fez uma observação semelhante, mas, como com muitas outras coisas
da sua obra, ninguém se preocupava com levá-lo avante: "[Paulo] era, de fato, não
escrevendo para convencer judeus, mas para preservar seus convertidos gentílicos de serem
convencidos por propagandistas judaicos, que insistiram que fé em Cristo não era
suficiente para salvação à parte da observância da lei" (vol. 3, p. 151). Os
"propagandistas judaicos" são os oponentes de Paulo no movimento de Jesus.
11] Wyschogrod, "Dialogue", p. 723.
12] Gaston, Paul and the Torah, p. 23.
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Tradução: Pedro von Werden SJ |