A cegueira de Israel e a cegueira da Igreja
de Paul M. van Buren
Israel como um todo, não viu que algo de novo estava acontecendo na história da Aliança
entre Deus e Israel. A razão essencial para isso é que a Igreja também não o vê. Israel
não conheceu a história de Jesus de Nazaré, e a da comunidade que se formou em nome
deste, como acontecimentos dentro da sua própria história. A Igreja não tem visto que o
Novo de Jesus Cristo e da Igreja é parte do permanente, da vida e da Aliança de Israel, e
que a sua própria vida devia existir cooperativamente ao lado de Israel. Israel não
consegue ver o novo, a Igreja não vê o permanente. Ambos estão cegos perante a realidade
de Cristo.
No que se refere à cegueira, havia exceções. Maimônides via as horríveis faltas da
Igreja; mesmo assim, cria que esta teria uma tarefa a respeito do fim final da Aliança.
Judah Halevi e o Rábi Jakob Emden o viam também (carta ao Conselho Judaico na Polônia,
cerca de 1750). Franz Rosenzweig sobressai de todos que como judeus reconheciam um caminho
cristão. Escreveu pormenorizadamente sobre isso, já meio século antes de que qualquer
pensador cristão falou positivamente sobre o relacionamento cristão-judaico (no seu livro
Der Stern der Erlösung – A Estrela da Salvação). Via o povo judaico e a Igreja como
comunidades que se apoiam mutuamente no serviço do UM Deus. Logo, devemo-nos perguntar
porquê a Igreja chega a falar tanto da cegueira de Israel e tão pouco da sua própria
cegueira.
A Igreja chegou a ser antolhos de Israel. O seu comportamento era tão terrível que
Israel nunca tinha uma chance de considerar o novo que tinha aparecido em Jesus Cristo, pois
o novo estava sendo apresentado numa maneira que o fez mensagem de espantalho para Israel e
perigo para a contínua subsistência da Aliança. A Igreja, no decorrer dos séculos,
procurou para que os judeus não pudessem reconhecer um momento de mudança na história da
Aliança de Deus.
Aproximadamente a partir da destruição de Jerusalém no ano de 70, a Igreja começou a
obscurecer a vista de Israel. Os rabinos interpretavam o acontecimento, em consonância com
a Aliança, como punição pelo pecado de Israel. Por isso, apontavam para a renovação da
Aliança. A Igreja, ao contrário, interpretava a destruição como sinal para o fim da
Aliança e colocou a si mesma como o novo Israel no lugar do povo da Aliança. A Igreja
confiscou as Escrituras de Israel como as dela próprias e as declarou para ser "Velho
Testamento". Ela asseverou ser ela mesma uma "santa nação e um real sacerdócio"
(1Pedro 2,9) e, já muito logo, começou a apresentar-se como o "verdadeiro
Israel" (Justino Mártir, Diálogo,123 e 135). Ela começou a encaixar o antijudaísmo
na sua teologia (Tertuliano) e, com isso, tomou um rumo hostil aos judeus, rumo esse que
entrou até para dentro do século vinte. E tudo isso em nome da novidade de Deus em Jesus
Cristo. Por isso, está inteiramente compreensível que o povo judeu não podia ver nada de
novo.
A Igreja apresentava-se a si mesma como nova religião, ignorando com isso o juízo da
Escritura sobre todas as religiões, novas ou velhas. Ela se apresentava numa maneira que,
para olhos e ouvidos da Aliança, era extremamente estranha. Nem judaica, nem pagã, mas sim
como "terceiro gênero". Se Cristo, porém, for arrancado do contexto do
relacionamento da Aliança com o seu povo, perde qualquer importância. O espantoso não é
que os judeus ficaram cegos perante esse monstro, mas sim que a Igreja sobreviveu com ele.
O parágrafo 4 da declaração católica do Concílio Vaticano II Nostra Aetate (outubro
de 1965) está devidamente sendo considerado como o primeiro passo desde o século primeiro
para modificar positivamente a doutrina eclesial sobre judeus e judaísmo. Mesmo assim, não
foi senão um passo fraco, ao qual, de fato, seguiram uma série de mais ou menos corajosas
declarações de Conferências Episcopais católicos. Nostra Aetate mesma, não menciona o
esquecimento de Israel dos dezenove séculos passados, também não fala nada sobre a imensa
culpa da Igreja, culpa essa que consiste na calúnia, perseguição, expulsão e cruel
assassínio de muitos judeus no decorrer dos séculos. Nostra Aetate, embora condene o
anti-semitismo, não diz nenhuma palavra sobre o fato de que era a própria Igreja que tem
injetado o veneno de desprezar os judeus em todo o mundo ocidental. O documento tem em si o
fim de servir à própria Igreja, representando consideravelmente auto-justificação
eclesial, o que é típico de declarações eclesiais. Com isso, descreve fielmente a arrogância
não mais sobrepujável, a qual é caraterística para o relacionamento da Igreja para com
Israel. Mesmo assim, Nostra Aetate foi um primeiro passo, e este veio do lado católico.
Muitas Igrejas protestantes têm, pouco antes ou desde então, examinado o seu
relacionamento para com o judaísmo, e mais que uma declaração eclesial cuidadosamente
elaborada tem falado de profunda culpa secular referente aos judeus, de conversão e do
pedido por perdão divino.
Também não poucos judeus proeminentes têm começado a ver a Igreja numa luz mais
positiva. Se Israel como um todo uma vez vai ver a novidade de Cristo dentro da Aliança
permanente, depende muito do comportamento da teologia da Igreja.
A Igreja gosta de falar muito de unidade, mas mesmo assim ela entende freqüentemente com
isso uniformidade e conformismo. Isso está claro até na sua história mais recente. Em
todo o caso, com pluralidade ela tem muito mais pena do que Deus tem. Fica, portanto, em
aberto se Israel vai-se meter numa colaboração estreita com a Igreja. Paulo deixa esta
questão com Deus (Rom 11,33-35 pode ser a sua resposta aos versículos 28-32).
Viver com visões diferentes
Com a sua recusa da Igreja e da fé desta em Jesus Cristo, o povo judeu oferece à Igreja
um testemunho. Primeiro, é isso um testemunho negativo sobre a novidade de Cristo. A Igreja
poderia perceber nessa recusa que tem arrancado o Cristo da conexão da Aliança e, com
isso, falsificado. Apresentado falsificado, ele causou um rompimento da Aliança. Este
testemunho de Israel para com a Igreja é ao mesmo tempo também positivo, considerando a
continuação da conexão de Aliança, no qual Jesus Cristo se encontra. Os judeus lembram a
Igreja de que Jesus era judeu, um israelita, fiel à Aliança e não conhecível senão
nesse conexo. Através de sua existência apenas, o povo judeu ajuda a Igreja na cristologia
dela.
Nesta perspetiva, a Igreja e Israel repartem importantes aspetos e um fim comum: o domínio
de Deus na terra em paz e justiça. Mas não têm visão comum, nem do fim nem do caminho
que conduz até lá. O fim de Israel tem o seu centro na restauração de Israel, enquanto a
Igreja visa a figura de Jesus Cristo. A Igreja e Israel precisam viver em atenção mútua,
não só coexistir. No colóquio com os judeus, porém, a Igreja tem de se cuidar para não
fazer a sua cristologia agradável aos judeus. Ela não pode dizer a verdade sobre Jesus senão
conforme esta chega a ser sabido por ela. Quando judeus no seu falar sobre ele também
reivindicam dizer a verdade, defrontam-se reivindicações de verdade contraditórias.
A verdade, então, tem de ser uma unidade? Embora fiéis achem que estão dizendo a
verdade, na realidade sempre depõem somente uma confissão de fé ou falam de um vínculo
de fé. Quando então dizem que estariam em contradição um ao outro, no fundo não dizem
senão que são crentes – judeus e cristãos. Dizer a verdade é para cada um deles uma
confissão de fidelidade ao caminho especial no qual se sabem chamados. Verdade pode ser uma
só, como Deus é um só, mas judeus e cristãos foram chamados para sempre mais outro
relacionamento para com o único Deus.
Usando para Jesus o título "Messias", a Igreja frisou com isso a continuação
da história e da Aliança de Israel. É que a principal tarefa do Messias era a restauração
do Reino de Israel (Atos dos Apóstolos 1,6). Como isso não se deu, a Igreja teve de dar um
novo conteúdo, não só ao papel do Messias, mas também às promessas e esperança de
Israel. Com o seu título de Messias, a Igreja enfatizou então de um lado a continuação
do relacionamento entre Jesus e Israel, e de outro lado a contradisse. Um exemplo disso é a
doutrina dos munera Christi, dos três ofícios (rei, sacerdote e profeta), a qual tem
importância especialmente nas Igrejas Reformadas. Esses títulos então, naturalmente,
precisavam ser esvaziados do seu conteúdo judaico e enchidos de significados completamente
novos. (Veja a cristologia de Karl Barth).
Paulo mostrou melhor como o permanecente entre Jesus e Israel pode ser descrito. Diz:
"Cristo (em Paulo antes nome do que título) chegou a ser servo da circuncisão (talvez
uma expressão para "Aliança") para a verdade (ou fidelidade) de Deus, para
firmar as promessas dos pais, para que os povos glorifiquem Deus pela sua misericórdia"
(Rom 15,8-9). Um tal pronunciamento não é somente menos problemático, mas muito mais
forte do que o antigo uso do título messiânico, e que nos foi transmitido nos evangelhos,
quando se tratar de descrever a continuação da história de Deus com Israel, Cristo e a
Igreja.
É mais forte, porque segura o permanente triplo:
- O Cristo mesmo estava no serviço do seu próprio povo como fiel judeu;
- Estava no serviço da fidelidade de Deus, a qual chega a ser clara por ele;
- Isso aconteceu para a confirmação da promessa de Deus.
E, finalmente, acrescente-se a tudo isso que os não-judeus são incluídos nesse triplo
permanente. Glorificam a Deus igualmente, pelo ato de que a misericórdia, que Deus presta a
Israel, foi feita acessível também a eles.
O assunto da novidade de Cristo é habitualmente tratado na forma de passado. O quê tem
mudado por ele? História não pode ser reduzida a questões somente do presente, a assuntos
como se diz "existenciais". Mas enquanto história se referir à vida e fé da
Igreja, é preciso começar com o hoje como uma parte dessa história. Fé viva começa no
presente, olha para o futuro, e então conta de novo o passado.
Pode ser que a novidade da Igreja presente seja difícil a ser reconhecida, pois ela se
entende como evidente. Mas é realmente tão natural que inúmeros não-judeus em todos os
cantos do mundo adoram o Deus do minúsculo povo judeu? Não é para admirar que típicos
"valores judeus", os grandes assuntos de paz, direito, misericórdia e perdão,
que a Igreja aprendeu de Israel, estão sendo pelo menos reconhecidos por muitas centenas de
milhões de não-judeus em todos os países? Trata-se da novidade de quem, senão da de
Cristo?" ...
Tradução: Pedro von Werden SJ |